Após ler o diálogo de Hípias Maior, no qual Sócrates busca pela essência da beleza e refuta seu interlocutor, o faz admitir que não sabe o que seja a beleza, em seguida lança algumas teses às quais ele concorda, mas na sequência contra argumenta a si próprio e ainda refuta seu próprio argumento, deixando Hípias completamente perdido e por fim, não encontrando uma única hipótese válida admite não saber o que é a beleza, me encontrei angustiado com o problema; sobretudo porque entre as respostas que ele propõe, uma delas era uma ideia que eu compartilhava.

Então nesta manhã, tomando meu café, pensando sobre o assunto, notei que não apenas nas formas materiais há beleza, mas em ideias também.

Explico o ponto: se admitimos que por exemplo, um cavalo pode ser belo, então, aquele objeto delimitado pode, de alguma forma conter a beleza, mas se eu penso um belo cavalo, desde a ideia ele já é belo e portanto a beleza está presente já nas ideias, antes da matéria, do real concreto, físico e material.

Explorando esse ponto recorri a outras ideias que não pertencem ao físico material, que se manifestam exclusivamente através de fenômenos, como o amor por exemplo, que é feio por definição, pois almeja a beleza e ninguém almeja aquilo que tem, mas o que não tem, em seu apetite por beleza o amor confessa-se feio. Nessa confissão de feiura está a ausência da beleza e portanto sendo algo feio poderão os similares também serem feios ou bonitos, portadores ou não da beleza, como a justiça por exemplo, a justiça é bela, mas não é física material, não se pode comprar 1 quilo de justiça, nem 1 litro de justiça, nem medi-la em metros, enfim, não há qualquer definição material possível para tal conceito e no entanto ainda admitimos sua existência na mesma medida que admitimos sua beleza: não há justiça feia, a justiça é sempre bela.

Admitindo a justiça como bela e como fenômeno que precede a forma, também me ocorreu que ela pode ser percebida na alma, a justiça emociona e na emoção está sua beleza: a glória é manifestação da vitória da justiça. Quem não se emocionou assistindo Senhor dos Anéis, quando toda Terra Média dobra-se em reverência a Frodo Baggins e seus pequeninos amigos hobbits, começando pelo rei Aragorn? Só se seu coração for feito de mármore. A beleza sentida ali está num ato, num acontecimento e não num objeto material.

Embora não fosse um bom momento, parei o raciocínio aqui e voltei ao cavalo.

Decompondo uma forma bela ainda em ideia, porque, havendo cavalos belos tanto no material quanto no imaginário, então haverão também belos cavalos em pinturas e desenhos.

Havendo em desenhos supõe-se formas geométricas, havendo em pinturas admitimos também em cores, luzes e sombras.

Embora sempre associada à beleza a luz, por outro lado nunca pensei a escuridão como feia e mesmo na presença de ambas, o contraste tem sua beleza.

O que me ocorre é que sendo a escuridão completa a total ausência de luz, também nada se pode enxergar e portanto nada se pode avaliar quanto à qualquer aspecto, incluso a beleza, então o que deduzo é que a única afirmação concreta que posso fazer é que a luz serve de acesso à percepção, qualificando o acesso aos objetos, mas nada diz especificamente sobre os mesmos, é um meio (pelo menos até aqui, pode ser que num futuro ainda mude de ideia).

Decompondo ainda as formas desde a imaginação, também me ocorreu que as cores são variações da luz e contribuem de forma análoga à identificação dos objetos, sendo que se estiverem em harmonia com sua essência nos causa um conforto (grosseiramente falando), mas se estiverem em desacordo nos causam o contrário, um desconforto, uma estranheza: ninguém se sente bem imaginando coisas sem harmonia com sua essência, os filmes de terror exploram muito isso, como mortos vivos, zumbis em The Walking Dead, a harmonia consiste nesse caso que um morto comporte-se como tal, permaneça estático apodrecendo e não que saia andando em plena putrefação, da mesma forma que é feio um ferro velho cheio de carros caindo aos pedaços e enferrujados, como é feio um banheiro de rodoviária (pelo menos aqui em São Paulo é horrível) ou ainda um acidente trágico de trânsito.

