Continuação do raciocínio Sobre a essência da beleza.

Concluí o texto anterior com a seguinte afirmação:

“Até aqui, sei isto: que a beleza está presente desde a formação das ideias, que está presente nas formas comunicadas, que quem a produz para emitir são as almas e que as almas não são a beleza. O que não sei é se a beleza está presente já nas almas, ou se é um produto das mesmas.”

Continuarei deste ponto. Relendo o texto anterior notei que é possível sentir a beleza sem no entanto discerni-la, sem sermos capazes de dizer o que ela é. Sabemos que ela está lá, sem saber qual sua substância.

A feiura implícita do amor concatenada às capacidades de sentir e perceber da alma e à sua limitação e forma, implicam em afirmar que alma possua beleza em seus atributos.

No amor, uma alma deseja a beleza que está na outra alma, portanto, a alma pode possuir sim a beleza.

No entanto, entendendo a alma como unidade indivisível, é forçoso afirmar que a beleza de uma alma seja indissociável da mesma.

Eis porque o amor pode ser eterno: o desejo de uma alma pela beleza da outra é um apetite insaciável que se renova e não se satisfaz, dado que a alma é uma unidade, portanto indivisível e sendo indivisível nada se pode subtrair, portanto, o desejo de uma alma pela beleza de outra é um desejo de consumo: a segunda alma consome a beleza produzida pela primeira. Acontece que, sendo a beleza componente de algo que pode ser consumido por uma alma, então é como parte de uma mensagem que é transmitida, que possui um ponto de partida, um corpo e um ponto de chegada; ela sai de uma alma e chega em outra. Sabendo disso, importa afirmar que ninguém pode dar nada que não possua e portanto a beleza deve estar presente em uma alma antes que seja transmitida para outra.

Logo a beleza pode ser considerada um atributo da alma e ainda um produto, como cópia do imaterial para o material através da expressão da alma.

Para expressar algo, é necessário possuir este algo antes: ninguém expressa (põe para fora) uma mensagem que não esteja antes dentro, impressa.

Se por um lado não conseguimos discernir a beleza ao ponto de dizer o que ela é, por outro lado podemos senti-la: o efeito da beleza é a admiração e portanto a causa da admiração é a beleza.

Quando observamos toda arte que nos causa admiração – de qualquer natureza – e até os atos oriundos de ideias como a justiça, sabemos que tais atos e artes foram em algum ponto por nós criados, não no sentido de tirar algo do nada, do vazio, mas no sentido de produzir, ocorre que só por esse processo de formação, no qual a beleza já está presente, implica dizer que a beleza está associada à criação e que seu criador deve possuí-la, que estando presente no cosmo foi também criada pelo que criou o cosmo, pois se está presente e é participante do processo de criação, então o cosmo foi obviamente criado por alguém que conhecia a beleza e é portanto um dos alicerces do universo desde o princípio.

Então, também é necessário dizer que a beleza é uma criação de Deus, pois sem o mesmo a alma não poderia jamais possuir a beleza, a necessidade de impressão da beleza na alma, implica também em fusão definitiva com a mesma, que é indivisível e isto só poderia ser feito por Deus.

Uma coisa é certa: a beleza é uma característica da alma que pode ser expressa, copiada.

Acredito que Platão estava certo: o mundo das ideias perfeitas pode sim existir, pois, se a beleza está presente no processo de criação humano, como cópia de ideias, é forçoso dizer que tais ideias existam antes para ser por nós copiadas.

Inicialmente noto que nos objetos e atos a beleza é o que os torna desejáveis ou indesejáveis em sua ausência, aquilo que nos atrai ou nos repele. Lembrando que a beleza é a causa da admiração e a admiração o efeito da beleza, sabemos que pode ser sentida pela alma.

No entanto, dizer que a beleza é o que torna as coisas desejáveis, não nos diz o que ela é, nos diz o que ela faz. Podemos dizer que a iluminação é o produto de uma lâmpada na medida que uma lâmpada produz iluminação, mas isso não nos diz totalmente o que a lâmpada é além de sua função.

Em outras palavras, sabemos a atividade da beleza, mas não sua substância, ainda.

Partindo do ponto que a beleza afeta uma alma, que a alma almeja consumir a beleza e que a beleza produz um efeito de satisfação na alma, então sabemos que a beleza é uma espécie de alimento da alma.

A alma por sua vez possui virtudes como capacidades e nas virtudes há beleza, justiça, sabedoria, temperança e fortaleza (entre outras), então estando a beleza presente nas virtudes e ausente nos vícios (que se opõe as virtudes), como avareza por exemplo, nada mais feio que um indivíduo avarento, não vou me alongar nos vícios e virtudes, mas é notável que a beleza é mais facilmente encontrada nas virtudes do que nos vícios e que em alguns vícios a beleza é completamente ausente. Disso deduzo que a beleza é integrante da parte boa da alma antes de ser produto da mesma.

Inclusive não seria possível ser produto se antes a alma não a possuísse: disso já não tenho dúvidas partindo do princípio da estrutura da comunicação, emissor, mensagem, receptor e meio.

Então até aqui sabemos que a beleza pode ser sentida embora não saibamos discerni-la, sabemos que está presente na alma, que é componente da criação do cosmo e portanto de origem divina e que a parte da alma que mais possui beleza é a parte virtuosa e não a viciada.

Partirei deste ponto no próximo texto.

Continuação: Sobre a essência da beleza – parte II

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