Alguns leitores me escreveram durante este ano pedindo dicas de como avaliar filmes. Decidi por isto iniciar uma série de textos explicando introdutoriamente alguns critérios.

Longe da presunção de esgotar o tema, este artigo trata de despertar a percepção e com ela a sensibilidade do interessado no assunto.

Explico que o cinema é uma arte que exige muito esforço, tanto do diretor quanto de toda equipe técnica e artística e que este esforço começa pelo produtor, que antecede o diretor.

O produtor é o dono do filme. É ele quem, de posse da literatura, seja um livro ou até um roteiro pronto, se encarrega de buscar patrocínio e contratar todos. Quando o filme a ser realizado é sobre um livro, ele precisa contratar um roteirista e este é o primeiro profissional contratado para a realização de uma película e todos os demais vem depois: o diretor, o elenco, os diretores de fotografia, de música e de edição.

Uma boa equipe técnica torna o filme no mínimo compreensível.

Geralmente avalio o trabalho desta equipe por competências separadas: produção, direção, roteiro, fotografia, trilha sonora, elenco e edição, e em seguida avalio a sinergia.

Por exemplo: muitas vezes a fotografia é boa, a música é boa, mas a edição é ruim e o trabalho não sai a contento. A mensagem do filme não é transmitida por um empecilho técnico, seja por incompetência da equipe, por falta de recursos ou por deficiência no relacionamento, a equipe não se entende e acaba por não realizar um bom trabalho.

O profissional mais importante desta equipe é o roteirista. Todo filme é baseado antes em literatura e toda literatura tem por objetivo transmitir alguma mensagem. A missão do roteirista é transformar o livro em uma sequência de cenas escritas que darão vida à mensagem intencionada pelo autor: se o roteirista falhar, o filme falhará. Se o roteiro não tiver ritmo, deixar faltar informações para um raciocínio linear, ou não tiver uma velocidade adequada, todo filme estará condenado, não importa quanto talento tenham os outros profissionais.

Em seguida vem os grupos de profissionais separados. O diretor de fotografia por exemplo, precisa saber informar a cena.

Toda redação tem em sua estrutura, informar a noção de tempo e espaço no início, antes de partir para o assunto em si. A fotografia segue esta receita.

As tomadas de câmera são calculadas para serem informativas: câmeras abertas para informar a localização e dar ao expectador uma ideia de como é o lugar em que a cena se passará. Câmeras meio abertas para informar a cena e quais são os personagens presentes. E câmeras fechadas para informar a emoção específica de um ator em um momento importante. Esta é, no entanto a leitura técnica, é o mínimo que se espera de um diretor de fotografia.

Em seguida vem o esquema de cores e aqui a técnica começa a transcender para o nível artístico. O diretor de fotografia precisa saber avaliar o estado de espírito dos personagens e o ponto do roteiro para definir se usará cores mais vivas, mais escuras ou mais claras. Por exemplo: uma situação que começa a se apresentar como normalidade, exige uma paleta mais clara, se possível com um amanhecer, um clima de alvorada, um esquema de cores que demonstre a clareza de pensamento naquele instante.

A velocidade das tomadas de câmera também é importante, discernir o movimento de câmera informa a emoção do momento: um beijo romântico de dois atores com os olhos nos olhos e laços profundos, exige uma tomada de câmera mais lenta com movimentos suaves e com menos cortes quanto possível, enquanto uma luta ou tiroteio exige o contrário, alta velocidade, movimentos bruscos e quanto mais violento mais cortes.

Um diretor de fotografia mediano saberá informar tecnicamente, um talentoso saberá transmitir além da informação a sensação, a emoção do momento.

A música é talvez o mais sensível dos trabalhos, pois o diretor precisa saber escolher ou compor músicas que se encaixem com o momento, com o roteiro e com a época, e simultaneamente com os três. Acontece que músicas tratam de impressões sonoras que conversam diretamente com as emoções. Mesmo com ausência de letras ou poemas recitados, apenas pelo conjunto de melodia, harmonia e ritmo, é possível discernir qual emoção está sendo expressa. Se a música estiver fora de algum dos três contextos que citei, causará desconforto para o expectador. Até mesmo a questão da escolha entre silêncio e trilha sonora é concernente à sensibilidade do diretor musical.

