Estabeleci para mim mesmo uma meta de leitura mais ousada este ano, mas desconsiderei que geralmente leio materiais que dependem de leituras concomitantes, como história que requer consultas a outros autores para suprir aquelas perguntas “mas é isto mesmo?!“, ou filosofia que por sua vez exige um alto foco somado a uma meditação profunda sobre o tema e ciências de diversas naturezas que sempre despertam um natural exercício sobre o conjunto dos saberes aprendidos. A consequência foi a seguinte: para aumentar a capacidade de leitura, me vi na obrigação de apelar aos contistas e cronistas, que oferecem textos leves, de imediato entendimento e absorção, convertendo-se em puro entretenimento mesmo. A Mesa Voadora, do Luis Fernando Verissimo é exatamente isto um divertido compilado de textos de épocas diferentes sobre comportamento humano relacionado com a alimentação.

Nas duas obras anteriores que li, “As Mentiras que as Mulheres Contam” e “As Mentiras que os Homens Contam“, vi um Verissimo mais leve, mais contador de estórias e menos cronista. A diferença dos anteriores para este material é que a maioria dos textos é extremamente pessoal, Verissimo está falando de si em suas experiências, o que dota os textos de um ar menos humorístico e mais crítico, sem no entanto eliminar a graça. Dar risada mesmo eu dei poucas vezes, mas rever a importância da gastronomia e sua história na formação cultural, isto sim o autor me fez pensar e muito: o cerne é de caráter inspirador.

Um ponto alto e importante deste livro é uma espécie de esclarecimento tutorial para escritores acerca da necessidade do escritor ser hábil ao transcrever o mundo subjetivo das sensações, colocar para fora o que ele sentiu e como, para então explorar outros aspectos como o histórico, psicológico, biológico, geográfico, filosófico e demais, articulando sobre o eixo do empirismo sensorial: o escritor é, necessariamente, um empirista. Sem viver aquilo, nem que seja imaginariamente, sem sentir aquilo, ele não tem o que escrever, a mensagem que quer transmitir não é mensagem, não há substância no conteúdo e portanto não tem valor. Aqui, o autor de Porto Alegre é de extrema utilidade para os iniciantes e de valor revisionista para os experientes.

Politicamente falando há críticas moderadas e gozação com a esquerda, e críticas ferozes à direita, mais especificamente ao capitalismo e ao consumo desregrado.

Há também um certo descuido com o politicamente correto, o que é surpreendente para um autor com viés de esquerda: ele chama negros de pretos, critica duramente os imigrantes de diversas partes do mundo que tentam a vida na Inglaterra, escarnece nordestinos e em tempo integral transforma a falta de cultura gastronômica dos mais pobres em alvo de desprezo. Ele pode não estar errado pelo caráter mais cronista e menos contista, são experiências pessoais afinal de contas e tais juízos de valor são os parênteses de sua liberdade, sem a qual ele não seria escritor.

O que me incomoda nisto é a contradição militante: quando a esquerda se virará contra um de seus autores favoritos? Nunca. Fosse um autor de direita, estaria proibida a leitura, seria caçado, cassado, exposto em rede nacional e por fim teria sua carreira marcada por algum escândalo. Esta perseguição ostracista que por exemplo Adolfo Caminha, Aluísio de Azevedo, Nelson Rodrigues e Jorge Amado foram vítimas é altamente seletiva.

Ninguém me entenda como um “denunciante“, pelo contrário, o livro é bom e o que eu quero é que esta seletiva pegação no pé, como a proibição de Monteiro Lobato que chegou ao STF, simplesmente desapareça e não seja lembrada nem como memórias de mau gosto.

São 153 páginas de entretenimento da melhor qualidade e ganha sim minha recomendação. Uma nota 7,0 é justa.

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