Aproximadamente uma semana atrás eu publiquei a crítica do episódio piloto de The Punisher (Justiceiro) como sempre faço, pois o piloto é uma apresentação em linhas gerais de uma série e uma prévia do arco narrativo. Para minha surpresa o texto ultrapassou 1000 acessos em um dia e boa parte dos fãs ficou revoltado comigo.

Previamente aqui aviso que a atividade crítica tem como objetivo estabelecer o valor de uma obra: é a atividade que avalia se a obra atingiu ou não o proposto pelo autor. Não se trata de uma opinião pessoal jamais, e muito menos de enaltecer ou hostilizar qualquer obra.

Em literatura existem 4 naturezas de atividades: a teoria literária, que ocupa-se de encontrar os elementos mais gerais em todas as obras na busca por um padrão, a análise literária que ocupa-se de decompor uma obra em seus elementos internos adotando um ponto de vista pré-determinado (ver como autor, como leitor, como auditor e etc), a crítica literária cuja atividade (como já mencionei) trata-se de estabelecer o valor da obra, ou seja, se o autor alcançou seu objetivou proposto ou não, e por fim a historiografia literária, que trabalha com elementos históricos do fato literário, a obra em si, o ambiente cultural, a formação do autor, entre outros.

Aqui faço a crítica, lido com o valor da obra, segundo a proposta literária e sua realização: nenhum compromisso tenho com fãs ou avessos à qualquer obra.

Recebi inclusive recomendações de que eu “julgasse o seriado apenas após assisti-lo“, de pessoas inteligentíssimas que ignoraram o fato da crítica ser direcionada exclusivamente ao piloto. Adquiri úlcera.

Vocês fãs ou odiadores podem gravar seus palpites que um dia eu prometo dar atenção, ok?! 😀

Iniciando a crítica de The Punisher ( Justiceiro )

O Justiceiro é um personagem de Gerry Conway e John Romita criado em 1974. Neste ano ele apareceu pela primeira vez no HQ do Homem Aranha.

A criação do seriado foi motivada em boa parte pelo apelo dos fãs após a aparição do personagem em 2015 em Daredevil (Demolidor) na Netflix. O seriado então tornou-se um spin-off (seriado derivado) de Demolidor.

Como eu já havia dito antes, o seriado veio para inserir o Justiceiro no Universo Estendido Marvel na TV. Calhou de cair na mão do showrunner Steve Lightfoot, transmitida pela Netflix e de criação da Marvel Television com a ABC Studios, a série iniciou a primeira temporada em 17 de novembro.

Sou fã do personagem no HQ desde a década de 90, então este personagem conheço bem e esta temporada me surpreendeu.

A atuação de Jon Bernthal como Frank Castle (Justiceiro) prosseguiu na alta qualidade interpretativa do piloto. Conheço o ator desde seu trabalho como Shane Walsh de The Walking Dead. Sujeito decidido do tipo que bate primeiro e pergunta depois, homem de ação. Foi isso que o ator apresentou, um personagem de ação fantástico, frio e experiente que na hora do perigo não treme. O resto do elenco deu uma melhorada muito leve, mas subiu de miserável para medíocre. A melhora foi por conta de Ebon Moss-Bachrach como David Lieberman (Micro) que embora não tenha mergulhado no personagem cuja curva dramática foi bastante intensa, alcançou uma sinergia com Bernthal: pareciam 2 irmãos, um o menino da informática, o outro o mais experiente e bom de briga.

Assisti alguns episódios legendados e outros dublados. O trabalho de voz de Bernthal original é incrível, o sujeito vive o personagem de verdade, ao passo que a dublagem de Reginaldo Primo não ficou tão boa. Eu gosto muito do trabalho do Primo como Dean Winchester em Supernatural, mas aqui ficou meio fora do personagem.

As cenas iniciais do episódio piloto fizeram referência ao game Max Payne 3. As referências não prosseguiram, mas houve bullet-time e flashbacks dolorosos durante as cenas de ação idênticas às do personagem do game, principalmente nos últimos episódios.

