Já pensei em colocar uma plaqueta na porta do banheiro com o título: “Espaço Cultural Ricardo Roveran“.

Em seguida haveria uma mesinha com uma atendente que faria todo trabalho com as fichas dos clientes, controlaria o acesso e sempre avisaria: “não emprestamos livros, os que estão aí é para serem lidos durante o parto no trono…” e a seguir daria um aguado sorriso simpático.

Cada visitante teria em média 10 minutos de privacidade sensorial absoluta, ninguém poderia bater na porta, chamá-lo com gritos do lado de fora, passar carros na rua com alto faltantes (e “alto“, ao invés de “auto” por que geralmente são bem altos mesmo), telefonar, enviar e-mail, whatsapp e demais. Seria quase um banheiro budista exotérico, só que sem aquelas músicas feitas para te mostrar que o eterno é também estático e sem aquelas cores em figuras abstratas que ninguém nunca sabe o que é. Eis aí o momento de paz.

O vaso sanitário não faria o conhecido “tchaaaa-brlum-lumbrlr…“, mas cantaria um refrão gregoriano com fade-out, por uns 10 segundos no máximo.

Na saída haveria uma chamada oral: “O que você leu? Qual parte e o que entendeu?” Se a resposta não fosse satisfatória, o ser humano ali não poderia voltar mais. É isso aí, uma chance e nada mais, sem choro e sem piedade.

Quem respondesse bem por outro lado poderia frequentar o Espaço Cultural por até 2 vezes por dia. Falhas não seriam toleradas, afinal, poderia estar ocupando alguém que buscasse um espaço sério para ter tranquilidade enquanto compõe mentalmente algo importante para si.

Quem lesse 100 romances num ano dessa forma, poderia inclusive frequentar o chuveiro, que conteria um tablet a prova d’água embutido na parede, para o sujeito ler enquanto se banha. As regras no entanto seriam mais brandas.

Para finalizar, haveria um cômodo secreto que apenas os que atingissem os mais altos postos culturais poderiam conhecer e sobre o qual jamais poderiam falar sob pena de serem expulsos e perderem todos os direitos de uma só vez: uma banheira, com hidromassagem, um cinzeiro e uma caixa de charutos ao lado. Ali seria possível passar até uma hora e só funcionaria no período noturno, a regra no entanto é que o sujeito teria que ler (ou até reler) um livro inteiro, mas que fosse um clássico da literatura nacional ou estrangeira.

Eu imagino que tal empresa produziria senadores, ministros, catedráticos e até presidentes.

Imagino as vezes um diálogo nos salões do Congresso:

– Vou tirar uns minutos para dar um pulo no Espaço Cultural da Câmara.
– Olha, tem um lugar melhor, mas eu não posso falar muito a respeito, nem te recebem se você não for previamente apresentado, sabe?
– Onde é?
– Um dia eu vou levar você…

Se algum dia alguém fosse expulso, provavelmente teria um efeito mental de contrariedade Pavlov: nunca mais sentiria o mesmo prazer numa evacuação em outro lugar.

– Eu não atendi os requisitos, perdi meus direitos… dê valor ao seu, se você soubesse como aquele lugar me faz falta!

O ponto alto seria o funeral de um dos membros.

– O excelentíssimo chegou a frequentar os altos círculos lá, ia a noite sempre como meritíssimo.
– Uma tremenda perda para este país.

E quando atingisse territórios internacionais?

– Será possível fazer uma réplica em Dubai?
– Não, aquilo é único. O próprio Ricardo fundou e frequentou, sabe? Não seria nunca a mesma coisa…

Dissidentes tentariam replicar sem sucesso, fariam campanhas de marketing, ganhariam algum dinheiro, mas faliriam em seguida.

– Abriu um Espaço Cultural estranho na Avenida Paulista, o sujeito vai só para usar o banheiro e tem que ler! Que absurdo!
– Eu fui só uma vez e nunca mais voltei, sei lá, detesto ler e tem uns nerds que ficam jogando xadrez perto da entrada, não entram porque não tem dinheiro. Lugar estranho… Não gostei também.

E ao fim de um século, o lugar ganharia o status de sociedade secreta, com direito a documentários no History Channel e vídeos no Youtube sobre as possíveis conspirações:

– O Brasil teve 5 presidentes que frequentavam aquele espaço! Não pode ser coincidência! Olhem os apertos de mão! Os planos de dominação mundial estavam todos num túnel subterrâneo que conduzia à Pindamonhangaba e havia um trem também! Rituais eram realizados com sacrifício de cabras!

Eu já imagino o sujeito berrando ao lado dos terraplanistas.

Uma coisa é certa, estudar requer tranquilidade e move o homem para frente.

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