Assisti ontem a entrevista que Ciro Gomes concedeu ao programa Bancada Piauí, na TV Antena 10, gravado em 10 de outubro de 2017. Como 2018 é ano de eleição e os jornalistas o entrevistaram na qualidade de presidenciável, me parece que o Piauí saiu na frente ao abordar o assunto com seriedade.

Foi me apresentado neste episódio um Ciro muito diferente do que os anos anteriores trouxeram; um candidato mais articulado, com vocabulário mais rico, permaneceu em sua habitual sinceridade mas foi-lhe subtraída aquela costumeira explosão.

Até antes desta entrevista eu costumava dizer: “O Ciro tem como principal adversário ele mesmo, basta dar-lhe o microfone e ele se queima sozinho“. Este Ciro que falou aos jornalistas, no entanto, foi muito mais capaz que os anteriores e menos pateta.

Eu sou um sujeito de direita, sou conservador e como tal tenho compromisso com a verdade. Desde tal posição sou forçado por meus princípios a reconhecer: Ciro Gomes será um candidato com um discurso forte, será na prática o principal adversário de Jair Bolsonaro. Por razões óbvias, Bolsonaro é o candidato em quem eu votarei.

Ciro se declara um social democrata e expõe que seu plano é agir de acordo a sua linha ideológica do Socialismo Fabiano, ao passo em que tece duras críticas ao Fernando Henrique Cardoso, afirmando que eles combinaram uma coisa e que FHC o traiu e fez outra. Nisto vive ele num fantasioso universo particular: o que fez FHC foi, precisamente, seguir a ordem do Partido Democrata através do Diálogo Interamericano, executando as medidas do Consenso de Washington, o que na época ele participou, segundo contava o falecido Dr. Enéas Carneiro, Ciro não só participou, mas assinou junto com FHC e Lula o mesmo acordo.

Entre as intenções mais explícitas do Diálogo Interamericano, estavam o sucateamento das Forças Armadas e o afastamento de seus integrantes do cenário da política.

Eu, honestamente, não vejo este pronunciamento do candidato senão como mentira e abuso da fé do eleitorado através da ignorância e da ingenuidade, da falta de conhecimento prático e do analfabetismo cujo índice seus ex-aliados do PT e da esquerda em geral criaram por pelo menos 40 anos. Some-se a isto, a petulância e pedantismo pseudo-intelectual de boa parte dos jornalistas da grande mídia.

Os jornalistas que o entrevistaram apresentaram-se com decência, sem a pompa habitual, com a simplicidade provinciana, peculiar àquela região e nisto foram sensacionais, mas as questões levantadas exigem análise uma análise mais profunda, que provavelmente dado o tempo do programa não foram adequadamente exploradas.

O que me saltou aos olhos e ouvidos nesta ocasião foi o fato de que, o grande assunto foi Bolsonaro. O tema central foi tratar de como lidar com este adversário que ganhou o coração do povo brasileiro. Ciro confessou que ele é um importante personagem da política brasileira, mas apontou-lhe o dedo numa acusação relacionada a sua carreira militar.

Se Bolsonaro teve um desfecho bom ou mau em sua carreira militar é de fato irrelevante: seja verdade ou mentira, não anula seus feitos políticos sobre os quais construiu sua carreira, tampouco depõe sobre suas posições.

As revelações feitas por Ciro acerca de Doria foram pesadas, mas também inócuas, pois este, ao que tudo indica, não será o candidato tucano.

Esta entrevista é sintomática pois demonstra que Bolsonaro ensinou o caminho aos políticos: a honestidade e a sinceridade. Ciro entendeu a linguagem, mas somente a linguagem, pois seus atos ainda não estão de acordo com esta novilíngua. Ou seja, Ciro adotou a postura e a abordagem do Bolsonaro, descaradamente.

Se Jair não trouxer à tona o tema do Diálogo Interamericano, com provas documentais, perderá uma importante oportunidade de golpear a marteladas a vida do candidato do PDT.

Em outras palavras, por trás desta melhoria na comunicação, há ainda o mesmo Ciro Gomes das eleições anteriores: um pouco mais articulado, mas ainda a mesma esquerda fabiana, tão Alckmin quanto qualquer Aécio.

Para além do Socialismo Fabiano que Ciro compartilha com o tucanato, há ainda um gosto particular pela mesma carreira de Aécio, está aí algo que não me cheira bem, pois, após falar em segurança pública e impunidade com notável indignação, ousadia e franqueza, lembrei-me que o tucano é um animal com bico grande, que representa um nariz maior, para cheirar melhor. Convenhamos, cheirar é um negócio que Aécio entende.

Humor a parte, os debates de 2018 prometem superar as emoções de Game of Thrones e as bilheterias da Marvel Studios.

Ciro entrevistado e o assunto é Bolsonaro

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