Em tempos de batalha política virtual, dentro de suas bolhas ideológicas Camilo e Rubens conheceram-se virtualmente. Camilo um conservador e Rubens liberal. Juntos combateram comunistas por meses, argumentando economicamente, o quanto a economia de mercado era superior comparada a estatização dos meios de produção. Camilo sempre apresentava fundamentos sociais mesmo da economia, Rubens dados estatísticos contemporâneos, relatórios anuais de índices de liberdade econômica e comparativos com o IDH.

Não tinha pra ninguém, a dupla era imbatível, comunas e anarquistas choravam e eram demolidos em fóruns de internet.

Após muito tempo de batalha campal dos teclados e monitores, um dia resolveram tomar aquela cerveja, no real.

Os inimigos estavam aniquilados, restava saber agora o que era melhor afinal, se a economia acima da cultura pelo viés liberal, ou a cultura acima da economia pelo conservador.

Camilo armou-se com o ceticismo de David Hume, do valor das tradições de Edmund Burke e das reflexões de Roger Scruton. Rubens levantou sua espada afiada com as lições de Ludwig von Mises, os raciocínios de Friedrich Hayek e o brilhantismo de Milton Friedman.

A princípio concordaram que eram amigos e que estavam do mesmo lado, que se respeitariam mutuamente e que tolerariam suas divergências inclusive dada a dimensão histórica de suas recentes batalhas contra a esquerda ortodoxa que acreditava até em revolução armada e não hesitava em defender genocidas como heróis.

– Zeitgeist! – Berrou Hegel de fundo. Horas a fio que se transformaram em dias. Dias que se transformaram em semanas. Semanas que enfraqueceram os laços. Ex-laços que liberaram ácido corrosivo àquela amizade. Ex-amizade que viu o desaparecimento do respeito. Ex-respeito que viu o calendário virar folhas de meses. Ex-amigos agora inimigos.

A batalha verbal não se resolvia e de não se resolver os fortalecia. Neuróticos tornaram-se ambos.

Eles precisavam vencer.

O corporativista Rubens viu uma chance de provar seu ponto catalogando todos os territórios nos quais o capitalismo venceu sem preservar a cultura e passou a cavar livros e sites, imprimir e estudar, minuciosamente.

O templário Camilo escavou os princípios civilizatórios do direito romano, da filosofia grega e da religião judaico-cristã.

O pleito não conhecia data para o fim.

A guerra dos mil dias havia tornado-se uma realidade mental.

O prazer neurológico de ouvir “você está certo, eu vou para o seu lado” não vinha, mas florescia a consequente raiva (dos mecanismos cerebrais, entende-se raiva por impedimento do prazer, um reflexo regado ao fim da dopamina).

Rubens voltou aos primórdios e entendeu que sem ajuda, a ex-batalha que se convertera em guerra seria mais eficiente acompanhado. Ávido pelo sangue mental de Camilo, buscou ajuda. Em sua jornada recrutando amigos formou um grupo heterogêneo composto por liberais clássicos, libertários, anarco-capitalistas, anarquistas e por quê não? Social democratas. Social democratas não eram aqueles barbudinhos emaconhados que se vestiam de mendigo por esporte, antes de voltarem aos seus apartamentos luxuosos. Não, não. Nada disso, eram sujeitos perfeitamente sociáveis, que também defendiam um capitalismo a sua maneira mas que nos costumes eram socialistas. E como para o guerreiro da economia a sociedade vinha depois, todos estes seres eram bem vindos. Estava o time formado.

Camilo por seu lado voltou à pilha aristotélica tentando ligar os pontos num trabalho hercúleo. Mas este apesar de bem intencionado, não era Hércules e não dispunha de tal tempo na mesma medida que seu ânimo evanescia.

Em meio ao calor da batalha, o efervescente grupo uniu mais e mais, e foi neste período que Rubens encontrou o amor nos olhos da bela Rute. Naturalmente sensual, sem apelos ou vulgaridades, Rute se destacava. Era dona de uma decência maliciosa que causava tensão no ar. Esguia e branca, com olhos verdes e cabelos castanhos, ela provocava sem indícios de que estava por fazê-lo e se alguém investisse além de suas permissões cairia sempre num desprezo atordoante. Uma personalidade dominadora e sagaz. A própria malicia de óculos gatinho, Chilli Beans que finalmente dera certo um dia, mas que só cabia nesta mulher.

Combate a combate, uma estranha admiração pela sua capacidade econômica surgira de Rute para Rubens que tão pouco acreditara no que acontecia ali. Envolveram-se, por dias trancaram-se no quarto em segredo em estudos dos quais nem mesmo uma única linha era lida de material algum.

Energizado, Rubens enjoara-se das formalidades do debate e finalmente vencera Camilo. Foi épico. Aquele mesmo boteco da cerveja inaugural, que sediara a batalha campal, era testemunha fiel da ridicularização final de Camilo o carola boçal.

Um magoado Camilo seguiu seu caminho cabisbaixo rua abaixo, ao som do riso e do gozo sobre a exaltação de seu nervoso.

E foram os dias.

E foram semanas.

E foram meses.

Quinze anos se passaram.

De tanto estudar economia as habilidades de Rubens nesta ciência desenvolveram-se muito. Formara-se um dos grandes nomes do país e fora capa de revistas, concedera entrevistas, jornais e programas de TV agora o queriam ver.

Camilo conheceu Natália, se casaram e tiveram filhos. Este apenas focara-se nos estudos e sem jamais deixar aquela mágoa sair de sua memória, tornara-se um professor catedrático.

Uma década e meia já havia se passado e um dia, no mesmo bar avistou Camilo seu feroz algoz, estranhamente cabisbaixo.

Com o passar dos anos aquele bar mudara de mãos e de um boteco juvenil frequentado pela massa estudantil, era agora um reservado pub, sofisticado e caro.

Entreolharam-se e ficaram sem jeito. Eram estranhamente ainda bons amigos e apesar de tudo ambos sabiam que sabiam, que inexplicavelmente aquela amizade residia ainda ali.

Rubens tomou a iniciativa e puxou a cadeira.

– Senta aí…

Camilo com reservas aceitou.

– Você se deu muito bem, parabéns.

Rubens deu um sorriso amarelo, mas daqueles que não se quer sorrir.

– É, eu fui em frente, minha carreira fluiu.

– Você e a Rute, quantos filhos tiveram?

– Não tivemos. Ela não quis.

Camilo achou melhor não falar sobre a intimidade de Rubens, haviam questões que ainda não estavam resolvidas.

Rubens levantou-se, despediu-se e sem dizer mais nada sumiu novamente.

Ao chegar em seu apartamento, esperara mais uma vez Rute chegar de não se sabe onde, com um ar de felicidade misterioso, dizer apenas um superficial “oi meu amor” e dirigir-se ao quarto. A idade não fizeram mal àquela mulher, que continuava bela. O mistério não era seu ar desinteressado por Rubens, nem a completa ausência de qualquer explicação por ir para onde ninguém sabe ou com quem e nem mesmo por seu desinteresse sexual pelo marido. O economista sabia perfeitamente o que estava acontecendo e sozinho com sua excelente reputação profissional, continuava a seguir, sorrindo para fotos, economicamente muito bem.

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