– Em uma semana eu vou levar essa mulher.

Padre Jorge olha para o homem de terno e vê ao seu lado Carolina, a garota de cabelos castanhos, que viu crescer, se apaixonar por Vitor, casar-se aos 23 anos, levar uma vida de trabalho e dedicação, gerar um filho que ele mesmo carregou no colo e agora, com 30 anos, ela se encontrava ajoelhada, acorrentada, amordaçada e com uma plaqueta pendurada ao pescoço com uma acusação: adúltera.

Carolina chora olhando para o chão.

Os olhos do homem de terno acendem num amarelo fosco.

Padre Jorge acorda ofegante e assustado.

Apenas uma semana se passara após o último incidente, mal recuperara-se da tristeza do luto somada ao trágico destino de seu amado amigo. Ainda sentado em sua cama, com os olhos entreabertos, pegou o telefone e ligou para o padre Miguel:

– Miguel, por favor, vá até a casa da Carolina e veja se está tudo bem, pergunte por sua saúde e por qualquer questão que envolva sua vida.
– Sim padre Jorge! Vou a tarde!
– Vá imediatamente.
– Está acontecendo algo urgente?
– Eu não sei. Estou com uma péssima sensação filho, faça o que estou mandando.
– Está bem padre.

Desligou o telefone, trocou de roupa e decidiu uma rápida passagem pela mercearia enquanto aguardava a ligação do padre Miguel.

Chegando à mercearia, lá estava Carolina escolhendo produtos em uma prateleira.

Como se parasse o tempo, dentro de sua mente o padre ouviu uma gargalhada, passando mal encostou-se na prateleira. Jorge havia sido transportado dali, então viu o homem de terno com os mesmos olhos amarelos e ao seu lado um rapaz elegante, vestido socialmente, com um terno cinza escuro e uma gravata vermelha. Era o homem que lhe atormentava nos sonhos e lhe disse:

– Este é um de meus filhos, você o viu na igreja semana passada. Ele vai fazer um serviço para mim…

Disse isso e gargalhou.

Com um toque no ombro o padre voltou a si.

– O senhor está bem padre? – Carolina o abordara.
– Sim filha, estou, é o calor, mexeu um pouco com minha pressão, mas estou bem, obrigado. – respondeu surpreso.
– Foi um belo susto padre! Achei que o senhor fosse desmaiar!
– Está tudo bem filha. – sorriu Jorge e continuou – E com você? Faz tempo que eu não te vejo e…

Os olhos do padre quase saltaram de seu rosto. O rapaz elegante de sua visão acabava de entrar pela porta encarando-o firmemente, com um sarcástico sorriso no rosto.

– Com licença padre e senhorita, estou de passagem por esta região, não conheço nada aqui e preciso de algumas informações, poderiam me ajudar? – questionou com um tom de voz firme e um olhar sereno que não se mudava de direção: diretamente dentro dos olhos de Carolina.
– É senhora, ela é casada e tem um filho lindo. É melhor você pedir informação para outros, estamos ocupados aqui. – proferiu o padre em tom severo.
– Padre… o senhor está sendo rude, deixe o rapaz perguntar… oras… o que você precisa saber? – replicou Carolina com um sorriso nervoso.
– Perdoem meus maus modos, eu não vi que uma garota tão atraente já estava casada, mas minha intenção é apenas saber um determinado endereço. Estou procurando um parque chamado Rio Verde, mas de antemão peço que me desculpem pelo infortúnio, eu vou me informar com outros. – e sorriu para Carolina.
– Espere! Eu conheço o parque! É aqui perto! – interrompeu Carolina.
– Seria pedir muito que me acompanhasse até lá? Eu realmente estou perdido…
– Sim, seria. Você já tem sua informação, desejamos um bom dia. – seco, respondeu o padre.
– Imagine! Eu te acompanho! Padre, conversaremos em outra oportunidade! Foi um prazer encontrar o senhor aqui! – Carolina ofereceu-se para acompanhar o estranho, despediu-se do padre e foi-se sem levar nem suas compras.

O rapaz mostrou um Honda Civic preto, parado do outro lado da rua, disse algo para Carolina, abriu a porta do passageiro do carro e ela entrou, ele deu a volta no veículo, parou em sua porta, olhou diretamente nos olhos do padre que o fitava, sorriu malicioso, entrou no carro, deu a partida e saiu.

– MISERÁVEL! – gritou padre Jorge e deu um soco na porta.

Todos da mercearia olharam o padre, que sem dizer mais uma palavra saiu apressado em direção à sua casa.

Na praça, o rapaz convidou-a para sentar-se, enquanto esperava por alguém.

– Gosto deste lugar, tem cheiro de flores e tem flores por toda parte… – disse o rapaz insinuando que Carolina seria também uma flor.

Carolina sorriu agradecida.

