Se Odisseu passou por muitas terras, Marty McFly e o Dr. Emmett Brown por muitas épocas passaram. Os anos noventa iniciaram com desfecho desta, que foi considerada a melhor viagem no tempo de todos os tempos. Spielberg trouxe Back to the Future Part III para concluir a trajetória de uma das duplas mais leais já filmadas. No Brasil, “De Volta para o Futuro III” também fez a marca a ferro em brasa de uma das maiores trilogias cinematográficas da história.

Enquanto Jennifer Parker dorme na varanda, seu namorado Marty embarca numa viagem pelo tempo para salvar sua época mas acaba preso no passado. Agora ele terá que voltar mais no tempo ainda, até o ano de 1885, em pleno desenvolvimento da Revolução Industrial com suas aquecidas e barulhentas, rusticamente deliciosas, máquinas a vapor, para salvar seu amigo cientista de um final trágico e injusto. O jovem McFly verá de perto os índios e a cavalaria em choque em meio aos cowboys do velho oeste americano. Era a américa se tornando América, a lei estabelecendo-se junto ao caos bárbaro de uma civilização que somava Locke e Hobbes para se tornar a primeira potência mundial nos séculos seguintes.

Já havia abordado o argumento dos atalhos baseados na trapaça, na mentira, durante a crítica anterior. Aqui a profundidade superou e a complexidade majorou.

Se o ator principal da trama até então era a responsabilidade do indivíduo, aqui ela se estendeu para o nível do acidente: acidentalmente o Dr. Brown vai parar no passado, são os cálculos que não podem ser abrangidos pela ciência, é o inesperado. O não esperado ganhou vez e foi salvo pela pureza dos corações da dupla, que desta vez, foi a vítima das circunstâncias.

Brown teve que aprender que se ele tinha razão quanto a culpar Marty pelo incidente proposital do almanaque de esportes no segundo episódio, aqui algo fugiu ao seu paradigma científico: a moral que diz, que sua autoria vai além da sua intenção, mas dos desdobramentos que estão além de sua compreensão. O DeLorean DMC-12 foi parar na terra onde Clint Eastwood salvou uma família das mãos do crime, no tempo em que Billy The Kid roubava gado e Wyatt Earp estabelecia a ordem com mão de ferro.

Se Marty se arrependeu no segundo momento, esta foi a vez do doutor conhecer o arrependimento e num ato de contrição encontrar a redenção.

Para além de todos os cálculos nos quais o petulante ser humano se arroga senhor de seu destino, a doce Clara aparece, para demonstrar o quão humanos somos e que como nos ensinou Platão: “Ao toque do amor, todo homem se torna um poeta“. Enfurecido o Eros Primordial tocou o coração de Brown e de Galileu à Borh, toda ciência virou pó.

O futuro não está escrito! – Brada o doutor, livre de seus encargos de consciência ao perceber como Ulysses, que perante as divindades, somos pouco mais que poeira. Se o segundo reconciliou-se com Poseidon, o primeiro com o Criador. E aprendeu o homem da ciência que o desafiar das leis cósmicas, conheceria apenas dor.

Este é o mais grego dos arcos narrativos da atualidade. É Bob Gale nosso Homero. É o roteiro original mais fascinante de todos os tempos. Se nas universidades é usado como exemplo de perfeição em roteiro, não é sem motivo, a lição do trágico grego está orgulhosamente fundida e sem uma intenção anterior que a preceda, é espontâneo e genial, absolutamente genial.

A definição de gênio por Sócrates em O Banquete é “o que é inspirado e causa inspiração“, o trabalho de Bob Gale é precisamente isto.

Ainda a reverência e o respeito marcantes à história do povo americano, demonstraram patriotismo com excelência, com uma fotografia, cenografia e figurinos impressionantemente bem feitos, próximos a perfeição da simplicidade, tocando a cútis do real. Não contente com o oeste transportado para uma imersão visual, ZZ Top produziu com Alan Silvestri uma das mais animadas e dançantes músicas de época, proporcionando o translado definitivo do sacudido expectador, que acabou indo morar de vez no século XIX quando a edição somou imagens e sons.

O amor… Ah! O amor! Não aquele de quem o está esperando e buscando, mas o verdadeiro: o encontro marcado pelo Dono do destino, a irrevogável decisão do Autor da vida! Brown e Clara se olharam nos olhos e viram almas atraídas como por imãs de neodímio, fundidas e inseparáveis, gozaram da sentença condenatória que todos buscam, o casamento que acontece antes do altar, antes do cartório e antes do falar, o casamento do olhar. Não viram corpos eróticos, nem lábios ávidos pelo toque, viram o complemento mútuo de si no outro. Inevitável, tórrido e saboroso. Não se desatam almas unidas que encontraram unidade. O “um” é definitivo e esta película é didática: O amor é canção silenciosa, composta em horizonte imediato e surdo, que só pode ser ouvida pelo autor.

Como toda epopeia tem um fim, com a temporal não seria desigual: saiu da tela para vida eterna. Irmãos, genuinamente irmãos, de parentes não nascidos na mesma família, sem laços sanguíneos, Michael J. Fox e Christopher Lloyd encerraram aqui o fenômeno desta amizade primorosa: lealdade, o lastro de toda e qualquer sociedade, expresso ante as câmeras e impresso em nossas almas. O amor ao próximo ensinado por Jesus Cristo, foi por esta dramatização ensinado. Mais que amigos, irmãos a cuidar um do outro! Este elenco encerrou-se em sinergia invejável.

A direção de Robert Zemeckis entregou a conclusão com dignidade: o último argumento deste ensaio sobre a responsabilidade do indivíduo foi completo e inapelável.

Novamente um filme de baixo orçamento, cujo investimento foi de penuriosos US$ 40 milhões realizou uma bilheteria expressiva de US$ 244 milhões e recebeu injustas 16 indicações a prêmios, das quais venceu apenas 5. Que os cegos conduzam-se ao abismo sozinhos, esta injustiça não cometo.

Se uma nota maior do que 10,0 existisse, seria a nota perfeita para inesquecíveis 118 minutos de romance, faroeste, ciência e responsabilidade, confluentes numa harmonia melódica de sintonia franca: o aplauso que Hollywood negou, Homero concedeu e o doutor Brown sentou-se à mesa com Júlio Verne e Odisseu.

Trailer de Back to the Future Part III ( De Volta para o Futuro III )

Ficha técnica de Back to the Future Part III ( De Volta para o Futuro III )

Filme Back to the Future Part III ( De Volta para o Futuro III )
Ano 1990
Duração 118 minutos
Produção Neil Canton, Bob Gale
Direção Robert Zemeckis
Roteiro Bob Gale
Fotografia Dean Cundey
Música Alan Silvestri
Edição Harry Keramidas, Arthur Schmidt
Elenco Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen, Thomas F. Wilson, Lea Thompson
Orçamento / Receita US$ 40 milhões / US$ 244.527.583
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