Uma trilha sonora oficial é a principal assinatura emocional de um filme. Quando a mensagem da literatura que antecede o filme é apresentada, há um ponto que comentarei em breve chamado “curva dramática” e está profundamente relacionado com algum dilema que o personagem protagonista terá que passar, algum problema que terá que resolver diante de alguma decisão difícil que terá que tomar, uma escolha que terá que fazer que muitas vezes envolve sacrifício. A trilha sonora oficial, a música principal, deve ser sensível para descrever este momento conversando diretamente com o coração da audiência.

Eu quero que você suponha que é um jovem que passou a vida inteira procurando seu pai. Um dia você o conhece e descobre que seu pai é um deus e que ele deseja dominar o universo inteiro. Se você se unir a ele, será um deus e governará o universo. Se não será apenas um humano e terá que ainda que matar seu pai. Qual música você escolheria para descrever este dilema? Este dilema configura uma escolha entre o amor e o poder. Ele foi explorado em Guardiões da Galáxia Vol 2, pela Marvel Studios. O diretor musical Tyler Bates escolheu bem e a trilha sonora foi premiada.

Um caso clássico de competência musical é o do maestro Danny Elfman em Cinquenta Tons de Cinza: toda equipe foi incompetente e recebeu prêmios de pior desenvolvimento, como o “Framboesa de Ouro“, exceto Elfmann. Enquanto toda equipe foi escrachada pelo péssimo trabalho, a sensibilidade do maestro conseguiu indicação ao Oscar pela escolha de “Earned It“. O elencou foi péssimo, a fotografia especificamente técnica, a edição sem novidades, o roteiro fraco, mas a música conseguiu captar a mensagem central do filme e transmiti-la.

E uma narrativa que lida com um universo inteiro? Como expressar isso através do som? Esta grandeza foi resolvida pelo maestro John Williams em Star Wars – Episódio IV, o primeiro a ser filmado. A trilha sonora foi tão bem composta, se encaixou com tanta perfeição à estória, que se tornou um hino para gerações.

Entre os aspectos mais importantes da música está um que é técnico: em qual momento a música deve começar a tocar e em qual ponto da música? Uma cena de romance intenso não dura mais que alguns segundos. Olhos nos olhos, expressões fortes e muita intensidade, pressupõem uma linha de desenvolvimento que começa amena e sobe até um pico emocional, então ao atingir o ápice desce novamente. Isto tudo em questão de segundos, a passo que uma música romântica curta pode variar entre 2 e 5 minutos. A música pode ser perfeita para o momento, mas como encaixa-la na cena? Este é um dos desafios para um diretor musical. É um dos pontos que você deve observar.

É a adequação da emoção à arte.

A edição por sua vez é o trabalho de montagem entre imagens e músicas para compor a cena. Muitas vezes para transmitir a mensagem de uma cena, apenas as imagens capturadas pela câmera não são suficientes para informar o expectador. São necessárias outras tomadas de câmera, outras imagens e estas imagens devem estar presentes no mesmo momento, na mesma cena e com a mesma música. Este é um dos trabalhos do editor.

Um exemplo muito comum: suponha o momento em que um detetive desvenda todo mistério de um crime e demonstra ao vil criminoso que seu plano foi descoberto e a explicação da engenhosidade surpreende até o próprio público. Uma cena como esta exige repassar alguns momentos que foram expostos em detalhes em outras cenas de menor relevância. Um exemplo clássico disso é a explicação do Sherlock Holmes no filme de 2009.

É notório o trabalho de edição sempre nos trailers de filmes, em todos eles a edição é o maior esforço: informar o cenário, os personagens e o dilema sem contar a solução e nem dar informações demais e com isso estragar a experiência da audiência sobre como será o desenvolvimento.