– Eu cresci aqui, sabe, este é o lugar onde eu vinha para passar o tempo… quando estava triste ou pensativa.
– Esse olhar, você me parece triste, quer falar a respeito?
– Acho que não tem problema. Eu me sinto só, quando me casei, estava apaixonada, agora é só trabalho, tudo mudou…

Esticou-lhe uma flor e olhando-a nos olhos disse:

– Você merece, uma mulher tão dedicada, bonita, inteligente… e sua companhia me faz tão bem, eu não ousaria perdê-la, por nada mesmo…

Ambos pararam por um segundo e olharam-se nos olhos.

Aproximaram os rostos lentamente e Carolina fechou os olhos com o coração batendo forte.

Ao ponto do contato, Carolina viu a imagem de seu filho e despertou do transe:

– Eu não posso! Eu não posso! Me desculpe! – e saiu correndo do lugar.

Enquanto isso, padre Jorge atendia o telefone do jovem padre Miguel:

– Padre, eu não a encontrei em lugar nenhum!
– Está tudo bem filho. Eu já a encontrei, temos um problema.
– Estou indo aí padre! – disse Miguel e desligou o telefone.

Padre Jorge pegou o telefone novamente e fez outra ligação.

No dia seguinte, pela manhã, com o sol batendo em seu rosto pela janela, padre Jorge ouviu palmas do lado de fora de sua casa e levantou-se ainda de pijama, para atender. Colocou uma velha camisa, abriu sua janela e viu no portão o jovem padre Miguel, com um envelope beje e grosso nas mãos.

– Obrigado Miguel, você não faz ideia do valor de sua ajuda.
– Imagine Padre, é sempre um prazer, a qualquer momento, eu estarei à sua disposição, em qualquer horário! O senhor é um pai para mim!
– Obrigado! Tenha uma boa tarde…

Padre Jorge pegou o envelope e entrou.

Pouco mais tarde na mesma praça, Carolina sentou-se a pensar e ficou ali sozinha olhando o nada. A praça Rio Verde era geralmente sem movimento, longe dos olhos de todos, com um riacho ao fundo. As águas correndo e os pássaros lhe faziam companhia, até que subitamente, o carro do rapaz encostou. Ele desceu do carro e caminhou em sua direção.

– Com licença, posso sentar-me com você?
– Sim, pode tudo bem.
– Me perdoe por ontem… eu não sei o que me deu. Sabe, você mexe comigo… Eu olhei em seus olhos e senti algo forte.
– Está tudo bem. Não se preocupe.
– Eu sempre quis uma garota como você…
– Eu adoro o jeito que me trata, você é tão atencioso…
– Você é muito especial Carolina… eu estou apaixonado por você, perdidamente apaixonado…
– Pare… por favor… – Carolina sentiu o coração acelerar.
– Olhe, me desculpe mas eu tenho que falar… eu acho que… – e parou a fitar-lhe os olhos com seriedade.
– Não faça isso comigo, eu sou uma mulher casada!
– Se você me entregasse seu coração, eu poderia te amar para sempre… Carolina…

Carolina congelou, já não estava raciocinando, seu mundo girava…

– Carolina, olhe nos meus olhos, diga o que você sente por mim… – e pegou sua mão.
– Eu não sei quem é você, mas eu estou… eu acho que eu te…

Um garoto atravessou a praça correndo em direção à Carolina com um envelope na mão. Era o envelope do padre Jorge.

– Moça! Isto é para você! – lhe entregou e saiu correndo.

Carolina desnorteada ainda, abriu o envelope e puxou para fora um pequeno álbum de fotos: as fotos de seu casamento, o momento que dizia ser o melhor momento de toda sua vida. Olhou uma, outra e outra foto, uma após uma, sua mente voltou naquele dia e por instantes reviveu aquele momento, onde no altar de padre Jorge seus olhos brilhavam juntos aos de Vitor e ambos selavam seu amor com um “Sim, eu aceito!”.

Antes da última página as lágrimas desciam-lhe face abaixo e molhavam-lhe o vestido, ela encarou o estranho e disse:

– Eu não te amo! Eu amo o Vitor! Foi ele quem passou a vida ao meu lado e lutou comigo cada momento! Me ajudou a criar nosso filho! Nos distanciamos pelo dia a dia sim, mas é o único homem para quem eu já disse essa frase!
– Carolina, ele vai te largar sozinha de novo… eu vou estar com você!
– Não! Não!

Carolina levantou-se e passou a andar depressa para fora da praça.

O estranho rapaz a seguiu dizendo:

– Eu te amo Carolina! Eu te amo!

Correndo e olhando para trás, Carolina tropeçou no padre Jorge que a aguardava plantado rígido como uma rocha e desnorteada com um olhar completamente perdido lhe disse:

– Padre! Socorro! Eu não sei o que fazer! Eu estou confusa demais!
– Se acalme filha, eu estou aqui.

