– Eu vou acabar com o mundo. Disse o homem de terno.
– Quem é você? Perguntou o velho padre.
– Sou quem você combateu a vida toda e achou que tinha vencido, você perdeu, e eu vim te mostrar isso, para quando morrer, em breve, morrer sabendo que perdeu.
– Estou reconciliado com todos os meus inimigos, estou em paz com minha consciência.
– Amanhã estarei na sua paróquia, vou entrar na sua igreja durante a missa, e sentar próximo à você.

Deitado em sua velha cama, no quarto de sua humilde casa, em uma antiga paróquia provinciana do interior de São Paulo, o já cansado de anos padre Jorge acordou, naquela manhã de domingo. Ainda confuso preparou-se para a missa, e foi ao encontro de seu ex-aluno seminarista, o jovem padre Miguel, que a celebraria.

Sentou-se próximo ao altar, e tudo corria bem, até que uma família entrou, atrasados, muito elegantes, os desconhecidos tinham algo estranho. Cada um foi sentar-se em um lugar diferente, padre Jorge ficou absorto observando aquele movimento que apenas a sua atenção chamou, e de repente, enquanto olhava para sua destra, pelo outro lado, elegante e com um sorriso no rosto, um estranho que parecia o pai da família sentou-se, muito próximo. Era o homem de terno, que apresentara-se durante o sonho.

– Surpreso padre?!
– Você…
– Sim, eu disse que viria.
– Quem é você?
– Você pensa que venceu, eu vim só por diversão. O importante é que você sabe agora que estou aqui. Não achou que tinha vencido tão facilmente, só porque dedicou uma vidinha de 60 anos ao episcopado, ou achou?!

O padre apenas o olhava, sem nada dizer.

– Eu sei que você está entendendo, só está surpreso. Olhe para a segunda fileira, aquele calvo de olhos claros.
– O nome dele é Joaquim, o que você quer com ele?!
– Nada, na verdade é para você saber que estou falando sério. Amanhã, precisamente as 10 horas, logo de manhã, será seu último suspiro, e advinha quem vem para buscá-lo? HAHAHA! Você perdeu padre, esta alma vem comigo. Joaquim vai morrer em pecado…

Disse isso e sumiu. Padre Jorge não tirou os olhos de Joaquim até a missa acabar. No final, cercou-o e disse-lhe.

– Filho, está tudo bem com você?
– Sim padre! Está!
– Não o vejo no confessionário há mais de um ano…
– Estou sem tempo – disse com um sorriso amarelo.
– Filho, vamos agora?! É pouco tempo… e nunca se sabe o dia de amanhã! – disse o padre em tom de preocupação.
– Preciso ir padre, bom dia. Despediu-se e saiu Joaquim.

No dia seguinte, 11h, seu telefone tocou, era dona Marisa, esposa de Joaquim.

– Padre! O Joaquim não acordou! Ele… Padre… Meu marido…

Dona Marisa não conseguia terminar o que estava dizendo, mas ele já havia entendido. Joaquim não estava mais entre nós. Reconfortou-a como pôde ao telefone, e ao desligar, pegou seu velho casaco, virou-se de costas, e lá estava ele, o sujeito convencido do sonho.

– Pois bem padre, isto foi apenas um “oi”, padre, este é meu agora.

Esticou o braço, apontou para a porta, lá estava Joaquim, acorrentado e de joelhos.

– Senhor Joaquim, o senhor tinha um caso fora do casamento, mentiu para todos, sabia que estava em pecado, e consciente do erro ainda orgulhava-se do mesmo… estou certo, ou errado?!

Consentiu Joaquim com a cabeça.

– Hora de descer! HAHAHAHAHA! – e desapareceu.

Sentou-se o velho padre em sua cama, colocou a mão em sua testa e tentou entender o que estava acontecendo: ou estava louco, ou tendo visões, e de qualquer forma estava sozinho.

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