Na mitologia grega, dois personagens, em esferas muito diferentes, suscitam a mesma questão: a moral. Falo de Prometeu, o titã que roubou o fogo do Olimpo, da propriedade de Zeus, para dá-lo ao homem e evitar sua destruição, e do astuto Ulysses, cujo dom tratava-se da inteligência, uma acuidade de raciocínio em alta velocidade, que o levou a desafiar seu protetor, Poseidon.

Prometeu foi de fato um criminoso metafísico e diferente de Ulysses, o primeiro era um titã enquanto o último um mero humano. A questão de Prometeu é a seguinte: estariam deuses abaixo das leis criadas por eles mesmos?

Ulysses na Odisseia precisa passar por tudo e esgotar seus recursos para que no final entenda-se incapaz de resolver os problemas que estão acima de si, admita que a vitória contra Troia foi de Poseidon (e demais deuses) e não dele, volte atrás, arrependa-se após identificar a verdade e encontre finalmente a redenção deste erro.

Prometeu por outro lado, não era humano, era um titã e inclusive anterior aos deuses. A estória remonta inclusive a titanomaquia, a guerra entre os deuses e os titãs, na qual alguns dos titãs não participaram e entre eles o próprio Prometeu. Também este foi o criador dos homens que mais tarde Zeus resolveu destruir. Nesta intenção de destruir os homens criados por Prometeu, o deus grego ofendeu o titã. Este por sua vez roubou do panteão o fogo do deus e deu-o aos homens, para que sobrevivessem.

Decompondo esta guerra entre as divindades mitológicas, encontro alguns elementos:

  • Zeus era o portador do poder.
  • Prometeu o sabedor do futuro e o criador dos homens.
  • A terra propriedade de Gaia.

O poder e o saber, quem impera?

Há por uma perspectiva simbólica a questão se o poder impera sobre o saber e esta demonstra-se verídica historicamente. Por exemplo: Sócrates venceu os três adversários em seu julgamento e foi ainda assim condenado. O saber estava com ele, o poder não, e o poder venceu-o naquela questão. Mais tarde no entanto, o saber de Sócrates foi a mola propulsora da nova civilização grega, um divisor de águas reconhecido pela filosofia, separando períodos em pré-socrático e tudo que veio depois.

A mitologia é uma manifestação da inteligência através da dedução, expressa literariamente e composta de símbolos organizados de forma a tentar entender o status quo da época.

Na mesma estória, Zeus condena Prometeu, prendendo-o ao rochedo e castigando-o com uma ave que todos os dias comia-lhe as vísceras, para no dia seguinte restaurarem-se, dada a imortalidade divina do titã. Ainda neste castigo, segundo conta a ficção de Ésquilo, o próprio Prometeu anuncia a Zeus seu fim e profetiza sua libertação que viria tardiamente pelas mãos de Hércules. Esta me parece a mesma figura da Apologia de Sócrates, pois este também amaldiçoou à sua maneira seus adversários e o destino do trio foi cumprido também. Sócrates permaneceu vivo na história, Prometeu no símbolo.

Zeus poderia, tocar na obra de Prometeu?

Uma questão ética na verdade sobre os limites do poder e até suas fragilidades. Tanto na história de Sócrates, quanto na estória mitológica, o saber perdeu no primeiro instante, mas venceu em seguida, não pela capacidade concreta de ação que se entende o poder, mas pela estrutura da realidade à qual o próprio poder depende para existir.

Neste ponto, de reconhecer o poder como, embora imanente, ainda sujeito à estrutura da realidade, neste caso Zeus torna-se Ulysses, pecando contra seu superior abstrato. Um superior concreto seria Crono, representando este titã o tempo e mitologicamente o pai do deus. A realidade na qual inseridos o poder e o saber, os sujeita às suas regras e agredindo o saber, o poder é vulnerável, conforme o titã anunciou ao deus: ele não o ajudaria a prever seu próximo adversário e este seria seu fim. Em outras palavras, sem o saber, o poder tornou-se impotente.

Se o saber é base de ação do poder, respeitando a estrutura da realidade proposta na mitologia, a resposta ética, à questão aqui é um não. Um claro não. Atacar Prometeu significou atacar as suas defesas e portanto a si próprio.

Capacidade no entanto, não faltava ao deus, conforme demonstrado.

Prometeu poderia roubar o fogo de Zeus?

