Há pouco tempo escrevi a crítica do episódio piloto de Lie To Me (Engana-me Se Puder) na qual revelei um tremendo entusiasmo com a série de 2009 da Fox.

A Fox é tida como uma emissora alinhada mais aos republicanos e à direita conservadora, mas desta vez vou discordar disso com veemência. No jornalismo, sim, ela é, mas na arte eu sinto muito.

O piloto foi ideologicamente suave e honesto, fiel com a proposta de retratar o trabalho de Paul Ekman sobre as micro-expressões faciais, a linguagem corporal, enfim, imergir o expectador no universo da programação neurolinguística por intermédio de uma narrativa policial.

Assisti toda a temporada, mas logo no segundo episódio veio a decepção: marxismo cultural gritante. Os “crimes” investigados são sempre luta de classes na velha e cansativa tentativa de modificar a moral vigente, da responsabilidade do indivíduo para a do coletivo, compartimentando distopicamente a sociedade em grupos.

As imagens transmitidas das personalidades dos personagens construídos soam como uma réplica porca frankfurtiana: o ódio ao cristão e ao homem branco ocidental.

É estereotipagem o tempo todo: todas as mulheres são fortes e independentes, os negros são fortes e másculos e os hispânicos são determinados e aguerridos, ao passo que os brancos são frágeis, cruéis e neuróticos, e ganham um ponto a mais de fragilidade se forem cristãos, pois aí são todos, sempre, fanáticos fundamentalistas ou doentes mentais com perturbações de toda sorte. A coisa fica mais evidente quando são integrados os muçulmanos, pois estes são todos pacíficos, estudiosos esforçados, trabalhadores exemplares, impecavelmente honestos e perseguidos por agentes federais transtornados e estes sim, os verdadeiros criminosos.

Estou convencido de que o direitismo da Fox é o mesmo do PSDB: uma social democracia mista de liberais globalistas.

Tim Roth como o Dr Cal Lightman é sem dúvida digno de elogios, um tremendo ator que conseguiu entrar na pele do gênio Paul Ekman e materializá-lo frente às câmeras.

Kelli Williams (Gillian Foster), Brendan Hines (Eli Loker), Monica Raymund (Ria Torres) e Mekhi Phifer (Ben Reynolds), cresceram muito nos 13 episódios e aos poucos ganharam vida, para além do estereótipo, mas o roteiro porco não deu aos atores a oportunidade de expor todo o potencial que lhes é dote. Sim, eles podiam mais e não, não foi culpa deles. Hayley McFarland se sobressaiu como Emily Lightman, a filha adolescente do protagonista e Jennifer Beals como Zoe Landau, a ex esposa de Cal, mostrou-se uma atriz muito expressiva, do tipo que rouba a cena, convence e merecia um espaço muito maior.

Eu estou agora na segunda temporada e devo dizer que, embora contenha uma pesada carga de marxismo cultural, por outro lado a proposta da programação neurolinguística foi cumprida. Isso foi de uma competência didática digna de replay.

A edição e a fotografia são os trabalhos principais, que necessitaram de clareza absoluta e riqueza de detalhes de altíssima qualidade. A trilha sonora, “Brand New Day“, do Ryan Star, entra na cabeça e não sai mais, fica tocando sozinha e quando você menos espera está abrindo o Google e a procurando só para ouvir enquanto trabalha.

O roteiro apresenta uma organização diferente das demais séries que estamos acostumados: 2 desafios por episódio, simultâneos, que preenchem as atividades da equipe por quarenta e poucos minutos, dando ritmo frenético. As questões do arco narrativo da temporada são também uma dupla e quem está acostumado com uma crise no final acaba por se decepcionar, as expectativas em um grande conflito crescem como a as ações do Itaú, mas as soluções aparecem no desfecho com a emoção de um locutor de rádio AM e o sabor de um ovo cozido. Do arco eu esperava muito mais, havia espaço e equipe. A conclusão é curiosamente sui generis, competente pelos duplos desafios e simultaneamente incompetente pelo desenvolvimento e desfecho do arco.

A direção orquestrou um time artístico não tão talentoso no todo, mas que se mostrou capaz e onde encontrou espaço evoluiu, e, ao mesmo tempo uma equipe técnica de excelência. O resultado foi regular, mas poderia ser muito melhor e o que salva o seriado é a exemplificação da prática da PNL.

Uma nota 7,0 pela didática, elenco e equipe técnica é justa, mas se dependesse do roteiro a nota seria zero e de quebra o sujeito que traduziu “Lie To Me” para “Engana-me Se Puder“, conseguiu ser pior que um marxista cultural e merecia ser demitido da indústria do cinema para trabalhar em um lava rápido como balconista e de preferência mudo: o desgraçado acabou com a sutileza da carga semântica no título, uma verdadeira licença poética numa figura de linguagem irônica e tornou- a uma seca retórica digna de um episódio do Mazzaropi.

Ainda assim, pela neurolinguística, vale a pena assistir a série. Em breve solto a crítica da segunda temporada. 😉

Crítica – Lie To Me (Engana-me Se Puder) – Primeira temporada

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