No texto anterior Sobre a essência da beleza – parte II, conclui com a seguinte sentença:

“Então até aqui sabemos que a beleza pode ser sentida embora não saibamos discerni-la, sabemos que está presente na alma, que é componente da criação do cosmo e portanto de origem divina e que a parte da alma que mais possui beleza é a parte virtuosa e não a viciada.”

Vou desenvolver a busca a partir deste ponto, mas procurarei sanar algumas dúvidas que me surgiram no texto anterior.

Entendendo a alma como unidade indivisível e nela estando presente a beleza, me surgiu uma dúvida: uma unidade indivisível pode ser um conjunto? ou seja, a alma, contendo a beleza, torna-se forçosamente um conjunto, mas é por definição uma unidade e logo não poderia ser divisível. A resposta para isso a meu ver é que a alma seja unidade indivisível no sentido último de ser e não de composto. Exemplifico: um corpo, considerado como união de cabeça, tronco e membros, ao ter qualquer uma de suas partes amputadas, desmembrado, destroncado ou decapitado, deixa de ser um corpo perfeito, deixa de ser um corpo, assume a forma de variação de corpo, mas já não é um corpo. Compreendendo um átomo como o conjunto do núcleo e dos elétrons, se subtrair-lhe o núcleo, ele deixará de ser um átomo. Compreendendo uma cadeira como uma base de assento com encosto para as costas e pernas, quando subtraímos uma das partes ela se torna outra coisa, por exemplo, ao retirarmos o encosto para as costas, a cadeira torna-se um banco e deixa de ser cadeira. Então neste sentido de unidade, a alma também possui seus atributos que não podem ser amputados, sem os quais não seria alma e entre estes atributos a beleza.

Então sim, a beleza está presente na alma e não pode ser separada dela.

Analisando a questão ainda nas formulações anteriores de um ângulo mais aproximado, é impossível negar que a beleza esteja presente desde a formulação, desde a abstração das ideias, já nas formas geométricas e na matemática pois:

  1. Uma joia é mais bela que uma pedra bruta e o tratamento que recebe implica em dar-lhe algum formato geométrico.
  2. A música sem harmonia, melodia e ritmo não se realiza, compõe apenas ruído e tais padrões necessários são antes entendidos matematicamente e depois expressos em pautas musicais que são lidas como expressão padronizada.
  3. A poesia depende de um padrão sonoro rítmico, que deve ser antes entendido como ciclo temporal e novamente a matemática está aí presente.
  4. As formas geométricas que compõe uma joia, conforme o item 1, são todas expressas matematicamente.

Se no primeiro e quarto casos as formas são visíveis, no segundo e terceiros são audíveis e a interseção dos conjuntos dá-se exclusivamente na formulação matemática.

O que novamente implica que já a beleza está presente no processo de abstração, na formulação, antes da própria forma.

A forma recebe a beleza, mas não é a própria beleza.

Inclusive tal afirmação suscita seu contrário: há formas que não contém beleza e somente por isso a forma não pode ser a beleza, sendo discernível. Um copo pode conter água, mas o copo não é a água, na medida em que a forma contém beleza, mas não é a beleza.

Numa rápida divagação explorando a geometria, é possível também encontrar comunicação nas formas geométricas primitivas, a geometria contém significados desde o início.

  1. Um segmento de reta implica na ideia de continuidade.
  2. Uma curva, uma mudança de direção.
  3. Uma segmento de reta que descende do outro, como num ângulo calculado, implica numa mudança elaborada racionalmente.
  4. Desde o item 1, nada seria possível sem a existência de um ponto.

O ponto, como expressão geométrica, é o princípio, é o sinal de que uma ideia está para ser expressa, é a expressão inicial da existência de algo a ser comunicado (talvez a unidade disforme).

Para um quadrado, antes de ser forma geométrica, é uma forma, o que implica dizer que a geometria seja uma expressão matemática e visual (por assim dizer) das formas, logo as formas não estão resumidas à expressão visual. Formas, entendo como as regras para abstração racional.

Forma geométrica de quadrado: conjunto de regras para que expresse um quadrado e no final das contas, quatro segmentos de retas de igual tamanho ligados por quatro ângulos retos, a forma no final das contas é o resultado da fórmula.

Olhando por esse ângulo, é necessário dizer que na música também o mesmo padrão se reproduz: a música possui um conjunto de regras, de padrões, que se entende por harmonia, melodia e ritmo, que expressam-se por uma pauta musical e dessa forma torna-se acessível aos músicos que a executam.

Se nas pautas comunicam-se as músicas, respeitando tais regras, então a forma da música é necessariamente esta e portanto é inegável que a música tenha uma forma, da exata mesma maneira que a geometria.

Considerados estes pontos, retorno ao ponto das ideias que se manifestam puramente em fenômenos e atos e que ainda contém a beleza, como a justiça, a caridade e a bondade, entre outras.

Tais atos praticados a partir de ideias, no que se tornam conceitos (conceito é quando uma ideia encontra a correspondência na realidade), são em algumas culturas, como os gregos e romanos, precedidos por ilustrações que contém em si as regras. No caso da justiça por exemplo (a mais famosa):

A imagem acima é da deusa grega Themis, deusa da justiça e contém em si as regras: as balanças em pratos iguais simbolizando que os fatos serão pesados segundo as regras, os olhos vendados informando que a ninguém deve haver privilégio em detrimento de outrem e uma espada na mão em sinal de prontidão para quem afrontá-la.

Tal imagem é uma forma, é um conjunto de regras condensado pela ideia, portanto as virtudes também são ideias regidas por regras e nisso assemelha-se à música e às imagens: é o que as três categorias possuem em comum.

Em outras palavras, as regras norteiam os métodos, são as fórmulas antes da forma: sem a fórmula do quadrado não há quadrado final, sem as notas na pauta os músicos não a reproduzirão e sem os princípios não há justiça.

Também acontece que a beleza está impressa no cosmo todo antes de nós sequer a imaginarmos e ainda assim causa-nos naturalmente admiração.

Tal beleza é inegável e acessível a qualquer momento.

E qual o significado disso? Qual o significado da beleza estar impressa no cosmo antes do nosso contemplar? Significa que, para estar impressa implica dizer que em algum momento foi impressa, a recebeu de algum lugar e portanto tem uma fonte. Sabendo que todo cosmo nos precede, também é forçoso que a beleza nos preceda a todos. Sendo a beleza anterior à humanidade e ainda assim impressa, só pode ter sido impressa de fora: a beleza é mais uma vez divina.

Tanto na natureza quanto no planeta que me servi acima para exemplificar, há formas geométricas e portanto há forma e portanto há regras que os precedem.

Sugiro aqui pela primeira vez que a beleza seja o respeito às regras na formulação, uma vez que a beleza está nas formas e as formas não sejam a beleza, o que as formas contém é o respeito às regras no processo de criação.

Uma vez que um erro seja um desrespeito às regras e não encontro beleza nos vícios, nas imagens disformes e nas músicas sem harmonia, já rejeito a afirmação que há beleza nos erros – mas ainda há muito a ser explorado nessa questão.

Posso estar errado, mas vou continuar essa exploração em outro momento.

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