A fotografia prosseguiu o noturno sorrateiro contrastando com matutino ensolarado e doloroso, que ganhou tons cinzentos de abandono. O trabalho de fotografia foi tecnicamente excelente e com nuances artísticos que extravasaram os aspectos técnicos de comunicação da linguagem cinematográfica, principalmente no esquema de cores. Tyler Bates prosseguiu acertando na trilha sonora com o mesmo rock ácido e pesado. A abertura inclusive tem uma pegada meio folk-texana à la Johnny Cash que lembra o riff de God’s Gonna Cut You Down. O trabalho de edição foi pura técnica até o 11º episódio, mas nos dois últimos foi um show à parte, cenas com memórias integradas à ação são sempre fortes e difíceis de se produzir, nisto o responsável pela edição demonstrou talento, e muito talento.

O roteiro foi sempre veloz e forneceu todas as informações necessárias para o público acompanhar a linha de raciocínio, sem deixar de entender qualquer detalhe. Tecnicamente foi um excelente trabalho. Os pecados de roteiro aqui foram novamente com o fortíssimo apelo de marxismo cultural com surpreendentes mea-culpas que acabaram por apresentar uma dialética entre democratas e republicanos. A defesa do desarmamento é em tempo integral e aqui entra o primeiro mea-culpa: o senador que defende a regulamentação do porte de armas é um mentiroso, cínico, covarde e hipócrita. Para além da esfera política, na via social, quem defende o armamento civil é um rapaz com sérios problemas mentais, com traumas de guerra somados à uma vida sem propósito. As figuras republicanas são este rapaz desequilibrado, um senhor gordo velho e mentiroso e a jornalista Karen Page. Por outro lado os democratas não são santos, começando pela figura do senador que não passa de um fingido politicamente correto. A pena de morte é outro tema em pauta, mas a defesa do pacifismo perde espaço diante da realidade do trauma de Frank Castle. Ela acaba sendo defendida, com um argumento cuja conclusão é que para alguns casos não tem mesmo outro jeito, isso fica claro na conclusão da temporada e no fechamento do arco. Uma coisa que o roteiro soube fazer muito bem foi defender a entrada de refugiados e imigrantes muçulmanos: está impresso no eixo da temática central do arco narrativo. O arco distorceu o personagem dos quadrinhos completamente, a adaptação da origem do personagem foi porca. Neste ponto o roteiro pecou gravemente contra o leitor Marvel e contra John Romita e Gerry Conway: transformaram o drama de Castle, da perda de sua família para o crime em um evento no qual ele assassina um muçulmano inocente em uma missão na qual os militares americanos e a CIA realizam tráfico de drogas (de heroína) através de cadáveres de pessoas assassinadas em acampamentos no Afeganistão. Para além deste episódio no qual os militares são corruptos, nos demais alguns são patetas inexperientes e despreparados, outras vezes tem problemas mentais e outras vezes são realmente fracos: não há bons militares ali senão os ex-fuzileiros que estão com as almas em pedaços. Guantánamo retratada como uma terrível prisão com torturas constantes. Republicanos terroristas explodindo, ameaçando e chantageando a mídia. A Netflix aqui me surpreendeu, diferente da The CW e CBS eles começaram com uma forte pegada marxista mas diminuíram consideravelmente as doses no final. Talvez por obrigação com o personagem, pois uma vez que mudaram sua estória, ficaria pior se concluíssem defendendo o desarmamento e avessos à pena de morte, justamente neste personagem.

Eu realmente não gostei do que fizeram com o personagem: Frank Castle não é um traumatizado por ter matado gente inocente, é o contrário, é um homem que perdeu tudo justamente por fazer tudo certo e partiu para vingança. A estória dele é parecida mais com a do policial André Matias em Tropa de Elite, que é o certinho que quer ser advogado, até que o tráfico assassina seu amigo e ele percebe que não conversa com bandido e que traficante só entende porrada e tiro. O Castle dos gibis sabe exatamente o que está fazendo e contra quem está lutando, ele não carrega pesos na consciência. O apresentado pelo Netflix é um perturbado mental cujo assassinato de um inocente (coisa que ele jamais faria no HQ) pesa mais que a perda de sua família.

Enfim, o roteiro foi tecnicamente excelente, mas artisticamente muito pecaminoso, tanto no arco narrativo quanto na curva dramática do personagem protagonista: como eu já havia dito antes o marxismo cultural deforma narrativas e a prostituição de narrativas consagradas custa sempre caro.

A direção foi excelente, a orquestra de uma equipe que variou entre talentos formidáveis e outros um pouco menos competentes, mas no final a obra entregue à emissora virtual foi muito melhor do que os filmes anteriores do personagem (que foram fiascos).

Uma nota 7,0 é justa.

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