Resenhei há poucos dias “As Mentiras que as Mulheres Contam” do Verissimo e admito que a leitura me deixou bastante empolgado: humor inteligente, leitura extremamente fácil, enfim um excelente entretenimento para inclusive aumentar a velocidade de leitura, dadas minhas metas de no mínimo 50 páginas por dia. Resolvi então seguir a linha deste autor e avançar para “As Mentiras que os Homens Contam“.

as mentiras que os homens contam - luis fernando verissimoAo longo de inegavelmente divertidas 166 páginas, novamente o autor de Porto Alegre nos surpreende com personagens, situações e cenários que provavelmente já conhecemos, mas geralmente não nos damos conta. É de fato delicioso lê-lo só para dizer a cada 2 estórias: “É assim mesmo!” e soltar uma gargalhada incompreensível àqueles ao seu redor que te olharão com estranheza, mas quer saber? São eles que estão perdendo.

Desta vez, apesar do excelente humor encontrei também em alguns (raros) textos um criticismo ressentido em tons de confissão. É quase um auto-flagelo agostiniano. Tais textos revelam talvez momentos dolorosos de auto-reflexão do autor em busca de si mesmo, com destaque para “O Verdadeiro Você“, que separa apenas o lado mais inseguro dos homens na fase da adolescência para em seguida afirmar que aquele é você de fato, ignorando todos os demais aspectos do próprio homem, sua dimensão histórica, o processo dialético dos conflitos entre a educação do lar e a de fora, que culmina geralmente no início da fase adulta com a formação da personalidade. Tais textos são depressivos e em parte agressivos, acusadores, mesquinhos, mas maravilhosos para remexer no fundo e fazer-nos consultar: “Serei eu de fato isto?“. É evidente que Verissimo fala de si, pois não é outro; e todo escritor tem o dever de saber a diferença entre o intervalo subjetivo que delineia e o espaço objetivo no que cientificamente consiste a sociedade. É portanto revelador de uma personalidade por vezes extremamente depressiva e novamente, ressentida. É a lágrima do palhaço que gera do seu moedouro cordial o nosso riso. Não fosse ele um bom examinador, ainda que confuso por inúmeras vezes, também não haveriam descrições tão precisas, surpreendentes e sobretudo engraçadas.

O humorista é um sofredor e sobre isto não há dúvidas.

Verissimo não é um moralista (muito longe disto), é pelo contrário muito leve, mas ao mesmo tempo um observador crítico (não no sentido coloquial de hostilizar as observações, mas em stricto senso de estabelecer o valor dos dados apresentados no convívio social de seus elementos mais comuns).

Há pouco ou nada de teor filosófico-político, uma esquerdada aqui, uma conservada ali, mas pregação política não há.

Tomei o cuidado de separar a última sentença do último texto pois merece citação. Acredito que em síntese, é o que resume toda coletânea.

“O homem maduro é o que desiste da virtude impossível para não perder a possível.”
Luis Fernando Verissimo – As Mentiras que os Homens Contam

Eu recomendo sim e uma nota 8,0 é justa.

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