Definitivamente os roteiristas da FOX entre 2009 e 2010 não estavam em bons anos.

Critiquei com entusiasmo o episódio piloto e frustrado a primeira temporada, denotando a queda de qualidade e o problema do arco narrativo, a segunda temporada foi apenas a confirmação.

Se na primeira temporada a estratégia adotada pecou na criação de uma crise ardente que prometeu durante o desenvolvimento, na segunda simplesmente não houve um “tema central” abrangente, foi uma casualidade caótica que buscou refúgio concentrando-se em Cal Lightman enquanto pai. Inclusive as lições de PNL (programação neurolinguística) foram abandonadas e as virtudes do herói foram substituídas por vícios. A genialidade deu lugar a um narcisismo egocêntrico e a honestidade que lhe fazia firme trocada por uma autoridade abusiva.

Os roteiristas simplesmente destruíram o personagem.

Todos esperavam um romance entre Cal e Foster, e seria perfeito. O que nos foi entregue foi um irresponsável aventureiro metido a homem de negócios. As esporádicas aventuras de Lightman e o temperamento maternal de Gil, simplesmente acabaram por diminuí-lo à estatura de garotinho birrento.

O seriado que se propôs a retratar Paul Ekman, deveria ter sido processado pelo cientista, a não ser é claro que ele de fato tenha sido este personagem moralmente medíocre que a Fox apresentou.

O excêntrico doutor ganhou traços muito semelhantes aos de Tony Stark (o Homem de Ferro) da Marvel, vivido genialmente por Robert Downey Jr., em alguns momentos são até indiscerníveis. Tim Roth, o ator que vive o protagonista, atuou novamente com maestria, mas uma vez mais o roteiro o prejudicou.

O “Lightman pai“, do ponto de vista familiar, como tutor de Emily, foi apresentado como homem honrado e preocupado com o futuro moral da garota, ao passo que o patrão, líder de uma equipe talentosa, apenas um confuso destrambelhado.

O marxismo cultural foi novamente a temática de fundo responsável pela queda de qualidade. Todos os crimes (sem exceção! Não é brincadeira!) foram luta de classes numa sociedade compartimentada típica de abordagem distópica. Antes de serem humanos, para estes roteiristas os personagens são pertencentes a grupos de minorias.

As sequências frenéticas de duplos desafios por episódio não foram mantidas. Alguns episódios inclusive ficaram confusos e pareceram sem desfecho, sem conclusão. O arco narrativo dos 22 episódios? Não houve. As tramas desenvolvidas mais esparsas foram os relacionamentos de Cal com a cliente e de Foster com o agente do DEA, cujos desfechos foram pobres ao ponto de dar nojo, além de incoerentes com os personagens coadjuvantes.

A qualidade da fotografia perdeu espaço para a trama e a trilha sonora não sofreu alterações. A edição ganhou tons mais científicos e as cenas foram apresentadas como memórias ao invés de flagrantes, mas perdeu o espaço didático maravilhoso que ocupava.

O elenco cresceu timidamente pela falta de espaço e novamente o excesso de estereotipação. O destaque desta vez foi para Monica Raymund com sua aguerrida Ria Torres, que mostrou o quão natural pode ser com uma personagem feminina, sensual, bela e viva, principalmente viva. Torres foi o personagem “pau pra toda obra” da temporada e mereceu destaque, inclusive contracenou de igual com Tim Roth. Emily, interpretada por Hayley McFarland também cresceu, não como Monica, mas pelo espaço concedido através do enfoque de roteiro na paternidade de Lightman. Os demais apenas prosseguiram com a qualidade anterior.

Esta temporada soou tão sem qualidade quanto a 6ª e 7ª temporadas de Supernatural, pela showrunner sem talento Sera Gamble, o que foi uma tremenda injustiça, pois narrativas policiais possuem um público fiel, assíduo, grande e neste caso ainda com um agravante: uma proposta de fundo científica com a consultoria especializada do próprio cientista, o Paul Ekman, que não poderia ser tratada de qualquer maneira.

Estou entrando agora na 3ª temporada, mas uma nota 6 para esta temporada é mais que justa, é generosa: se você é estudante de programação neurolinguística, continua uma série válida, mas se procura um entretenimento de alta qualidade, não é a melhor opção.

Crítica – Lie To Me (Engana-me Se Puder) – Segunda temporada

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