A arte traz sempre uma abordagem de alguma questão da realidade, sem a qual não seríamos capazes de compreendê-la, neste curto texto pretendo demonstrar a importância da leitura simbólica: a mensagem por trás da narrativa e ao tipo de reflexão que nos pode conduzir.

Assistindo aqui o 8º episódio da 10ª temporada de Supernatural, onde uma bondosa mulher (a xerife Donna Hanscum) tem um grave problema de auto-estima, me ocorreu algo:

O problema de baixa auto-estima surge quando pessoas aceitam receber dos outros menos respeito do que efetivamente merecem e começam a culpar-se por um ou mais indivíduos não criarem identidade espontaneamente consigo, é na verdade um problema com aceitar a realidade.

Como consequência então começa a acreditar que precisa se esforçar mais, “se eu emagrecer”, “se eu pintar o cabelo”, etc, numa dedicação desumana que não pode jamais trazer o resultado esperado.

E por que não pode trazer o resultado esperado? Porque identidade não se cria por aparências, se cria pela quantidade de signos registrados no outro que são identificáveis apenas pelo instinto, jamais pela via da intelecção, são ilegíveis até para o próprio portador.

É assim que pessoas se apaixonam sem aparente explicação, mas conscientes do processo emocional: quem está apaixonado sabe, quem não está também sabe, mas como a paixão aconteceu, isso não sabe e nem jamais vai saber, pois o instinto é inacessível ao racional durante o processo. Por exemplo, ninguém pensa “agora estou sentindo sede pois meu organismo está com falta de água” e em seguida vai beber água, a pessoa simplesmente pega a água e bebe, este “saber” não parte do racional, parte do instinto.

O processo degradante no qual entra uma pessoa que começa a culpar-se por não ter conseguido “conquistar” alguém é digno de pena, pois conquista não existe – não, não existe – o que existe é um encontro natural entre duas almas que se leem mutuamente, se identificam e então desejam a proximidade.

Em outras palavras, a beleza está nos significados que estão impressos em nós, e, jamais exclusivamente nas aparências de nossos corpos, roupas, e adornos de qualquer espécie, se alguém não gosta de você: aceite e parta para outra tentativa, aquela pessoa NÃO É para você, e obviamente você NÃO É para ela, e sendo assim a felicidade não reside ali, tentar insistir no erro só poderá trazer mais infelicidade.

A felicidade só é possível a partir de um bom relacionamento antes com a realidade, depois com todo resto.

A solução para o personagem da xerife Donna Hanscum seria aceitar a realidade, assumi-la: “o sujeito não gosta de mim, paciência”, e partir para outra ao invés de ficar se esforçando para mudar uma opinião que, ao que tudo indica, jamais mudará; se ela parasse de abrir mão da própria dignidade para agradar o sujeito, ela não conquistaria, mas também não se machucaria além da rejeição imediata, e sairia de cabeça erguida, e, nas próximas tentativas encontraria-se mais apta a vencer do que nesta do exemplo, e poderia dar certo num próximo relacionamento.

É evidente que esta é além da leitura da arte no cinema, também uma reflexão filosófica, e espero com isso plantar a semente da observação desse tipo de leitura: que é a essência da arte. É para isso que a arte serve, e é isso que temos que saber antes de começarmos a consumir arte. A arte nos deixa mais inteligentes ao fornecer-nos exemplos de circunstâncias e personagens que provavelmente não viveríamos no real.

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