O estranho alcançara ambos, olhou sério para o padre e disse:

– Eu amo esta mulher! E eu vou ficar com ela!
– Não. Você não a ama.
– Como você pode saber de nossos sentimentos seu padre retrógrado e antiquado!

Padre Jorge riu-se divertido e olhando para ambos respondeu:

– Quando no velho testamento, Deus estabelece para não cobiçar a mulher do próximo, é porque, entre outras coisas ao escolher alguém para passar sua vida você exerce o livre arbítrio e se alguém não respeita seu arbítrio, sua escolha, esse alguém também não te ama. Ninguém que tenta te persuadir além do seu posicionamento, pode dizer que te ama, a pessoa ama apenas a si própria. Pode até ser que eventualmente amará alguém, é possível sim, mas no seu caso específico não, pois você já fez uma escolha um dia, já entregou seu coração um dia e merece respeito. Se alguém não te respeita, quanto mais poderá te amar?

O rapaz não tinha resposta e seus olhos ardiam num fogo incontrolável.

– Fique aí com esse padre acabado! – saiu, entrou no carro e partiu.

Carolina abraçou o padre, que a envolveu como um pai a uma filha, e encostando sua cabeça em seu peito, chorou como criança.

– Vejo você na igreja filha. Combinado?! – e sorriu.
– Padre! Eu não sei como te agradecer! Por um minuto eu quase joguei minha vida inteira fora!

Despediram-se.

Ao chegar em casa encontrou Vitor almoçando de passagem:

– Amor, estou correndo aqui, tenho mais 3 carros na oficina me esperando e tenho que entregar ainda hoje!
– Espera!

Carolina o abraçou, olhou-lhe nos olhos e disse:

– Eu te amo muito! Eu não sei o que seria minha vida sem você!
– Eu também te amo! Me desculpe pela correria, mas você sabe, para a gente viver com um pouco de conforto, eu tenho que trabalhar e não sou rico né! – riu-se Vitor divertido.
– Está chegando o fim de semana! Vamos ao cinema, está passando um filme novo que você vai adorar!
– Combinado! – aceitou Carolina entre lágrimas.

No final de semana, Carolina foi à igreja, visitou o confessionário e tirou de padre Jorge um sorriso paternal, em seguida foram ao cinema e Vitor descontraído deu-lhe os melhores momentos de sua vida desde seu casamento, jantaram com o filho, riram-se do filme engraçado e foram tomar um sorvete delicioso.

Após o passeio, o pequeno Mateus a abraçou com sua cabeça na altura da cintura e disse:

– Eu te amo mamãe! – e ela o pegou no colo.
– Eu também te amo meu pequeno grande homem!

Feliz e satisfeita Carolina, Vitor e Mateus voltavam para casa quando o refrigerante fez efeito e precisou ir ao banheiro, a vontade apertou e ela pediu que Vitor parasse em um estabelecimento. Vitor parou, ela abriu o vidro e perguntou:

– Moço! Posso usar seu banheiro?!
– Está quebrado! Corre ali na loja do outro lado da avenida!
– Me esperem aqui, vou até o banheiro e volto correndo! – e desceu apressada.

Carolina atravessou a avenida, entrou no estabelecimento, usou o banheiro e ao sair, distraída, leve, pensando em tudo que acontecera naquela semana, enquanto atravessava a avenida olhava Vitor e Mateus dentro do carro, pelos vidros e sorriu satisfeita pelo amor que tinha e a verdade que recebia em troca.

Então reparou que Vitor e Mateus haviam mudado suas expressões: a olhavam e gritavam algo desesperados.

Carolina viu a luz de um farol, ouviu o ruído de motores e uma buzina que se prolongou, o impacto do para-choque em seus joelhos e sentiu sua cabeça tocar o para-brisa do carro que voava naquela via em um racha com outro.

Atropelada e sem vida, os carros desapareceram do local. Ali, findara-se sua carreira nessa Terra.

O telefone de padre Jorge tocou, ele atendeu, ouviu e chorou.

Naquela noite em seu sonho, o estranho de terno e olhos amarelos o chamou:

– Então você que jogar pesado? Eu não vou levar essa alma, ela foi salva, mas acabou a brincadeira com você seu velho acabado.
– Eu não sei seu nome, não sei quem é você, mas não vou perder mais nenhuma alma para você, seu desgraçado. Isso não é um jogo seu psicopata!
– Meu nome é Azazel. E daqui para frente, vou jogar pesado. Você ganhou essa, mas acabou a brincadeira aqui.

Padre Jorge despertou afoito e ligou para Miguel:

– Filho, desculpe o horário, precisamos conversar.
– Mas padre, são 3 e meia da manhã!
– Tem que ser agora.

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