Eu sempre achei que eu fosse responsável exclusivamente pelos meus atos: eu fiz, eu respondo. Se eu dei prejuízo, eu pago. Se eu tive lucro, eu recebo.

Acontece que após uma breve passagem pela USP, constatei o incrível sofrimento de jovens que moravam em apartamentos no Itaim Bibi e no Morumbi, bem como em condomínios fechados no Alphaville.

Me comovi, afinal, eles estão sofrendo porque a escravidão continua. Nós que estamos desconectados da realidade.

Apesar de jamais ter possuído um único escravo e de meus melhores amigos serem negros (inclusive Nathanael, o pai de dois alunos que era boxeador nascido em Minas Gerais e que me disse: “Ricardo, para os meus filhos você é um herói.“, ou o Messias, um intelectual fantástico dedicado ao estudo do Direito que ia e voltava comigo do trabalho por um período de dois anos, cujas conversas duravam até 3 horas seguidas), ainda assim fui cobrado.

Vocês nos devem até a alma! – bradava a garota da sacada de seu apartamento na Pompéia, após voltar da sofrida excursão à Disney.

Como todos sabem (ou deveriam saber) racismo significa: critério de raça. É quando alguém classifica as pessoas de acordo com sua raça e não com seus feitos. É um modelo de ética que nasceu da amizade entre Darwin e Karl Marx (que recebeu o primeiro exemplar de “A Origem das Espécies“) e se estendeu até Heidegger e Hitler. Cuja inspiração seguiu também por Thomas Malthus em 1913 em seus critérios de eugenia.

Eu, Ricardo, jamais fui comunista, nazista ou malthusianista, jamais em toda minha vida apoiei critério de raça para classificar um único ser humano. Mas mesmo sem ter qualquer ligação com esses loucos, sou acusado de “estar em débito com a dívida histórica“.

O engraçado é o motivo: quem me cobra diz que o motivo é por eu….. SER BRANCO, ou seja é CRITÉRIO DE RAÇA.

Quem me cobra do racismo que não cometi, serve-se de critério racial. Pela lógica clássica, Aristóteles se debate no túmulo comendo as folhas de Organon enfurecido. Sócrates pede um litro de cicuta batida com ácido sulfúrico e toma num só gole.

Ignorei Aristóteles, afinal, o que pai da lógica e de toda cultura ocidental poderia ter a dizer numa situação tão óbvia?! Ignorei Sócrates, pois nem a maiêutica seria capaz de livrar-me do fardo dos erros que não cometi.

Me lembrei de um sujeito que foi condenado sem culpa, mas este aí ressuscitou.

Então vislumbrei Lenin a dizer: “Acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é“.

Estava tudo explicado, mas a Globo, com seus sábios artistas, ícones do pensamento contemporâneo como Júnior Lima que compusera poemas que humilhavam Camões, como “Dig-dig-joy, dig-joy-popoy“, prosseguiam na fervorosa luta pela igualdade, luta na qual eu, provavelmente seria o maior culpado.

Depois de muito ser cobrado pela dívida histórica e me sentir profundamente envergonhado por ser culpado da escravidão que aconteceu 500 anos antes de eu nascer, atordoado e aflito pelo mal que provavelmente causei, resolvi finalmente colocar os pensamentos em ordem.

Nós precisamos de fato pagar a dívida histórica, mas como fazê-lo?

Eis aqui uma breve contabilidade, que me pareceu razoável. Acompanhem e me corrijam se eu estiver errado.

O Brasil foi descoberto pelo portugueses, malditos brancos europeus.

Os europeus primeiro tomaram as terras dos índios e depois trouxeram os escravos da África.

Com isto temos a seguinte configuração no Brasil nos períodos colonial e regencial:

  • Brancos: europeus
  • Negros: africanos
  • Índios: nativos

Temos aqui três raças.

Acontece que as índias, negras e brancas não tinham critério de raça (como esse pessoal da esquerda tem hoje), elas simplesmente gostavam de alguém e transavam (o que considero normal).

Quando alguém de uma raça transava com alguém de outra raça e engravidava, o filho saía com traços de ambas raças, configurando uma nova raça.

  • Mameluco: filho de brancos e índios
  • Cafuso: filho de negros e índios
  • Mulato: filho de negros e brancos

Se aos índios devemos terras, aos negros devemos oportunidades: a razão é sermos brancos.

O mameluco deve ao negro oportunidades, afinal é metade branco, ele deve 50% da dívida histórica.

O cafuso pode cobrar por terras e por oportunidades, afinal é negro e índio, simultaneamente.

O mulato deve ao negro 50% da dívida histórica e ao índio outros 50%, pois é metade branco.

Acontece que a história não parou por aí. Durante a segunda guerra, vieram para o Brasil três tipos de imigrantes: alemães, japoneses e italianos.

Alemães e italianos são brancos europeus, devem portanto a dívida histórica tanto quanto os demais.

Japoneses não são europeus, são asiáticos, mas devem também a dívida histórica, afinal sua cor é branca.

Acontece que após a gestão PT, estamos desempregados e quase tão ferrados quanto os venezuelanos (que Deus os guarde). Como pagar a dívida histórica sem dinheiro?

  • Japoneses pagam em pastel.
  • Alemães pagam em cerveja.
  • Italianos com pizza e macarronada.
  • Portugueses com bacalhau e vinho.

Preparava-me eu para pagar minha cota, quando abri a bíblia e me deparei com a escravidão que os egípcios submeteram os hebreus. Oras, o Egito fica na África. Os hebreus eram brancos e os egípcios negros.

O fato de ter acontecido há pelo menos 5.000 anos, não poderia ser mais relevante no cenário atual: se sou culpado pela escravidão que aconteceu há 500 anos, então por que raios eles não seriam culpados pela escravidão que aconteceu há 5.000 anos?

Pelas minhas contas 5.000 é 10 vezes 500. Então, subtraindo 500 de 5.000, sobra 4.500, que em proporção temporal significa 9 vezes.

A conclusão é que, pelos critérios dos quais eu fui acusado, quem me deve são eles pelo menos 9 vezes mais.

A nova configuração fica assim:

  • Japoneses devem cobrar 9x o preço do pastel, segundo a dívida histórica.
  • Alemães devem cobrar a cerveja 9x mais cara.
  • Italianos devem aumentar o preço da macarronada 9x.
  • Portugueses devem cobrar o preço do bacalhau na mesma proporção, 9x mais caro.

Espero que após aplicar estes critérios, consigamos finalmente acertar os ponteiros e viver em paz.

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