Nascido em 21 de junho de 1839, Machado de Assis estava em setembro de 1859 com 20 anos. Nesta idade, conforme venho expondo em textos anteriores, o jovem carioca estava preocupado com a identidade nacional expressa na cultura. O texto “Os Imortais“, é composto de duas lendas que abordam o problema com perspicácia e acidez de um ângulo oposto: ele não cuida de descrever este lado do oceano, mas de ridicularizar com muita acuidade o outro lado, diminuindo-o num misto de realidade e sobrenatural.

Em sua primeira crítica publicada no ano anterior num veículo de mídia, “O passado, o presente e o futuro da literatura” (1858 – A Marmota), Machado observava a ausência de personagens, circunstâncias e cenários, que descrevessem o Brasil e seus costumes, e pede até que o estado interfira criando impostos sobre as traduções para diminuir o número de obras estrangeiras que populavam o mercado e incentivar os escritores locais, que apesar de pequenos e muitas vezes desconhecidos, poderiam preencher esta lacuna mesmo que a passos de tartaruga.

Pouco tempo depois, já em 1859, na crônica “Aquarelas“, o jovem autor ao perceber a ausência de resposta de seus pares literários decidiu iniciar uma ridicularização das figuras que acreditava compor o quadro problemático da literatura no país. Aqueles que recebiam louros debalde em troca de folhas secas duma primavera passada. A saber, colunistas de jornal (folhetinistas), saudosistas inveterados (funcionários públicos aposentados), puxa sacos em busca de auto-promoção (fanqueiros) e oportunistas (parasitas). O escritor revoltado buscava saneamento do ambiente cultural, golpeando com palavras contundentes àqueles inimigos da alta cultura que brotavam como ervas daninhas insaciáveis em toda parte.

Combater o mal, para dar lugar ao bem que surgiria por conta própria: era esta a estratégia do escritor carioca.

Os textos que compõe “Os Imortais” são “O Caçador de Harz” que escarnece do rei francês Carlos IX (1550-1574) e “O Marinheiro Batavo” que trata de um personagem pertencente a um extinto povo europeu, da República Batava (1795-1806) que durara apenas 9 anos – mesmo naquela época já era findada. Ambos textos satirizam arguciosamente a mesma França, cultura alvo do jovem de Assis que insistente reclamava dos excessos de traduções inúteis e perniciosos aos romances e dramas que compunham o ambiente cultural brasileiro. Se por um lado ao rei Carlos IX atribui a inutilidade, por outro lado, ao personagem da finada República Batava uma busca avarenta por uma imortalidade impossível. Acontece que a Batava era um estado cliente da França e nisto reside a sutileza mordaz.

O rebaixamento estrangeiro acontece aqui com muita classe e elegância, não se trata de um escracho porco, tão comum aos humoristas contemporâneos.

O problema retratado por Machado de Assis na época não é incomum até os dias de hoje. O professor Olavo de Carvalho em seu curso “Guerra Cultural“, fez uma abordagem muito parecida expondo a ausência de personagens reconhecíveis pelo vulto popular em obras nacionais. A preocupação de ambos é também similar: a ausência destes personagens prejudica consciência dos indivíduos, formando um ignorante coletivo que se apresenta incapaz e impotente em questões importantes que abrangem toda sociedade, sobretudo decisões políticas.

Os Imortais – Machado de Assis

Para os curiosos e interessados deixo abaixo os links para os textos em formato digital:

1859 – Os Imortais – Machado de Assis – O Espelho ( Texto do MEC )

1859 – Os Imortais – Machado de Assis – O Espelho ( Documento original )

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