Haveriam para o titã duas propostas aqui: a primeira seria ignorar, deixar o homem morrer e em seguida criar tudo de novo, ou, reagir e impedi-lo. Optou pela segunda.

Há eminente aqui a questão da propriedade, entre o saber e o poder. Tal questão desdobra-se sobre a dignidade refletida pela aceitação do ato do poder ou sua rejeição.

Prometeu, agiu por amor à sua obra, mas também por amor a si próprio. O poder e o saber, ou andam juntos, ou desmembram-se. O poder sem saber é impotente, o saber sem poder é inútil.

O titã não precisava roubar o fogo de Zeus, mas o fez. Se considerou sua dignidade ao fazê-lo, deveria também ter considerado a dignidade do deus e portanto de antemão saber seu destino: ele sabia seu destino, primeiro por ser o saber, segundo por sua figura ser a entidade portadora da previsão.

Tudo parece confluir para uma questão de amor à obra, mais que ética sobre propriedade. É uma questão de ética sobre propriedade e dignidade simultaneamente.

Se hipoteticamente Zeus houvesse cumprido seu intento, ainda Prometeu poderia ter recriado o homem em seguida, mas até quando o poder não respeitaria o saber? Quantas vezes a criança deveria ter seu brinquedo quebrado, contentando-se com o choro abafado, sob o medo do castigo injusto? Sendo o titã e o deus, iguais em termos divinos, e nenhum superior ao outro, como o deus Poseidon em relação ao homem Ulysses, a questão é obviamente entre iguais. O forte contra o fraco, o músculo contra a inteligência. Aniquilaram-se, mas parece a inteligência ter vencido de alguma forma no fim, tanto em Sócrates e sua herança, quanto na libertação do titã por Hércules.

Diferente de Ulysses que precisava reconhecer Poseidon, aqui Zeus e Prometeu precisavam reconhecerem-se mutuamente, ou sofreriam prejuízos incalculáveis.

A resposta é: nem roubar o fogo de Zeus, nem omitir-se, mas tentar outra via, o diálogo. Se por outro lado o diálogo fosse impossível, o crime do roubo aqui, foi uma resposta em tom de vingança que assumiu a configuração de competição entre dois egos elevados. Eticamente, considerando a estrutura da realidade, ambos erraram e portanto não, Prometeu não deveria ter roubado o fogo de Zeus, na medida que Zeus não deveria ter ameaçado sua obra. Foi tiro trocado.

Disputas de propriedade em terra estranha

A terra não pertencia a Zeus ou a Prometeu, mas a Gaia. Esta nada fez. Ambos, erraram mais uma vez aqui? Talvez, pois o poder e o saber, são também relativos ao espaço, e é o que Gaia representa: o espaço.

A mitologia conta que Gaia fora fecundada por Urano e desta forma gerou os titãs, que geraram os deuses.

Simbolicamente, o poder e o saber, agem dentro do espaço e sobre ele. Este é um caso onde ambos tinham direito, pois tratavam-se de herdeiros legítimos da mesma mãe.

Tal questão levanta-se sobre o direito de herança. Zeus não era dono de Gaia, nem Prometeu dono do Olimpo. Zeus não poderia agir sobre Gaia contando apenas consigo, na medida que Prometeu não poderia ter roubado-lhe o fogo.

Ainda a genealogia mitológica reconta que Cronos agiu contra Uranos, seu pai. Zeus agiu contra Cronos, seu pai. Nesta linha de substituição do trono de filhos contra pais, formando um processo reformador e fluxo constante da cosmovisão, Prometeu parece ter defendido a coisa certa: o próximo após Zeus. A libertação por Hércules é, de certa forma isso.

Os filhos ficam no lugar dos pais, que morrem de alguma forma e a propriedade é por vezes objeto de disputa em heranças.

O terreno da filosofia, da mesma forma foi herdado por Sócrates na disputa contra os sofistas.

Conclusões?

A única que posso soltar no presente é que Sócrates cumpriu em vida a tragédia grega, especialmente a linha de Ésquilo, e que, isto prova pelo menos que a mitologia não definiu o comportamento do povo, mas que o desenhou, que se tratou de um trabalho dedutivo e não indutivo.

Todas as questões suscitadas acima, são apenas rascunhos de uma elaboração maior, que algum dia vou soltar e portanto, nada aqui é conclusivo: qualquer sugestão é bem vinda e será recebida com todo carinho e atenção.

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