Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no dia 21 de junho. Cedo demonstrou talento para as letras, rapidamente encontrou seu lugar no meio literário e antes do falecimento em 1908 já era reconhecido como um dos grandes escritores nacionais.

Em 1854 já havia sido publicado pelo Periódico dos Pobres, poema que resenhei dias atrás. Este registro data de 3 de outubro daquele ano.

Não muito distante, em 6 de janeiro de 1855 escreveu o intenso poema “A Palmeira“, que seria publicado 10 dias depois por outro periódico, a “Marmota Fluminense“, no dia 16 de janeiro.

É importante ressaltar que em literatura estuda-se o espaço subjetivo entre o autor e um determinado objeto, assunto que desenvolve. Ao expressar suas percepções deste intervalo, dota o objeto de características que a ciência não pode alcançar em sua visão objetiva. Portanto, quem estuda literatura, estuda a expressão e articulação não de ideias apenas, mas de posições e percepções acerca de um fato. Este é um limite implícito entre a literatura e a ciência: o delinear do subjetivo e do objetivo.

Esta fase do poeta revela um jovem de 15 anos, com muita força de vontade e dedicação buscando seu lugar.

O poema contém 7 estrofes de 6 versos cada e trata de uma decepção amorosa, na qual o jovem Machado compara os aspectos de uma determinada árvore ao seu recente desencontro afetivo.

A PALMEIRA

A FRANCISCO GONÇALVES BRAGA

Como é linda e verdejante
Esta palmeira gigante
Que se eleva sobre o monte!
Como seus galhos frondosos
S’elevam tão majestosos
Quase a tocar no horizonte!

Ó palmeira, eu te saúdo,
Ó tronco valente e mudo,
Da natureza expressão!
Aqui te venho ofertar
Triste canto, que soltar
Vai meu triste coração.

Sim, bem triste, que pendida
Tenho a fronte amortecida,
Do pesar acabrunhada!
Sofro os rigores da sorte,
Das desgraças a mais forte
Nesta vida amargurada!

Como tu amas a terra
Que tua raiz encerra,
Com profunda discrição;
Também amei da donzela
Sua imagem meiga e bela,
Que alentava o coração.

Como ao brilho purpurino
Do crepúsc’lo matutino
Da manhã o doce albor;
Também amei com loucura
Ess’alma toda ternura
Dei-lhe todo o meu amor!

Amei!… mas negra traição
Perverteu o coração
Dessa imagem da candura!
Sofri então dor cruel,
Sorvi da desgraça o fel,
Sorvi tragos d’amargura!

………………………………….
Adeus, palmeira! ao cantor
Guarda o segredo de amor;
Sim, cala os segredos meus!
Não reveles o meu canto,
Esconde em ti o meu pranto
Adeus, ó palmeira!… adeus!

Machado de Assis – Marmota Fluminense – 16 de janeiro de 1855

Ao que tudo indica o adolescente de Assis na altura amava alguém em segredo ou então desejava que sua confissão de amor fosse ocultada por vergonha. Também afirma ter sido traído e sofrer em demasia: coisas da juventude.

O lirismo da poesia fica por conta dos jogos de palavras que não se repete em todas as estrofes, é um aspecto interessante para um escritor tão jovem.

Na abertura, há uma dedicatória a Francisco Gonçalves Braga (1836-1860), poeta português que veio ao Brasil aos 11 anos de idade e conviveu com Machado de Assis. Braga era poucos anos mais velho que Machado e é notoriamente uma de suas influências.

Boa parte dos antigos escritos de Machado de Assis podem ser encontrados no site da Hemeroteca Digital.

Este poema consta no livro “Poesias Dispersas – Machado de Assis – 1854-1939“, cujo download em PDF ofereço ao final deste texto.

A Palmeira – Machado de Assis

Para os curiosos e interessados deixo abaixo os links para os textos em formato digital:

Poesias Dispersas – Machado de Assis – 1854-1939 ( Texto do MEC )

Machado de Assis – A Palmeira – Marmota Fluminense – RJ, 16 de janeiro de 1855 ( Documento original )

Anúncios