Debrucei-me sobre “I Am Legend” (Eu Sou a Lenda – 1954), obra de Richard Matheson a fim de analisá-la desde sua origem até os últimos desdobramentos, considerando todas as interpretações, sobretudo no meio cinematográfico, com a declarada intenção de estudar a febre zumbi mundial desde suas origens mais remotas. Matheson é um dos pais desta criatura que ganhou o imaginário popular desde suas tímidas aparições na literatura e cinema preto e branco de mais de meio século até a explosão presente que integra à história da arte recente como indiscutível fenômeno que abarca desde a alta cultura, dos escritos eruditos de Mary Shelley e Bram Stoker, até o show business com suas superficiais aventuras bilionárias, cujo conteúdo mira explorar o universo sensorial do expectador, abandonando a crítica, a análise, a historiografia e a teoria, enquanto aspectos necessários do estudo da arte e intenções primeiras que constituem grandes obras, em outras palavras, do arcabouço filosófico à desprezível arte comercial, os mortos vivos estão por toda parte. E é natural que diante de um fenômeno de geografia mundial nos questionemos: como isso começou? Como se desenvolveu? Como chegamos a este ponto? O zumbi, já faz parte da história da arte, gostem ou não. Critiquei há pouco tempo a primeira adaptação do livro para o cinema, “The Last Man on Earth” (Mortos que Matam – 1964) e em seguida “I Am Omega” (A Batalha dos Mortos – 2007), que é uma versão, uma adaptação de “The Omega Man” (A Última Esperança da Terra – 1971), obra que é matéria desta crítica. Há ainda outra “I Am Legend” (Eu sou a Lenda – 2007), com o Will Smith, que fica para um futuro.

The HΩmega Man foi, como já disse em outros textos, a segunda adaptação do livro “I Am Legend” (Eu Sou a Lenda – 1954) para o cinema, mas diferente do anterior tem uma pegada mais comercial.

Adaptações de roteiro são importantes pois, exploram sempre, querendo ou não, pontos de vista e aspectos diversos de personagens e cenários, que adornam o desenrolar aumentando ou diminuindo a credibilidade da narrativa. Então, quanto mais adaptações forem feitas, mais qualidade se espera num futuro.

É claro que, Matheson não é o único pai dos zumbis, mas é um deles. Outro enraizamento é o trabalho de George Romero com “Night of the Living Dead” (A Noite dos Mortos Vivos – 1968), que até o presente não parece ter nem mesmo inspiração na literatura de Matheson e suas posteriores filmagens. Quanto à credibilidade da relação entre o trabalho de Romero e o de Matheson pouco sei e na verdade pouco importa, a única coisa que se extrairia deste dado seria um juízo de valor sobre o caráter de alguém que não teria qualquer impacto e que além disto, foge ao escopo deste trabalho. Por que diabos, mais que um homem não poderia ter a mesma ideia ao mesmo tempo? Não faz diferença.

Os “zumbis” desta obra são muito mais complexos do que os apresentados em obras anteriores por um motivo: não são exatamente variações de vampiros ou mortos-vivos comuns, mas doentes no sentido científico mesmo, estão conscientes e lúcidos, são capazes fisicamente, mas desenvolvem uma analogia de lepra que culmina num estranho efeito de domínio mental em culto ao líder: Matthias. Este por sua vez está à frente do coletivo totalitário proto-comunista que intitula-se “a Família“, uma organização militante-ativista pela causa sócio-política da nova sociedade, trata-se no final das contas de um grupo inegavelmente revolucionário.

Tais criaturas aqui representam um primado do coletivo sobre o indivíduo. São indivíduos liderados por um pensamento que formam uma massa, semelhante às militâncias de partidos. São também uma massa anti-tecnologia, no melhor estilo Pol Pot do Khmer Vermelho, o que é curioso também pois 1971 precede o genocídio cambojano em exatos 4 anos: 1975, o ano em que se passa a trama.

O ambiente gerado é uma espécie de inquisição comunista que considera a revolução industrial e a ciência o passado, e a ausência destes elementos, que configura um retorno ao medievalismo, o futuro. Me lembrou o evento histórico do comunismo no Camboja mesmo.

O culto ao líder não me pareceu mera casualidade: o fenômeno epidêmico descrito iniciara-se de uma guerra biológica entre China e Rússia, com direito aos símbolos comunistas agora presentes sem qualquer timidez. Alguém poderá argumentar que o evento Pol Pot aconteceria poucos anos mais tarde, o que é verdade, mas que este era um adepto do maoísmo e esta é a chave de entendimento: um dos aspectos da linhagem do comunismo maoísta é o campesinato em oposição à indústria. Deste ponto, pode ser coincidência (o que eu duvido), mas o elemento está presente explicitamente na película.

Há além da inapelável referência crítica do comunismo, também outros totalitarismos, como citações de alusão ao fascismo “Fora da Família não há nada“, conforme a visão de Mussolini (Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado) que neste ponto não é nem um pouco diferente do pensamento comunista.

Logo no início, o calendário indicando 1975 demonstra, para um filme lançado em 1971, um intervalo de 4 anos, semelhante ao intervalo de 3 anos no filme anterior, The Last Man on Earth (1964). Tal ideia é reforçada ao passar em frente ao cinema no qual o mesmo filme está “em cartaz” há 3 anos. Detalhes com datas, sutis, mas que ajudam muito nas avaliações do ambiente cultural e sócio político.

