Em 21 de junho de 1839 nascia Joaquim Maria Machado de Assis. Este garoto carioca que viveu sua juventude no Brasil Império sairia cedo do anonimato para se tornar o mais importante nome da literatura no país. Honrado pela história e louvado por seus pares, Machado teve seu primeiro texto publicado em 1854 no Periódico dos Pobres, aos 15 anos. Não muito tempo depois, aos 18 anos, no periódico chamado A Marmota, tinha publicado sua primeira crítica literária.

A crítica foi dividida em duas edições diferentes. Em 9 de abril de 1858, foi publicada o início de sua crítica, as partes I e II. Em 23 de abril de 1858 as partes publicadas eram a III e a IV, concluindo assim o texto.

Antes de começar, é necessário esclarecer que a atividade crítica não se trata de hostilizar ou enaltecer a ninguém ou a obra alguma, mas estabelecer o valor de autores e obras. Neste caso, Joaquim estava preocupado com o caminho que a literatura tomava no Brasil.

Machado estava observando o processo histórico da literatura, traçando um paralelo com a política nacional e os acontecimentos estrangeiros. O registro deixa clara sua preocupação com a identidade nacional: os escritores brasileiros estavam copiando o estilo europeu, a saber, especificamente o francês, que não encontrava respaldo na realidade brasileira. Os romances não idealizavam os cenários, personagens e situações condizentes com o status quo nacional, as poucas tentativas como as de José de Alencar acabavam por desenhar personagens indígenas que, se por um lado eram nativos, por outro lado, ainda assim não refletiam os costumes populares.

O autor, preocupado com o futuro, sugere que as traduções sejam desvalorizadas pelo mercado na tentativa de valorizar a criação de novas obras. Observando desta forma, de um ponto de vista industrial da literatura, a sugestão pode ser equiparada ao processo de câmbio em economia.

Um ponto notório é que segundo ele, não haviam “aberrações” entre os escritores, mas mesmo assim os grandes poemas eram raros.

Divide Machado a produção literária do Brasil nesta época em três partes: romance, drama e poesia. Da poesia não deixa dúvidas que há produção, dos romances faz observações sobre as distopias de identidade e dos dramas observa o teatro.

É importante destacar que, o teatro da literatura erudita equivale ao roteiro de cinema na atividade contemporânea.

Em outras palavras, o valor da literatura nacional era ínfimo quando comparado à necessidade da busca pela identidade nacional pós independência. O Brasil era agora um Império e precisava começar a expressar artisticamente seus personagens reais, seus cenários reais e por fim suas possibilidades reais.

Em tempo integral Machado de Assis observa os prejuízos pela visão econômica e materialista do espírito revolucionário que suscita paixões políticas e como consequência faz decair a produção cultural, tanto em quantidade quanto em qualidade.

Me parece que o Brasil, é antropologicamente vítima do espírito revolucionário, abarrotado de descontentes com a realidade que permanecem Prometeus na ânsia do roubo pelo fogo da propriedade de Zeus; o progresso não é mais andar em direção ao futuro, mas subtrair do mérito sua honra, e sem mérito, sem produção: isto reflete na produção cultural. A saber, se o materialismo atual, agora um de ordem marxista que nega as relações metafísicas e atribui a felicidade exclusivamente ao insumo espiritual da vaidade: um tênis Nike no pé. A substituição do espaço subjetivo que trata os dilemas espirituais pelo contento imediato material, produz imbecis.

Eis aí o Brasil de hoje e Machado não errou, infelizmente o maior escritor brasileiro de todos os poucos tempos estava certo: o processo revolucionário faria decair a produção cultural na medida que a percepção espiritual arrefece. Se como calota polar ela afunda no mar do esquecimento, como honra dos antepassados desvanece e dá lugar à barbárie intelectual: nóis vai, os mano tá com medo do Enem.

Há poucos dias alguém me enviou um vídeo do Pânico onde a garota de nome Amanda afirma que Mano Brown é o maior poeta do país. Ouvindo uma de suas recentes letras, ele completa com onomatopeias o espaço das sílabas poéticas para alcançar a rima:

“Contra os boys, contra o GOE, contra a Ku-Klux-Klan
E o Japan, de manhã, dando um pelé nos Rocam
Pé-de-porco é pé frio, dos seis é meia de lã
(hã,hãhahã,hã,hã)”

Racionais MC’s – Mente do Vilão

Em outras palavras: quando o “maior poeta brasileiro” da atualidade é incapaz de consultar um dicionário de rimas e toda sua obra é baseada em gírias que não serão compreendidas num prazo de uma década, seus personagens arquétipos ideológicos amputados de alma cuja única identidade é o elemento grupal coletivo, só resta um termo para definir a obra: efêmera. Se as gírias serão abandonadas no prazo médio de uma década, que valor tem para documentar a história? Zero.

O único documento gerado pela tradição artística contemporânea, é o lamento de Machado de Assis que ecoa história afora.

O passado, o presente e o futuro da literatura – Machado de Assis

Para os curiosos e interessados deixo abaixo os links para os textos em formato digital:

 

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