Recorrendo aos limites das imagens, subtraindo cores e luzes, sobra por fim o desenho, as linhas, que por sua vez culminam em formas geométricas donde suponho que um losangolo seja mais belo que um rabisco qualquer e que agora sim, veja beleza mais nitidamente que nos outros aspectos, como as cores e as luzes: a dedução é que, se a beleza está mais nitidamente nas formas então antes de encontrar a beleza, é necessário poder identificar os objetos e disso ainda deduzo que a geometria e o catálogo das formas contém a beleza, mas ainda não seja a própria forma a beleza.

Mas supondo que não seja visível, uma vez quem nem só o visível é belo, na música por exemplo, há beleza.

Admitimos que existem belas músicas e outras feias, então mais uma vez decompondo, a música é composta de harmonia, melodia e ritmo, dos quais a harmonia consiste em que os sons combinem, a melodia em que os sons permaneçam combinando sucessivamente e o ritmo que a melodia forme um ciclo em intervalos de tempo, assim no final das contas a parte mais importante é a harmonia.

Uma música fora de harmonia, será feia de qualquer maneira (exemplo abaixo, só o começo do vídeo é o suficiente):

Na música a harmonia das notas com a essência contém a beleza e na imagem a harmonia das formas com a essência é que contém a beleza, me parece que a beleza está na harmonia do contexto com a essência, acontece que, nem tudo é som ou imagem que são físicos e de certa forma materiais (apenas de certa forma materiais, pois a imaginação e as sensações não são materiais, são mentais, são percebidas e sentidas) e retornamos então aos conceitos mencionados anteriormente, as ideias totalmente imateriais, como a justiça.

A justiça não é a única ideia bela, mas por ser ideia já significa que ideias podem ter beleza.

Se as formas geométricas podem ter beleza sem encontrar no entanto correspondência pura no mundo material, participando apenas da formação de uma ideia maior, ou seja, da abstração, por exemplo: um quadrado é uma forma geométrica apenas, mas concatenado à outras formas compõe formas do mundo material, por exemplo, um dado de seis lados, que é um objeto formado por quadrados.

As formas geométricas puras são integrantes no processo de composição de outras mais complexas do mundo real, logo, já no processo de formação das ideias a beleza pode ser encontrada.

Pelo que entendo, as formas – todas elas – comunicam algo e portanto são expressão. Para que haja expressão é necessário haver alguém que expresse, alguém que perceba-a e um meio, um lugar para que a expressão possa existir, pois se a mensagem parte de algum lugar e chega em outro, então há separação entre emissor e receptor, há também a mensagem em si e um espaço no qual estão os três, a mensagem, o emissor e o receptor.

Onde quero chegar com isso? É simples, se a beleza está presente já no processo de formação das ideias, então é participante do próprio cosmo. Repare que a beleza está presente nas formas, no processo de formação das ideias e até em fenômenos, sendo percebida por nós e portanto sendo emitida de alguma parte.

Uma vez que a beleza é emitida junto ao conteúdo da mensagem, resta saber se o emissor tem consciência da mesma, ainda que não saiba o que ela é exatamente. Nisso eu acredito que a resposta seja positiva, pois Beethoven mesmo sendo surdo sabia que sua música era bela, não apenas bela, mas a melhor e da mesma forma uma mulher sabe quando está bela após gastar horas para se arrumar. Ali, a beleza é produzida pela alma.

Acontece que a alma não é a beleza, mas emite a beleza.

Até aqui, sei isto: que a beleza está presente desde a formação das ideias, que está presente nas formas comunicadas, que quem a produz para emitir são as almas e que as almas não são a beleza. O que não sei é se a beleza está presente já nas almas, ou se é um produto das mesmas.

Em outro momento continuarei esta investigação deste ponto.

Continuação: clique aqui.

Anúncios