O filme Eyes Wide Shut foi lançado em 1999 e chegou ao Brasil com o nome “De Olhos Bem Fechados“.

O enredo é sobre um casal de classe média alta que passou pelo fogo da paixão e da juventude, tiveram uma filhinha e seguem como parceiros do cotidiano sem muita emoção. No auge do tédio Alice, a esposa de Bill, confessa-lhe ter fantasias sexuais com um desconhecido que vira uma única vez. Bill desnorteado e confuso se afasta um pouco de tudo para pensar, mas no reencontro com um antigo amigo de faculdade acaba acidentalmente no meio de uma seita estranha. Agora ele e sua família correm perigos inimagináveis.

Alice é uma bela mulher e ambos são jovens, seu casamento está devagar, eles tem uma boa vida, mas ela quer atenção, quer ser conquistada, quer ser desejada e a verdade é que Bill se acomodou. Eles são fiéis a investidas pesadas, mas isto não é o suficiente, ela sente-se como quem se casou com um amigo e não com um amante. Ela é ao mesmo tempo um personagem com alma e um estereótipo vazio: a casada de classe alta, abastada e frustrada por um casamento sem significado: a própria entediada que silenciosamente clama por apenas um pouco de atenção.

Se envolver com Alice seria “algo a ser evitado” para qualquer homem com a cabeça no lugar. Não obstante é impossível não se deixar seduzir por sua proposta implícita na semi-transparência de suas costas nuas e a convidativa semi-embriagues.

O personagem dela na medida que se insinua uma crítica social, um estereótipo que se estende inapropriadamente à toda classe, não chega a ser inválido, pois as casas de swing estão lotadas Alices, mas daí a dizer que toda classe segue a mesma fôrma, é sem dúvidas um exagero.

Bill é por outro lado o homem que descobre que não é o super-homem de sua mulher e cai de um pedestal que subiu sozinho: ele percebe que é apenas mais um homem e que, por ser médico, não é superior nem ao porteiro do prédio. Ele se vale de sua profissão e seu status, se isto serve por um lado para pagar as contas, por outro nada diz à esposa, não a excita e ainda a entedia.

Se as pessoas se atirassem umas sobre as outras como leões e lobos em busca de carne fresca sexual, como Kubrick desenha, todas as festas seriam orgias e este é um dos pontos nos quais os exageros do diretor, produtor e roteirista, Stanley, tornam-se caricaturas reconhecíveis: é surreal, mas dialoga com o real.

Na vida real seria impossível resistir às investidas de uma mulher como Bill faz em Eyes Wide Shut.

Kubrick é um Tarantino de pobre, mas um que deu certo e é muito superior aos pretensiosos blockbusters de Dan Brown. É um excêntrico com lampejos geniais que navega pela linguagem cinematográfica pelo experimental ousado e elegante. É arte mesmo.

O roteiro é adaptado do livro de Arthur Schnitzler e tanto roteiro como direção de Stanley Kubrick permanecem naquela linha de obviedades gritantes como Laranja Mecânica: o que é excelente. Kubrick gostava de esfregar a realidade crua na cara do expectador. Criar identidade desta forma não é nada difícil.

Há inúmeros elementos desde o início que dão sutis dicas do contexto político, social e filosófico:

  • Uma citação da família Rockfeller
  • Uma prostituta com livro de sociologia
  • Discurso feminista para disfarçar a insatisfação sexual de Alice

Estes entre outros, são muitos mesmo e todos sutis.

A forma como Kubrick apresenta as drogas não está longe da realidade: um componente de uma vida sem propósito. Nisto concordo plenamente com ele.

Eu andei muito pela madrugada do centro de São Paulo. Tudo se resume à taxistas fumando com olheiras de noites viradas, prostitutas mais feias que a própria noite, mendigos, pedintes, drogados, travestis, lixo a céu aberto, gritos que ecoam de repente e o choro das sirenes. É uma zona de guerra de uma cidade fantasma que não sabe que morreu. Eu nada posso dizer quanto a madrugada novaiorquina, mas nisso Kubrick está desesperadamente errado e o cenário apresentado tende exclusivamente ao imaginário.

As mensagens trabalhadas pelo roteiro são sobre o vazio de uma vida voltada exclusivamente ao cotidiano e à busca por status: as coisas estão ruins num casamento de aparências e ficam piores quando Bill encontra um mundo completamente vazio, ausente de propósito, niilista ao extremo: uma seita satânica. Ali é tudo carnalidade, é o festival do pecado, são dignos de pena enquanto ostentam luxo e vaidade. Eles nada possuem além de bens materiais. No final das contas Kubrick está falando da ausência de espírito, do esgoto social gerado pelo vazio na alma.

Há ainda uma curiosidade sobre as circunstâncias da morte de Stanley Kubrick, logo após a conclusão do filme. Ou ele citou Rockfeller como um exemplo de insulto justo a podridão dos meta-capitalistas, ou realmente fez uma denúncia (da mesma forma que Mel Gibson faz hoje), ou ainda fez ambos de uma vez.

Esta crítica foi pedida por um seguidor e também sugestão do Alexandre Costa no hangout sobre redução populacional que fizemos este mês, onde um dos assuntos é a NOM (Nova Ordem Mundial) e a família Rockfeller foi uma das pautas.

A fotografia é informativa, a música varia entre ambientação e descrição de época, a edição é precisa e estes três trabalhos são mais técnicos do que artísticos.

O enredo varia entre o razoável e o bom. Os melhores atores são Tom Cruise como Dr. William Harford (Bill), Nicole Kidman como Alice Harford, Alan Cumming como o balconista do Hotel e Sky du Mont como Sandor Szavost; estes quatro foram as mais fortes personalidades da película.

A direção foi um trabalho impressionante, pois este é um cult, uma despedida de Kubrick do cinema e da vida, além de trabalhar diversas mensagens cruzadas e entrelaçadas num mesmo longa.

A produção de Kubrick pela Warner Bros contou com um orçamento de US$ 65 milhões e alcançou uma bilheteria de US$ 162 milhões, além das indicações à 34 prêmios dos quais ganhou 7 e entre eles 1 Globo de Ouro.

Uma nota 8,0 é justa pelo roteiro e elenco.

Trailer de Eyes Wide Shut ( De Olhos Bem Fechados )

Ficha técnica de Eyes Wide Shut ( De Olhos Bem Fechados )

Filme Eyes Wide Shut ( De Olhos Bem Fechados )
Ano 1999
Duração 159 minutos
Produção Stanley Kubrick
Direção Stanley Kubrick
Roteiro Stanley Kubrick, Frederic Raphael

Baseado em Traumnovelle de Arthur Schnitzler

Fotografia Larry Smith
Música Jocelyn Pook
Edição Nigel Galt
Elenco Tom Cruise, Nicole Kidman, Madison Eginton, Jackie Sawiris, Sydney Pollack, Leslie Lowe, Peter Benson, Todd Field
Orçamento / Receita US$ 65 milhões / US$ 162.091.208
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