Os flashes de memória constantes de Frank Castle no seriado The Punisher do Netflix é outro exemplo do trabalho de edição e foi muito bem feito.

O editor certamente encontrará uma dificuldade sobre-humana para realizar seu trabalho se o elenco, a fotografia e a música não colaborarem. Ele não pode fazer milagres, a edição é uma arte que descende da colagem e a substância de sua atividade consiste nas demais atividades.

O trabalho de maquiagem descende da escultura. Em inúmeros casos o uso de látex é imprescindível e principalmente se a estória é uma ficção científica ou espiritual. Guerra Mundial Z é um excelente exemplo deste trabalho e por razões óbvias The Walking Dead. Não se trata apenas de zumbis, mas da distância que a obra toma da própria realidade: quanto mais distante, quanto mais fantasia, mais difícil é o trabalho de maquiagem.

O cenário é um elemento que segue a mesma linha da maquiagem: quanto mais distante da realidade, mais esforço terá o cenógrafo. É muito comum encontrar erros em filmes de época e quando estes erros são encontrados, a contradição anacrônica quebra o encanto do expectador. Por exemplo: encontrar um pneu de borracha em um filme da idade média. O cenário é uma das substâncias da fotografia. Um exemplo de cenários muito bem montados é o seriado Game of Thrones que é filmado simultaneamente em diversos países.

A atividade mais importante do cinema é o roteiro. É ele quem é responsável por traduzir a literatura em cenas. Se o roteirista não for sensível para criar um arco narrativo ou desvalorizar o ápice emocional da curva dramática do protagonista, o filme será inevitavelmente um fiasco.

Para o expectador gostar de uma história, ele precisa criar identidade, ele precisa sentir que o filme está descrevendo a realidade que ele já conhece em algum outro contexto. Sem criar identidade, sem relevância: isto é uma máxima.

Quando uma história é contada, seja ela ficção ou realidade, sempre se trata inevitavelmente de uma decisão tomada por alguém que mudou o rumo de alguma coisa. É uma relação entre causa e efeito. Se a decisão é tomada de início, então a história é sobre a consequência. Se ela é tomada no final, então é história do próprio dilema e dos valores envolvidos. A grosso modo, a este processo se chama arco narrativo e a este processo de dilema se chama curva dramática.

O roteiro possui elementos de três naturezas: técnicos, artísticos e filosóficos.

A técnica do roteiro pode ser avaliada em relação à sua velocidade, ritmo e qualidade das informações para um raciocínio linear. Se faltarem informações, o público ficará confuso e insatisfeito, pois ele não entenderá o que está sendo dito. Se uma história contada em 3 horas pode ser contada em 1 hora sem prejuízo de informação ou emoção, não há qualquer motivo para estender o roteiro e judiar do público que terá que dispor de tanto tempo para entender a mesma coisa, e aqui estão a velocidade e o ritmo.

O elemento artístico é sobre como administrar os picos emocionais. O cinema mexicano já foi motivo de piada e se tornou referência por um tempo justamente por não saber administrar este elemento: é intensidade o tempo todo. Não há calmaria, então não há efeito emocional nos momentos de maior emoção real. Toda cena de sofrimento, raiva ou alegria, são exageradas. Este exagero é intragável para a audiência que busca a verdade, e absolutamente toda audiência busca a verdade e a sinceridade. Se algo soa falso, cai no desprezo imediatamente e vira alvo de escárnio.

