O filme Cinquenta tons de cinza foi aos cinemas em fevereiro de 2015. Adaptado do romance homônimo de Erika Leonard James, carregou consigo uma legião de fãs, principalmente o público feminino.

O roteiro de Kelly Marcel procurou narrar a estória de Anastasia Steele e Christian Grey. Um romance imprevisível entre uma tímida e inexperiente estudante de literatura inglesa e um mega empresário com um curriculum de mulheres impressionante.

Anastasia o procura para fazer um favor para uma amiga. Ela precisa apenas fazer algumas perguntas para uma curta entrevista. Ele a recebe e concede um curto tempo para responder-lhe as questões. Deste evento, surge um interesse maior da parte de ambos. Christian comporta-se como um controlador obsessivo e a garota deixa-se levar inicialmente pela curiosidade. Em certo ponto descobrem-se apaixonados, mas ele oculta surpresas: um passado traumatizante que o conduziu à uma vida de práticas sexuais um tanto diversas. Para Steele mergulhar em seu mundo, terá que fazer uma escolha difícil que mudará sua vida.

A fotografia abusa de ângulos aéreos e aberturas de câmera que transmitem noções de grandeza. Pelo menos no desenho dos cenários ela ajuda a situar o expectador tanto emocionalmente quanto em caráter informativo. O problema aqui são as tomadas de câmera fechadas, pois o elenco também não colabora. Os saltos da câmera média para closes diretos nos lábios e olhos saltam informações importantes que narrariam os estados de espírito dos personagens.

Tecnicamente o ponto mais forte é a trilha sonora de Danny Elfman que soube lidar com picos emocionais, que inclusive foi o grave pecado do roteiro. Não fosse a direção musical, a película seria um desastre total.

A edição é razoável, era para ser muito boa, mas foi prejudicada também pelo roteiro. Cortes de câmera grosseiros que deveriam ser apenas movimentos de aproximação, pois a intensidade emocional exigia, atrapalharam o trabalho do editor com toda certeza.

Um ponto chato é a cenografia, que embora muito bem produzida acabou por pesar muito a mão no merchandising.

O elenco é fraco demais. Jamie Dornan era apenas um modelo quando foi surpreendido com o convite para o papel. Dakota Johnson interpretou um papel difícil, de uma jovem recatada que nada espera além de uma vida comum, mas que é surpreendida pelo destino com um homem cobiçado por todas as mulheres, com uma trajetória traumática e costumes exagerados. É um giro de 180º na vida da garota e exigiria um mergulho intenso na personagem por parte da atriz. Não sem motivo, ambos ganharam o prêmio Framboesa de Ouro de pior ator e atriz.

A direção de Sam Taylor-Johnson foi um desastre. Uma Chernobyl cinematográfica. No entanto, aqui defendo que a inexperiente diretora não teve culpa, ela foi escolha pessoal de E L James por um motivo que explico a seguir.

Cinquenta tons ganhou Framboesa de Ouro por: pior ator, pior atriz, pior roteiro, pior combo, pior direção e pior filme da história.

Por que o Framboesa foi tão generoso? Como um desastre dessa magnitude aconteceu? O filme deu menos certo que o comunismo. O fenômeno se explica na produção. E L James levou seu livro aos mais diversos estúdios de Hollywood e foi recusado por todos. A narrativa era ruim? Sim, mas não foi esse o problema. O problema é que Erika propusera-lhes investir dinheiro na produção do filme para colocar a mão na direção. Os estúdios negaram um a um, até que a Universal aceitou o desafio. James escolheu o marido como roteirista, o estúdio recusou o roteiro e Kelly Marcel assumiu corrigi-lo, mas não pôde fazer milagres (só por isso, Marcel merece ser perdoada). E L James meteu a mão nos cortes de cenas, na decoração dos cenários, nas falas dos atores, em quase tudo. Botou a mão e provou ter um dedo podre. A única coisa que ela não tocou, por exigência da Universal foi a trilha sonora. Danny Elfman, o lendário maestro fez a coisa acontecer e com todo esse desastre conseguiu uma indicação para o filme ao Oscar de “melhor canção original“, não ganhou, mas estava lá. Resumindo, Erika Leonard ignorou a linguagem cinematográfica, ignorou os profissionais e com uma petulância monstruosa resolveu fazer conforme sua imaginação mandou.

Segundo ela mesma, suas inspirações foram “Azul é a cor mais quente“, “O último tango em Paris” e “9 e meia semanas de amor“. O estúdio relatou que suas orientações à Dakota e Jaime foram no seguinte nível: “quero tal cena de Azul, tal cena de 9 e meia semanas e tal cena do Último tango“. Ou seja, o filme é um compilado de cenas de outros.

Ao todo a película recebeu 19 indicações a diversos prêmios positivos e negativos. Destas, venceu 6. E das 6, apenas 1 foi positiva e pela trilha sonora, as outras 5 foram Framboesas por pior isso e aquilo.

Neste instante você deve estar se perguntando: “Se o filme foi esse fiasco todo, por que então arrebentou de bilheteria?“. Essa é fácil. A trilogia de Cinquenta Tons em livro foi sucesso mundial, e o público leitor estava ansioso para ver a reprodução nas telas e esta foi a força motriz da audiência.

Em termos de leitura simbólica, o filme suscita questões que a autora não levantou, mas que estão embutidas lá: Christian Grey é um dominador estereótipo ou um personagem isolado? Um homem controlador e obsessivo como ele, comporta-se dessa forma com garotas vulneráveis ou com todas? Essas questões eu vou deixar para responder quando analisar toda trilogia e cruzar a curva dramática do personagem com a de outros do mesmo gênero.

Pelo que conheço da obra de James, o livro tratou-se apenas de uma fanfic de Crepúsculo que acidentalmente fez sucesso e ganhou vida própria. Sobre as origens da obra eu vou abordar quando escrever a resenha crítica dos livros. Então, é perfeitamente dedutível que a própria autora não tivesse qualquer intenção, consciente ou inconsciente de tratar qualquer tema específico. No entanto, é possível extrair da obra (por puro acaso do destino) pelo menos duas mensagens: “mesmo a mulher mais sem graça ainda pode encontrar um homem interessante e viver uma relação intensa“. Em literatura Gustave Flaubert já havia trabalhado este tema (mas com qualidade) em Madame Bovary. A outra mensagem é: “um relacionamento intenso pode ter preço alto“. Reparem que não usei a palavra “amor“, e não usei propositalmente, pois o filme apenas alude ao amor, sem sê-lo de fato, mas esta já seria uma discussão de profundidade filosófica que não cabe aqui.

Uma nota 3,0 é generosa demais, e só dou essa nota pelo trabalho musical.

Trailer de Cinquenta tons de cinza

Ficha técnica

Filme / Ano Fifty Shades of Grey (Cinquenta Tons de Cinza) / 2015
Produção Michael De Luca, Dana Brunetti, E. L. James
Direção Sam Taylor-Johnson
Roteiro Kelly Marcel
Fotografia Seamus McGarvey
Música Danny Elfman
Edição Susan Littenberg, Sabrina Plisco
Elenco Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eloise Mumford, Luke Grimes, Rita Ora, Victor Rasuk, Max Martini, Dylan Neal, Callum Keith Rennie, Jennifer Ehle, Marcia Gay Harden
Orçamento / Receita US$ 40 milhões / US$ 571 milhões
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