Quando andava pelas margens de São Paulo em busca de atacadistas e indústrias dos ramos têxtil e automobilístico, me lembro de um dia ter entrado, no alto do fim da Zona Norte, numa pequena destilaria de conhaque caseira.

O dono fazia aquilo por esporte. Era vinho, mas não era vinho, era conhaque.

Ele separava as melhores safras e deixava por anos curtindo com frutas, folhas amargas, cascas de caules, mel com favos e até outras diversidades fantásticas que não me vêm à memória neste momento.

Primeiro, ao entrar, era aquele lugar simples e rústico, de madeira velha envernizada que impõe o respeito aos homens e afasta os garotos. Em seguida, o balcão que perdia importância ao visual das prateleiras, com garrafas transparentes, cada qual com sua mistura envelhecendo, ganhando cor sem pressa e o sabor – pera, precisei limpar os lábios aqui – que fazia qualquer licor sentir-se humilhado. Então o fundo ganhava vida com uma mesa de sinuca sem uso e uma de xadrez. A mesa de xadrez era um recado claro para qual tipo de clientela o lugar se destinava. De fundo alguns troféus e fotos grandes de pesca em alto mar.

Sem qualquer grande placa, sem anúncios, sem indicações no mainstream gastronômico. Eu não sabia se aquilo era uma miragem, uma alucinação, ou se havia descoberto o lar do néctar dos deuses.

– Há quanto tempo aquela garrafa está curtindo com o pêssego?
– 5 anos.
– Quero uma dose.
– Acompanha peixe?
– Peixe?
– Peixe. – esticou o cardápio.

A minha frente uma curta coleção de peixes a serem escolhidos pelo nome. Não pratos, peixes.

Um pouco resignado, pedi um pacu.

Em pouco tempo pude sentir o cheiro da gordura do pacu adentrando minhas narinas, perfumando o ar e me entorpecendo ao molho de alcaparra.

Eu não sabia se estava tomando conhaque curtido no pêssego, ou pêssego curtido no conhaque. Sabia que estava comendo pacu de verdade, com as amargas alcaparras, tomando aquela bebida única, cuja próxima dose levaria 5 anos para ser produzida e que só aquele senhor grisalho e magro sabia fazer.

Olhei para o velho gato do lado do balcão e considerei propor:

– Você vai no meu lugar para Pirituba. Assume meus negócios, pode ficar com meu quarto, minha cama, tudo é seu. Eu assumo seu lugar aqui.

Em seguida imaginei o vexame, do bicho ser internado com uma crise de riso.

Nunca mais encontrei aquele lugar.

Anúncios