Entre os valores que a arte possui encontra-se o de aumentar a inteligência: a partir das narrativas podemos mergulhar nas situações propostas e vivê-las na pele dos personagens, e a maior parte das estórias provavelmente não viveremos em nossas vidas, no real. É este um dos pontos mais importantes de se consumir cultura, experimentar imaginariamente o que não nos está disponível na realidade.

Da maior parte dos questionamentos contemporâneos, entre os mais relevantes estão o amor e os relacionamentos, e principalmente “como o amor acontece?”.

Entre os inúmeros exemplos muito bem expressos pelo cinema selecionei um especial: o caso entre o anjo Castiel e a demônia Meg Masters, em Supernatural. Este caso é relevante pois, a identidade do fenômeno do amor entre os dois criada com o público foi impressionante, e, na morte da personagem Meg no seriado, uma quantidade impressionante de vídeos com homenagens de fãs ao casal inundou o YouTube, de forma que é impossível dizer que o público não viu qualquer semelhança entre a arte e a vida real ali.

Meg é uma demônia, Castiel é um anjo, Meg é imoral e aprende com uma dificuldade terrível, Castiel tem um caráter de ouro, e uma paciência de Jó, então, como foi possível que estes dois formassem um dos mais tocantes casais do cinema?

A leitura que faço é a seguinte: A mulher imoral sempre encontra paz nos braços do homem firme, e vice e versa.

O motivo é simples: simetria, a ausência de ordem corre em direção à ordem na medida em que o ser que dela precisa dela se afasta, não é uma escolha, é uma necessidade.

O homem firme já é firme em si e não requer uma mulher firme, pois sente-se em parte inútil com ela, sua firmeza de caráter é o aspecto que completa a imoralidade alheia; atrairá sempre os piores tipos, será capaz de perdoar inúmeras vezes e sentirá paz, o papel é quase que o de tutor, e geralmente funciona – tanto para o homem quanto para a mulher.

É esta cumplicidade simétrica que justifica o amor ao próximo como componente da redenção: o imperfeito ser humano na busca por agradar Deus ao auxiliar o próximo dando o melhor de si.

Pessoas muito parecidas nunca se apaixonam, suas qualidades e defeitos semelhantes demais, os tornam inúteis um ao outro, e não encontram papéis a desempenhar na vida um do outro, e deste ponto em diante, o casal Castiel e Meg não é apenas real, mas é acima de tudo necessário.

Reparem nos casais ao redor, todo mundo conhece um casal assim: uma garota metida a esperta que apronta todas, mas encontra a paz nos braços de um rapaz sério, aquele romance improvável que acontece, funciona, e ninguém sabe explicar como aconteceu.

Este tipo de leitura simbólica, que busca na arte a comparação com a realidade, é a coisa mais importante, é daí que se retira o proveito da arte, que identifiquei no início do texto, e é aqui, esta minha maior intenção: ajudar de alguma forma a despertar a percepção do público sobre a arte, e assim conduzi-lo até sua importância.

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