Há algum tempo comecei a estudar o fenômeno dos zumbis das manifestações literárias até as cinematográficas. Uma das raízes, detectei numa adaptação dos vampiros feita pelo escritor norte americano Richard Matheson, no livro de ficção “I Am Legend” (Eu Sou a Lenda – 1954), do qual foram produzidas 4 adaptações para o cinema: “The Last Man on Earth” (Mortos que Matam – 1964) que abordei na crítica anterior, a segunda em “The Omega Man” (A Última Esperança da Terra – 1971), “I Am Legend” (Eu sou a Lenda – 2007, com Will Smith) e “I Am Omega” (A Batalha dos Mortos – 2007), que é matéria desta crítica.

A parte boa das adaptações é a variedade de abordagens que os produtores e roteiristas dão para as novas versões da mesma obra.

Este é um caso bastante específico de fracasso, mas com um elemento curiosamente bem feito que só vi bem explorado num personagem de The Walking Dead, o Morgan Jones: a confusão mental de ser o último homem vivo, o único sobrevivente consciente numa terra vegetativa, a última inteligência, a sós no mundo e sem par. Admirei o personagem de TWD quando o vi na 5ª temporada com toda aquela carga emocional e a beira da loucura. Se no seriado de sucesso mundial notável este personagem foi apenas um coadjuvante, no filme este foi o principal atributo do personagem protagonista: Renchard e Morgan são no final das contas o mesmo personagem.

Não é novidade, Robert Kirkman sempre fez questão de homenagear obras cinematográficas e acho perfeitamente válido.

Mark Dacascos vive a pele de Renchard, um ex-combatente das forças armadas, versado em artes marciais, manuseio de armas e preparação de explosivos que sobrevive a uma epidemia viral que transformou o mundo em um território zumbi. Renchard se vê sozinho com suas memórias em uma luta até então sem motivos pela sobrevivência e decide que explodirá a cidade, ele passa a plantar explosivos com prazo determinado para ativação em diversos pontos da cidade. Com sua mente aturdida pela solidão e situação em que se encontra, numa tensão permanente entre a sobrevivência e a falta de motivos para viver, ele recebe um chamado de uma pedido de socorro de uma sobrevivente. Em seguida uma dupla de mercenários o localiza e o força a entrar numa missão para salvar a garota, que contém o segredo para o fim da epidemia.

A Batalha dos Mortos é um filme comercial e mal feito que conta com inúmeras confusões de roteiro inaceitáveis, como contradições irritantes: os explosivos possuem um timer visível e de fácil leitura, os mercenários que os encontram sabem das bombas, mas não sabem quando explodirão (imbecilidade), o funcionamento da internet num mundo com um único sobrevivente é outra estupidez digna de desprezo, a abordagem biológica do vírus que contamina pelo contato com o sangue ficou muito mal explicada. A impressão que o roteiro transmitiu no todo, no final das contas foi a de um Karatê Kid sobrevivendo num apocalipse zumbi. O roteiro deixa faltar informações e pressupõe um conhecimento prévio do expectador acerca do tema, além de ser moroso e nos fazer desejar que comerciais surjam para aliviar o tédio.

A fotografia é uma paleta angustiante com tons noturnos e predominância crepuscular, que apesar dos péssimos movimentos de câmera que não foram bons nem tecnicamente, abandonando a qualidade narrativa essencial, conseguiu apesar de tudo transmitir o estado mental do protagonista.

A música é um pop rock que apenas serve para dar uma noção de seu estado anterior, sua formação de ânimo e estado de espírito através de sua cultura, tratava-se de um sujeito descolado, um serviçal do exército, uma espécie de Van Damme perdido no armagedon. Os efeitos sonoros por outro lado conseguem assustar quando necessário com mudanças bruscas que contrastam a beira do abismo mental de Renchard com os ataques zumbis súbitos.

A edição não merece muita atenção, um trabalho meramente técnico de cortes e encaixes audiovisuais que deveria ser muito melhor.

O elenco é experimental, na verdade Mark Dacascos é um excelente artista marcial e em certos pontos do filme atuou relativamente bem, mas não foi em tempo integral. Jennifer Lee Wiggins como Brianna é razoável, os demais coadjuvantes no entanto são bons em suas poucas aparições com destaque para o Vincent de Geoff Meed, que foi também roteirista.

I Am Omega na verdade é neto da obra de Richard Matheson, não se trata de uma adaptação direta do livro I Am Legend, mas do segundo filme, The Omega Man de 1971. A adaptação ao livro é muito remota, mas o aspecto mental do personagem foi retratado sim com excelência por toda equipe técnica e artística: fotografia, música e elenco trabalharam muito bem nisto e acredito que esta obra carrega um valor estético quando visto pelo ângulo da psicologia do personagem, a falta de informações e o caráter raso do roteiro deram voz à sensibilidade ignorando os dados mais racionais e argumentativos, é uma obra para ser sentida mais que entendida. Isto no entanto só fica claro quando visto no conjunto da coletânea prole da obra literária.

Entre as observações de roteiro uma que se destaca é a visão de um dos coadjuvantes que cita o darwinismo num momento auge de seu delírio. Tal visão também é importante no contexto pois, delineia um outro tipo de devaneio possível pelo viés do orgulho e da vaidade. Vincent, o personagem que a pronuncia, encarna o abandono da moral judaico-cristã migrando para um niilismo cientificista que culmina numa tendência homicida: ele precisa que o mundo seja uma porcaria para justificar sua existência, seu companheiro que surpreendentemente transforma-se num pilar de sua vaidade, para o qual vive provando que é o grande exemplo a ser seguido, demonstra o quão fraco e carente é o indivíduo darwinista pois, “ser o mais forte” quando torna-se objetivo social requer atenção, muita atenção e sem esta atenção o resultado é apenas uma angústia. Vincent é o infantil narcisista, com o ego inchado acreditando que seu inchaço doentio é grandeza humana.

A produção foi de baixo orçamento, o que até certo ponto justifica a baixa qualidade.

A direção de Griff Furst tratou-se de orquestrar uma equipe de baixo nível, mas entregou um trabalho bom quando analisado do ponto de vista da psicologia do personagem, ou seja, uma articulação diversa da obra original.

Para quem estiver disposto a estudar o tema das adaptações cinematográficas para ver uma obra sobre outro eixo de percepção, é sim um filme recomendado, para mero entretenimento no entanto não.

Uma nota 6,5 é generosa e pela qualidade do desenho psicológico dos personagens.

I Am Omega ( Batalha dos Mortos )

Ficha técnica – I Am Omega ( Batalha dos Mortos )

Filme I Am Omega ( Batalha dos Mortos )
Ano 2007
Duração 90 minutos
Produção David Michael Latt, Justin Jones, David Rimawi
Direção Griff Furst
Roteiro Richard Matheson, Geoff Meed
Fotografia Alexander Yellen
Música David Raiklen
Edição Griff Furst, Danny Maldonado
Elenco Mark Dacascos, Geoff Meed, Jennifer Lee Wiggins, Ryan Lloyd, Joshua Schlegel, Daniel Ponsky, Gregory Paul Smith, Matthew Bolton, Myles McLane, Frank Forbes
Orçamento / Receita Não informado
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