Devorei o seriado num curto prazo de tempo, como fogo que consome pólvora e ainda com o sabor do desgosto no paladar, me ponho a redigir esta dolorosa crítica.

O episódio piloto nos trouxe um personagem digno numa aventura científico-policial cuja temática era a promoção de uma ciência moderna, a obra do brilhante Paul Ekman.

A seguir, a primeira temporada foi uma empolgante queda livre de qualidade, a qual já enunciou que se perderia em marxismo cultural, mas conseguiu manter acesa a chama da esperança nos corações dos fãs de que aquela nova abordagem policial seria um instrumento fantástico num mundo abarrotado de crimes sem solução.

A segunda temporada foi a continuação do desperdício de potencial artístico da anterior. Cumpriu o amargo enunciado e perdeu-se de vez. Num universo de inúmeros crimes que assolam uma população mundial, tendo em comum sempre a mentira como fator primeiro da impunidade, a cegueira tomou conta dos fanáticos roteiristas pró Marx, que cambalearam para o abismo do coletivismo. Compartimentaram a sociedade em grupos de minorias e tudo tornou-se racismo, sexismo e imigração. Desgosto foi o adjetivo mais honesto que encontrei para qualificar o confronto de potencial versus realização.

Assim, tonto de habilidades excepcionais que não puderam ser exploradas, descendo ladeira abaixo rumo ao limbo, os roteiristas conduziram nosso herói para a doença mental contemporânea: o vazio criativo. Não há o que explorar quando se trata de dor no coletivo, pois o coletivo não sente: quem sente é o indivíduo e este sim, busca por justiça na ordem constituída e suas autoridades representantes.

Arrogante, narcisista, carismático e paternal, Dr. Cal Lightman deixou uma legião de fãs querendo mais. Não do excêntrico irresponsável da segunda temporada, ou do frágil infantil da terceira, mas daquele que conhecemos na primeira, do herói no melhor molde campbelliano. Daquele pacato insuspeito que afrontado por um desafio não o rejeita, mas segue rumo à uma crise que mudará sua alma, que recebe ajuda divina e se reorienta, para em seguida derrotar o mal numa catarse extraordinária e voltar ao início como novo homem, dignificado pela experiência: Por Aquiles! O que fizeram ao doutor?!

Um detetive tão competente quanto Bruce Wayne, com a acuidade de raciocínio de um Tony Stark, num frágil corpo humano, um Davi contra toda espécie de Golias dos tempos modernos, de ternos ou suéteres, armados com pólvora, músculos, inteligência ou dinheiro. O vimos sair vencedor e queríamos mais. Ainda queremos, mas não pela trupe vermelha cujas canetas são martelos e foices, e cujos resultados são o não falar ao coração.

O herói do Partido Democrata é um coitado combatendo espantalhos, um desprezível: miserável, cego e nu. Cuspido dos olhos da audiência que se afasta enojada.

A Fox deu uma mancada imperdoável aqui, tornou-se pior que a CBS.

Para começar, o roteiro: não há arco narrativo. Houve uma sombra de arco na primeira temporada, mas não a crise esperada (e desejada). O segundo apenas uma sucessão de eventos desconexos: um roteiro digno de sub-ginasianos. O terceiro, que confesso ter assistido com a esperança de uma reviravolta, pois possibilidades ainda haviam e muitas, começou bem, prometia e prometia muito: a pressão sobre o doutor para soltar uma nova obra, um livro, ao mesmo tempo em que se encontrou o protagonista num bloqueio criativo. Tenho minhas dúvidas quanto a bloqueios criativos quando se trata de obras científicas, pois tais obras são previamente formatadas, bastando preencher as lacunas mesmo que fora de sequência e o resultado cedo ou tarde aparecerá. Ainda assim era válido, retomei o fôlego: “Agora vai!“.

Vã esperança. A incompetência e má vontade do roteiro superou a possibilidade e jogou no lixo a chance.

Senti isso pelo meio, quando a responsabilidade do personagem que se somava à necessidade de recuperar seu negócio que das pernas bem não andava, fora ainda substituída por uma sequência de favores aos amigos e conhecidos, que mais fez a Lightman Group parecer uma ONG do que uma empresa de capital aberto, com direitos e deveres. Para começar mataram a lógica. Morta a relação de causa e efeito, natimorto o resultado.

Eu teria demitido o showrunner imediatamente ao ler o roteiro. Sim, foi mancada dura de Samuel Baum.

A fotografia variou na primeira e segunda temporada, na terceira manteve-se como memórias igual a segunda. A edição, por depender da fotografia, também seguiu a linha. A música também não sofreu qualquer alteração.

Do elenco todos sentiram a falta de Mekhi Phifer como Ben Reynolds, o agente do FBI, os músculos a serviço de Cal. Retirar Phifer foi um desmembramento cruel da equipe, ele fez muita falta. Sua substituta, a desonesta policial, apenas serviu para enterrar a reputação do cientista. A saída do ator foi o primeiro golpe duro no show.

Emily Lightman, interpretada por Hayley McFarland, cresceu e mostrou para que veio, mas dentro de suas curtas participações. Ria Torres de Monica Raymund, poderia ser menos latina e mais detetive, acendeu na segunda temporada e apagou completamente na terceira. Eli Loker de Brendan Hines aguardava a redenção do erro cometido na primeira temporada, merecia, mas não houve, foi esta outra grande mancada de roteiro que matou um bom trabalho de atuação. Gillian Foster de Kelli Williams foi provavelmente o caso mais grave: o romance que todos esperavam e jamais aconteceu. Apenas judiaram do personagem piorando a imagem do doutor: some-se “cafajeste“, no mau sentido aos seus atributos.

O que Baum tinham em mente? Coliformes fecais?!

A série tinha tudo, tudo, tudo, tudo, para dar certo e foi desperdiçada.

Para a terceira temporada fica aqui minha nota 5, generosa e por respeito apenas às equipes técnica e artística que não tiveram culpa pelos erros de roteiro horríveis. Querem odiar o culpado? Odeiem o marxismo cultural (que já abordei o ano passado).

Prossigo azedo e em breve mergulho em outra série.

Crítica – Lie To Me (Engana-me Se Puder) – Terceira temporada

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