Nascido em 21 de junho de 1839, Joaquim Maria Machado de Assis escreveu a crônica “Aquarelas“, publicada pelo periódico carioca “O Espelho” em 1859, aos 20 anos de idade.

Aquarelas é uma crônica ácida e satírica, carrega no bojo um pouco de ressentimento, mas este é um elemento comum no humor.

Na crítica publicada no ano anterior, 1858, chamada “O passado, o presente e o futuro da literatura“, no periódico “A Marmota“, o autor preocupava-se com a ausência de personagens, cenários e situações nacionais e com a presença maciça de literatura e teatro importados através de traduções, sobretudo da França.

Machado não era avesso à cultura francesa, o que ele queria era ver a identidade nacional retratada culturalmente, principalmente para o posicionamento popular face às questões levantadas politicamente. Sentia ele que a ausência de literatura significava a consequente nulidade de uma unidade de consciência coletiva que tardava já, ultrapassados 35 anos da independência do Brasil. O país ainda encontrava-se preso aos estereótipos e arquétipos internacionais, mais próprios do período colonial, que não refletiam mais a realidade contemporânea para a época.

Com acidez vingativa, talvez pela falta de resposta de seus pares, esta crônica se deu quase como que um princípio deste trabalho.

Em Aquarelas, Machado de Assis pinta 4 personagens comuns na sociedade brasileira: o fanqueiro, o parasita, o funcionário público aposentado e o folhetinista. Todos, de alguma forma perniciosa ligados à literatura e a arte.

O fanqueiro é lisonjeador, o puxa-saco, o sujeito que hoje quer aparecer nas fotos junto com o personagem principal, sem nada produzir para com isso trabalhar sua imagem, publicitariamente.

O parasita segue a lógica do próprio nome, ele não produz, mas está presente em todos os cantos para consumir os resultados do ofício alheio.

O funcionário público aposentado, análogo a múmia egípcia, é o sujeito que vive do passado, odeia o presente e teme o futuro, reprovando toda produção cultural recente e enaltecendo exclusivamente o que em seu tempo foi feito.

O folhetinista é o colunista de jornal semanal, produtor de nulidades intelectuais que apresenta-se como gênio, herói e salvador cultural, além de regulador da moral, decidindo arbitrariamente a quem elevar e a quem abater.

O escritor não desejava excluir tais personagens do ambiente cultural, mas satirizá-los, torná-los o alvo do escárnio. Desta forma, talvez inconsciente mas ainda eficaz, Joaquim Maria demonstrava como extrair do cotidiano, os personagens e situações para os romances e dramatizações teatrais: era esta sua preocupação central na época.

Hoje não é diferente, infelizmente apenas no humor tais personagens são retratados e dado o status quo do politicamente correto instalado, nem todos podem ser pintados. Programas midiáticos como o tradicional “A Praça é Nossa” e alguns artistas da comédia Stand Up, como o Fabio Rabin, cumprem este papel. Não possuem é claro, a erudição de um Machado de Assis que citava a cada novo texto um mínimo de 3 grandes autores e obras que enobreciam o ambiente cultural como um todo, elevando o leitor forçosamente ao seu nível sob a pena de perder um excelente momento. Mesmo não sendo eruditos, ou ao menos grandes autores (sequer autores são! Zeus!), estes são na atualidade os oficiosos desta lacuna.

O título “Aquarelas” não é por acaso, mas é justamente porque Machado intentava “pintar” tais personagens de sua época, hoje, o que temos de mais parecido é o trabalho do vídeo abaixo:

Aquarelas – Machado de Assis

Para os curiosos e interessados deixo abaixo os links para os textos em formato digital:

1859 – Aquarelas – Machado de Assis – O Espelho ( Texto do MEC )

1859 [original] Aquarelas – Machado de Assis – O Espelho ( Documento original )

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