O jovem repórter do Central Notícias de Porto Alegre estava animado, fora a sua primeira matéria política sobre um tema polêmico, certamente lhe renderia notoriedade e um crédito histórico, era esta sua chance de despontar no meio, um salto do desconhecido para o estrelato.

Juan fora destacado para entrevistar um líder LGBT, que embora desconhecido de todos, sabia muito sobre o assunto e a pauta estava em voga.

Ele elaborou as questões sobre as minorias e a opressão da direita, chamou Raquel, a estagiária e formalizou:

– Raquel, passe por favor o endereço completo do estúdio para o líder da minoria e confirme com ele para amanhã, logo pela manhã.

Raquel não pensou duas vezes, ligou para o rapper muçulmano Ahmed Aiatolá, que contente com a atenção da emissora topou, mas revelou estar com muita pressa, pois teria que viajar de volta para o Líbano as pressas.

A entrevista teria que ser rápida. Ahmed chegaria no estúdio, seria rapidamente produzido, se sentaria na cadeira a frente de Juan, responderia as perguntas e partiria imediatamente para o aeroporto, e, apesar da pressa toda, Ahmed estava muito feliz mesmo com tudo pois, ao chegar em sua terra, sintonizaria a TV via satélite e mostraria para seus companheiros o fantástico trabalho que estava realizando ao divulgar o Islã no Brasil.

A segunda-feira iniciou turbilhonante, até o sol nasceu mais brilhante, Juan se preparara gravando sozinho o início da entrevista e apresentando o convidado no estúdio, para depois a edição encaixar o trecho e publica-lo na emissora, logo após a novela do horário nobre, o Brasil inteiro assistiria.

Ahmed chegou ao estúdio com seu turbante branco e rosto fechado. Juan pensou: “É a preferência sexual somada à postura de um líder que enfrenta a opressão, perfeito! PERFEITO!” e animou-se mais.

Já sentado, Ahmed e Juan tinham uma sinergia incrível, realmente gostavam um do outro e pareciam até velhos amigos. Inclusive concedeu fotos ao jornalista, sorrindo desta vez, abraçados, que rolou nas redes sociais dias depois da entrevista e inciaram-se as perguntas:

– Como você enfrenta as diferenças numa sociedade tão preconceituosa?
– É difícil, com tudo que vem acontecendo no mundo, que acreditem em nós, mas nós vamos mostrar a todos que não somos apenas diferentes, mas que fazemos parte da sociedade e que amamos todos os homens.
– O amor é o lema de vocês?
– Sim! Nós pregamos o amor, diferente do que possam pensar que não respeitamos as outras pessoas, o amor é o nosso lema! Queremos atrair o máximo dos homens deste país.
– O preconceito é muito grande? Quer dizer, quando vocês são fotografados juntos, como as pessoas reagem?
– Nós suportamos tudo por amor! Fazemos diversas campanhas, o mundo há de nos entender no final!
– E com relação a luta no meio político, acredita que desfrutarão melhores resultados em quanto tempo?
– Tem gente contra, tem gente a favor, mas nossa comunidade é forte e está crescendo, em breve seremos muitos mais!
– Foi um prazer recebê-lo no nosso estúdio! Mônica é com você! (passou a bola para a outra jornalista).

Ahmed agradeceu tudo e saiu correndo para o aeroporto.

Mônica, a outra jornalista entrevistava rapazes e moças da causa LGBT que defendiam o casamento homossexual.

Ao fim do exaustivo dia, a edição do programa pegou tudo e ajuntou, mas decidiu deixar o melhor para o final, com justiça a entrevista de Ahmed seria a última a ser exibida, após as entrevistas dos militantes e o pessoal da publicidade caprichou na introdução com o título “Noite especial LGBT“.

As 21h30 horas o canal Central Notícias de Porto Alegre anunciava no editorial: “Na noite de hoje entrevistamos os defensores da união homoafetiva e o novo líder seguido por milhares da causa“.

No dia seguinte, em seu país, Ahmed chamou contente os libaneses, suas esposas e filhos, e lhes disse: “Vocês hoje verão todo meu esforço na divulgação do Islã no Brasil, como estou ficando conhecido, influenciando pessoas e mostrando quem vocês realmente são!” e todos se animaram, sentaram-se em volta da TV, sintonizaram o canal e buscaram a programação que se iniciou:

– Noite especial LGBT, entrevista com o líder do movimento!

A foto de Ahmed de fundo.

No dia seguinte a comunidade LGBT decidiu visitar as mesquitas propondo união de forças.

O corpo de Ahmed nunca foi encontrado.

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