O protagonista, Robert Neville, vivido por Charlton Heston é um cientista que desenvolveu uma vacina para a epidemia em meio a guerra e em um acidente de helicóptero aplicou-a em si mesmo, tornando-se imune à doença. Neville vive seus dias numa solidão que o aturde mentalmente, caçado a noite pela organização “a Família” e perambulando durante os dias pelas ruas da cidade deserta.

Diferente da adaptação deste roteiro, feita em 2007, chamada “I Am Omega“, que retrata exclusivamente o estado de confusão mental do protagonista, esta versão anterior foca-se mais na psique dos vilões, os zumbis, enquanto formação do cenário no qual Neville é um mero elemento.

Os zumbis sentem profunda inveja de Neville que sente saudade da civilização; uma dialética temporal entre um mundo novo e terrível que surge contra um passado no qual a humanidade encaixava-se. É sem qualquer dúvida uma forte crítica às revoluções e um ceticismo a lá David Hume.

A personagem Lisa, vivida por Rosalind Cash, cita “ritual maçônico” ironicamente, referindo-se à organização “a Família“, aludindo com certo humor a maçonaria e os grupos iluministas de sociedades secretas.

Apesar do caráter comercial desta adaptação a questão central soa como: “extintos todos os homens, resta a pergunta: o que é a civilização?“, e em determinado momento, delineado o mal completamente, surge também um dilema ético e moral: se o correto é matá-los, ou curá-los. O desenvolvimento desta questão e sua resposta são também muito bem explorados.

O encontro de Neville e Lisa é um romance pontual do cinema, a identidade entre os dois personagens se dá quando ninguém espera e uma convincente paixão surge ali que no todo nos faz perceber, assim como em De Volta para o Futuro III, a beleza do amor em meio ao caos e ao sofrimento, o bálsamo, a energia que faz superar e torna pequena qualquer adversidade. Não há câncer que resista ao amor e pobre do armagedon que ouse enfrenta-lo.

Entre as pautas políticas há também um ponto para os conservadores quando o assunto dos anti-concepcionais está implícito: o desdém total. Tal momento se dá implicitamente pelo sentimento profundo de encontro que une o casal e sua necessidade de replicação, reprodução um do outro, conforme nos explica Sócrates em O Banquete. Este momento é isto, os anti-concepcionais servem aqui para interromper a melhor das intenções: frutificar o amor.

Nos momentos decisivos há uma simbologia expressa à quaisquer olhos: o sacrifício por uma nova geração condensado nas figuras: o quepe militar como luta patriótica pela manutenção social, as crianças e adolescentes significando a nova geração em si, e um indivíduo morto em forma de cruz que simboliza o sacrifício por algo maior. A simbologia neste filme é rica.

A fotografia é meramente narrativa, com paletas tão comuns que pouco se sabe além do noturno para a sorrateira Família e a claridade da poeira que se assenta para solidão total do herói, expressada por aberturas longas de câmera. A música é o jazz, que retrata a época e o estado de espírito jovial dos personagens. A edição, no máximo montagens sequenciais sem mérito além do técnico. O roteiro lento a maior parte do tempo, mas que não deixa faltar informação alguma. A direção é uma orquestra sem adornos artísticos ou ousadias, mas que consegue transmitir sua mensagem. Do elenco contam com força Charlton Heston com seu Robert Neville, Anthony Zerbe como o fanático líder Matthias, Rosalind Cash em sua sensível e agressiva Lisa e sobretudo a sinergia entre Heston e Rosalind que falou por si só, e que inclusive rendeu à Rosalind a indicação ao prêmio Image Award como melhor atriz.

A produção contou com um investimento de US$ 4.000.000 que retornou US$ 8.720.000, que não se converteu em premiações, mas que significou um ponto notável na história do cinema.

O ponto forte é para os raros estudantes de fenômenos cinematográficos como o dos zumbis que podem neste filme ver a forte relação entre a política em seus aspectos de cada linhagem ideológica e a manifestação artística expressa em personagens que no final das contas não são tão abstratos assim, como sugerem The Walking Dead e Z Nation. Aqui fica claro: os zumbis são resultados e expressões de ideologias totalitárias, com amplo destaque, manifesto e confesso, para o comunismo. Para estes estudantes segue sim minha recomendação, já para entretenimento é hoje um filme muito fraco, a não ser é claro que você seja um saudosista dos anos 70.

Uma nota 8,0 pelo profundo caráter histórico e simbologia filosófico-política é justa.

The Omega Man ( A Última Esperança da Terra )

Ficha técnica – The Omega Man ( A Última Esperança da Terra )

Filme The Omega Man ( A Última Esperança da Terra )
Ano 1971
Duração 98 minutos
Produção Walter Seltzer
Direção Boris Sagal
Roteiro John William Corrington, Joyce Hooper Corrington

Baseado no livro “I Am Legend” (Eu Sou a Lenda – 1954) de Richard Matheson

Fotografia Russell Metty
Música Ron Grainer
Edição William H. Ziegler
Elenco Charlton Heston, Anthony Zerbe, Rosalind Cash, Paul Koslo, Eric Laneuville, Lincoln Kilpatrick
Orçamento / Receita US$ 4.000.000 / US$ 8.720.000
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