O elemento filosófico é o mais importante: a conexão com a realidade. Se uma narrativa começa a mentir ela é ruim, se exagera na mentira cai no desprezo e esquecimento em questão de dias. Uma prova disso são métricas de audiência fornecidas por sites especializados na internet. Seriados como Supergirl começaram com audiência inicial de 22 milhões de expectadores, durante a trajetória começaram uma propaganda dos Democratas e um ataque aos Republicanos incessante, no final da segunda temporada sua audiência era de 2 milhões. O seriado Supernatural teve um evento parecido: até a 5ª temporada, com o showrunner Eric Kripke foi um dos líderes de audiência. Com a despedida de Kripke entrou Sera Gamble, que iniciou um trabalho de propaganda política de esquerda massivo e bobo, com vilões capitalistas sobrenaturais (uma estupidez e uma agressão infantil) que afastou mais da metade do público na 6ª e 7ª temporadas, da 8ª em diante a série foi assumida por Jeremy Carver que tirou a mão do roteiro da política e se concentrou na real mensagem da obra, e como resultado levou Supernatural de volta aos picos de audiência. O exemplo contrário também existe, nos filmes da Marvel Studios, todos desde 2003 não se encontra qualquer distorção da mensagem principal das obras e os resultados deste esforço são os maiores blockbusters (campeões de bilheteria) das últimas duas décadas: Thor é sobre mérito, Capitão América sobre coragem, Hulk sobre os limites da ciência, Homem Aranha sobre responsabilidade, Doutor Estranho sobre humildade, Homem de Ferro sobre dignidade, e por aí vai. Não se encontra nas produções de Kevin Feige estes tipos de deformações filosóficas de roteiro que enojam o público ainda que inconsciente: o público não sabe, mas sente, e assim não cria identidade e se afasta naturalmente.

Tempos atrás eu escrevi sobre como marxismo cultural estraga a literatura, vale a pena conferir como leitura complementar.

O elenco é um trabalho da maior atenção possível, pois a narrativa não terá graça nenhuma sem emoção, mas alguns personagens não precisam ter emoção, como alguns coadjuvantes e figurantes, mas o protagonista precisa, ainda que seja um personagem frio e calculista, ele precisa transmitir isso. Trata-se de um trabalho complexo de voz, postura, movimento e expressões faciais que quanto melhor o ator, melhor será o resultado. Grandes atores já não se encaixaram em determinados papéis, como foi o caso de Nicolas Cage como Johnny Blaze em Motoqueiro Fantasma. Cage é um excelente ator, mas ali não era para ele. Outros no entanto encarnaram tão bem o personagem que parecem ter nascido só para os papéis. É o caso de Robert Downey Jr como Tony Stark, o Homem de Ferro.

O ator precisa mergulhar no papel ou será superficial e tirará a verdade da mensagem do roteiro.

A função do diretor é a de um maestro: é responsabilidade dele que a orquestra desta equipe toda para que a mensagem do roteiro seja transmitida no bom narrar da história.

Um bom diretor é capaz de fazer milagre com uma equipe mediana. Um péssimo diretor pode ter o clássico dos épicos e o dream team de Hollywood que não entregará um bom resultado. Exemplos de filmes mal dirigidos são os recentes da Warner, dos personagens DC Comics que tentaram seguir a mesma linha da Marvel: o potencial foi desperdiçado por roteiro e direção.

A crítica de cinema é um trabalho criterioso que leva em conta a atividade crítica em si. A atividade crítica é responsável por estabelecer o valor de uma obra. Valor significa: capacidade de atender uma necessidade. Portanto o valor de uma película deve ser avaliado de acordo à seguinte questão: o filme atingiu o objetivo proposto? ele transmite a mensagem do autor na obra? Caso positivo, o filme é bom, do contrário é ruim. A mesma narrativa que é contada pelo texto e que o filme se propõe a comunicar, deve estar contida na música, na fotografia, na atuação do elenco, na montagem do editor e na orquestra realizada pelo diretor.

O trabalho do crítico portanto é realizar esta avaliação acima e não dizer qual seu gosto pessoal, hostilizar ou enaltecer qualquer filme.

É evidente que não cobri o assunto completamente e em pormenores, mas espero que este texto possa te servir de ponto de partida para começar a perceber estes detalhes, ou pelo menos de inspiração para procurar mais material de outros autores.

Eu voltarei a este assunto no futuro com mais informações, espero ter ajudado.

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