Como meus amigos, leitores e seguidores sabem sou crítico de cinema (e sempre agradecendo pois sem vocês isto não seria possível).

Das leituras que faço dos enredos, um ponto que sempre me chama atenção é a formação dos casais.

Para um casal ser convincente, no cinema, é necessário criar identidade entre os personagens e isto não é exclusividade da sétima arte, é um fenômeno real, sem o qual um homem e uma mulher não serão jamais um casal.

Como estou maratonando Arrow, na primeira temporada ainda, há um casal que me chamou atenção: Oliver Queen e Laurel Lance. Eles brigam, eles se afastam, eles se desprezam, eles tem todos os motivos do mundo para ficarem um distante do outro, mas, quando ele aparece as pernas dela até tremem e quando ela aparece o mundo dele pára.

Como foi possível criar esse efeito? Atuação e um bom roteiro.

Uma vez que a atuação é sobre vestir um personagem, no que consiste o roteiro? Numa narrativa na qual seus mundos se encontram em algum ponto e se torna indiscernível, se tornam necessários um para o outro.

Para entender melhor esse fenômeno vamos dar uma passeada pela filosofia.

A razão humana segue três princípios:

  1. Princípio de identidade
  2. Princípio de não contradição
  3. Princípio de exclusão do terceiro

O princípio de identidade é aquele que nos torna capazes de discernir entre os dados de realidade, é o que nos possibilita dizer “isto é uma laranja”.

O princípio de não contradição é o que nos impede de pensar que uma coisa seja ela e seu contrário ao mesmo tempo, então +1 jamais pode ser -1, uma laranja só pode ser pensada por presença ou ausência, ou seja: “isto é uma laranja” jamais poderá ser ao mesmo tempo “isto não é uma laranja”. É o famoso “ou é ou não é”.

O princípio de exclusão do terceiro é que um elemento só possa ser pensado por presença ou ausência e não exista qualquer outra possibilidade, são apenas estas duas e não há uma terceira. Não é possível que uma laranja seja um pneu, por exemplo.

Estes princípios são o norte da razão humana, é como o racional funciona, é como entendemos tudo e absolutamente tudo.

É assim que discernimos as coisas.

Criar laços e identidade, significa descobrir o que movimenta aquela pessoa, quais suas necessidades mais íntimas, quais seus princípios e valores e como isso confunde-se em suas dificuldades.

Oliver é o Arqueiro Verde, um herói, Laurel é uma advogada criminalista, ambos norteados por princípios e valores de honestidade, justiça e honra, que estão acima do valor do dinheiro: ele é um milionário e isto não quer dizer absolutamente nada para ela.

Enquanto ele realiza-se em sua atividade heroica, ela por outro lado realiza-se em sua profissão, defendendo inocentes e colocando culpados na cadeia: o que eles fazem é precisamente a mesma coisa, seus interesses vão na mesma direção e por esse alinhamento espiritual, metafísico, que mais tem a ver com a alma do que com o corpo, acontece ali um encontro de almas. A proximidade os balança e mesmo ele com outra e ela com outro, ainda são um do outro sem qualquer dúvida. Qualquer expectador os percebe e pensa: o destino deles é ficarem juntos, queiram ou não.

Então, isso não é auto-ajuda, é uma abordagem racional do tema.

Importa pouco quanto você tem de dinheiro ou como se parece, o formato de seu corpo, seus atributos físicos, financeiros, como se veste e toda sorte de classificações materiais, a predileção sempre será pelo seu lado espiritual, pelos princípios e valores que te regem nas atividades que você desenvolve.

A identidade cria-se quando, seus objetivos mais íntimos, suas mais altas aspirações, aquilo que adorna sua alma, encontra outra alma caminhando na mesma direção.

Mas como criar isso? Primeiro é necessário descobrir se existe possibilidade. É necessário investigar a alma daquela pessoa com perguntas simples que lhe dirão se estão de acordo ou não. Estando de acordo, basta mostrar-se e demonstrar interesse pelo outro, que tudo fluirá sem qualquer necessidade de pedidos idiotas comuns aos adolescentes “quer ficar comigo?” ou outras imbecilidades da juventude: o beijo acontecerá sozinho porque os olhos falarão, sem qualquer formalidade.

Quando alguém te diz “estou com um problema” é porque a pessoa desconfia que você pode estar alinhado aos seus objetivos íntimos e está testando você, nesse caso pergunte sobre sua atividade e quais os motivos para escolher aquela atividade, pois é nisso que reside a alma da pessoa: nenhum rapaz joga futebol porque a bola é redonda, mas por outros motivos que são inumeráveis, nenhuma mulher torna-se médica porque gosta de ver gente doente, há sempre outros motivos por trás. É descobrindo estes motivos que você poderá saber se é possível ter algo com aquela pessoa, ou se é uma perda de tempo.

A identidade está nos motivos com mais força que nas atividades: é possível que uma garota que escolheu ser professora, tenha um prazer imenso na caridade ao ajudar crianças mais do que escrever na lousa com giz, na mesma proporção que um rapaz que sonhe em ser policial tenha por objetivo fazer justiça mais do que andar fardado.

Pergunte sobre o trabalho e quais os motivos para escolher aquele trabalho, sobre o lazer e quais os motivos para aquele lazer, sobre a religião, etc, mas todas as perguntas sempre acompanhadas de quais os motivos.

É na essência que a identidade pode ser criada e é um fenômeno natural também.

De antemão, se você está procurando as pessoas por beleza física, status social, ou qualquer outro motivo que não seja esse tipo de alinhamento você jamais viverá um amor de verdade.

No entanto, se quiser encurtar o processo e filtrar melhor as possibilidades, o caminha é sem dúvida esse: conhecer a si e ao outro em profundidade.

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