No final da quarta temporada as coisas estavam tomando forma ainda para os reinos que começavam a se organizar após a guerra. A estória foi focada mais nos personagens que sofreram mudanças radicais.

Nesta temporada os reinos já organizados começaram a se preparar para uma nova guerra, mas a narrativa foi novamente focada nos personagens.

Não houveram mudanças na fotografia, edição e trilha sonora, mantiveram a excelente qualidade.

O roteiro pela primeira vez, infelizmente apresentou marxismo cultural. De forma estranha em parte, admito, mas estava lá presente. Em especial foram dois momentos: primeiro o discurso do Alto Pardal, o líder religioso que ao discutir com a nobreza faz um discurso revolucionário de luta de classes. O segundo momento foi a praticamente santificação do incesto (e isso foi muito pesado).

Vou deixar para discorrer sobre ambos momentos, confusos inclusive, no final.

Theon Greyjoy teve uma reviravolta inesperada. Sansa Stark demonstrou-se mais resiliente que o esperado, seu casamento com Ramsay Bolton, sádico de carteirinha e pior que Joffrey Baratheon surgiu como algo que ela estava pronta para enfrentar. Stannis Baratheon teve um destino incerto, ninguém sabe ao certo o que aconteceu com ele no final do ataque que preparou; este personagem inclusive cometeu um sacrifício idêntico ao encontrado na Ilíada por Agamemnon para vencer a Guerra de Troia. Jon Snow acabou por encontrar um destino trágico. Bran Stark não apareceu em nenhum episódio (eu suspeito que ele tenha controlado mentalmente um dos dragões de Daenerys Targaryen). O arco narrativo foi muito focado em Cersei Lannister: com ela começou, com ela terminou. Jaime Lannister seu irmão e algo mais, foi buscar sua filha Myrcella Baratheon, mas as coisas não saíram como esperado. Daenerys ganhou um novo e excelente conselheiro, o melhor, o mais inteligente, o de talento inegável para política; sim, o anão Tyrion Lannister. Tyrion inclusive descobriu o significado de “destino“, havia algo que ele deveria fazer, mas que tentou desviar-se, por duas vezes tentou, e nas duas vezes não conseguiu, o próprio destino conduziu-o a seu fim esperado. Arya Stark encontrou o que procurava mas também descobriu que terá um longo e tortuoso caminho até aprender o que precisa. Esta foi também a temporada com o melhor ataque zumbi que já assisti, comparável inclusive aos de The Walking Dead e Guerra Mundial Z.

O enredo foi nitidamente a preparação para acontecimentos maiores e um começo de desfecho. A família Lannister acabou por encontrar o destino de seus próprios atos, numa sinfonia macabra onde seu niilismo a conduziu à própria ruína sem a necessidade de inimigos externos. O espaço aberto pelo poder começa a demonstrar-se vago para uma nova configuração dos 7 reinos e o Trono de Ferro a requerer um novo regente.

O elenco novamente foi fantástico, nenhum demérito nem mesmo para os coadjuvantes. Os destaques obviamente foram para Lena Headey como Cersei Lannister cuja curva dramática foi intensa e fortíssima, para Kit Harington como Jon Snow que demonstrou o coração de um rei no nível de Eddard Stark, Stephen Dillane como Stannis Baratheon que apresentou um personagem obstinado ao ponto de realizar sacrifícios impensáveis na busca por seu objetivo e Jonathan Pryce como o Alto Pardal, um líder religioso decidido e rígido.

Voltando ao marxismo cultural

Quanto ao marxismo cultural, é necessário salientar que a estrutura de estado proposta por Game of Thrones é semelhante à aristocrática, a nobreza, o clero e a plebe são as castas sociais. Aqui o clero tem maior poder de influência sobre o povo, enquanto a nobreza tem o poder de fogo. O Alto Pardal diz para sua interlocutora que para a massa plebeia tomar o poder, basta deixar de dar crédito à nobreza (não é exatamente uma verdade, pois a nobreza é detentora do poder bélico) e mesmo que tal ação resulte numa melhora imediata de vida, a médio prazo termina em desastre social, pois os ataques estrangeiros são constantes e um discurso de qualidade de vida não é suficiente para deter um lorde ou um rei ganancioso; por outro lado, tem sim seus efeitos. A confusão aqui é que o clero é uma espécie de aliado semi-moral do povo. Note que usei “semi-moral” e não por acaso. No sistema numérico grego, o prefixo “semi” significa “meio“, “metade“. Os pardais são fanáticos religiosos que levam o código moral acima de seus princípios fundamentais. Sentem-se à vontade para castigar os irreligiosos e pecadores, e fazem uma leitura muito estranha de piedade e misericórdia, bem como de amor ao próximo. Os pardais são parecidos com o espantalho da Santa Inquisição pregada pelos revolucionários comunistas, que da Inquisição nada entendiam, mas de mentiras tudo sabiam. Na prática são idênticos aos muçulmanos e à sharia. O comunismo abomina o judaico-cristianismo e por isso mesmo tornou-se estranho o discurso de luta de classes partir justamente do clero: foi uma tremenda contradição de termos. Em seguida soou estranho porque os pardais nada tem a favor do povo, senão uma ordem moral que se aplica inclusive aos seus próprios líderes, são até certo ponto bons para equilibrar uma sociedade, mas não para desenvolvê-la e desumanos para julgá-la.

O segundo ponto foi pesado, foi pesadíssimo. O incesto da família Lannister entrou em julgamento pelos pardais. O castigo da pessoa acusada foi cruel o suficiente para sentirmos pena. O caso é que não era para tanto e mentes despreparadas podem (e vão) não compreender a coisa.

Quando uma emoção forte encontra um evento, este evento torna-se uma memória. Quando a memória é oriunda de um sentimento muito forte, esta se estabelece como componente da personalidade. A consequência é que a pessoa deixa de pensar e acaba dominada por sua emoção, apenas reagindo instintivamente. A isso se chama “sistema de crenças“. E isto foi o que o fez o seriado na defesa do incesto nesta temporada. A solução ou castigo para a pessoa acusada, bastava o desprezo e a desmoralização pública, mas o que fizeram foi ultrajante o suficiente para considerar a religião ali (que aludiu ao judaísmo e ao cristianismo) como a vilã da estória e o mal a ser combatido. A solução pesadíssima proposta pelos pardais, tornou-se pior que o pecado cometido pelo réu em questão.

Nisto George R. R. Martin pecou contra a audiência e abusou gravemente de sua boa fé, servindo-se de técnicas psicológicas descritas no livro “Maquiavel Pedagogo” de Pascal Bernardin.

Resumindo: o discurso de luta de classes partiu do clero, que o marxismo abomina; o incesto foi atacado justamente pelo mesmo clero. Ficou desconexo, mas os elementos estão inegavelmente presentes.

Os showrunners David Benioff e D. B. Weiss causaram muita emoção e contaram a estória como poucos. O marxismo cultural fez efeito na audiência desta vez, que começou com 8 milhões de expectadores e terminou com 8.11 milhões, mas conheceu uma queda até os 5.40 milhões no sétimo episódio. Eu tenho dito que o marximo cultural estraga narrativas e afasta o público, esta é mais uma prova.

Uma nota 8,0 desta vez é justa.

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