Cerca de vinte anos atrás um detetive particular teria um escritório no terceiro andar de um prédio antigo no centro da cidade, daqueles em que o elevador rangia em metal enferrujado e com porta de correr. Geralmente seu escritório teria um armário de madeira escura, uma mesa grande, um pendurador para casaco, algum quadro grande e sem muito sentido na parede, jornais do dia sobre a mesa e no máximo um aparelho de telefone no canto.

Não era meu caso. Os tempos eram outros agora, tudo que eu tinha era um velho notebook, o trabalho chegava por e-mail e o pagamento caia direto na conta bancária.

O cliente não me olhava nos olhos, um ou outro me ligava no celular, mas era raro. Eu sentia falta do contato, pois ler o cliente em seus traços todos era o necessário para saber onde se estava pisando.

A parte humana do trabalho havia sido excluída e com ela a emoção. Eu havia me tornado um robô procurando informações sigilosas e vantagens estratégicas para quem eu não conhecia.

A ética não existia mais e a moral era apenas uma piada de mau gosto, de péssimo gosto.

Diferente do que se possa imaginar, eu ganhava para sustentar apenas minha decadência, uma moradia humilde, uma garrafa de whisky, café, um estoque de rosquinhas infinito e uma gaveta de analgésicos.

A única coisa que realmente me animava era ação, então eu era eu novamente, dos meus quase quarenta anos, voltava aos vinte não tão rápido e forte, mas muito experiente e impiedoso.

Descobrir quem estava traindo quem, ou por onde andavam os filhos mimados de algum pai ausente era comum, comum e entendiante, entendiante e caro. Tão divertido quanto o inferno, era ordem do dia.

Foi nesse marasmo de barba por fazer e ressaca, que um e-mail chamou minha atenção, uma americana que chegava ao Brasil me procurava indicada por um jornalista corajoso da cidade, ela precisava de proteção e sabia algo sobre uma jihad em curso bem debaixo do nariz de todo mundo.

Chamou minha atenção e eu desprezei. Não era problema meu. Sequer respondi seus e-mails e foi assim que meu celular tocou. Saulo, o jornalista maluco me ligou marcando um encontro em tom de preocupação.

Naquela noite a porta do bar se abriu e a loira elegante de silhueta sinuosa e voz aveludada entrou, eu e Saulo estávamos no balcão e meu ânimo só podia ser descrito por um adjetivo: azedo.

Saulo me olhava como se me visse quinze anos atrás, um destemido cheio de boa vontade, eu era no máximo o super-homem dopado de kriptonita, caindo pela claraboia e com vontade de ir embora; eu não queria causar boa impressão, queria no máximo pagar alguns favores do passado.

Saulo me pediu atenção especial àquela mulher, o que num esforço desumano fiz, a cada nova frase, tudo que eu queria era mandá-la para um hospício.

O caso era grave, mas não era problema meu.

Já havia mandado pedófilos, traficantes, bandidos, assassinos, toda espécie de vis para trás das grades e alguns pra cova, mas jihadistas no Brasil, era uma maluquice.

Após ouvir toda história com atenção e esforço desumano, Saulo fez seu último pedido: “Eu só confio em você, nos ajude“.

Este era um sujeito de uma coragem sem igual, uma disposição de fazer inveja a qualquer garoto recém saído da puberdade e tinha aquele coração de amigo, que sempre fazia falta.

Aquele dia acabou como todos os outros, voltei para minha espelunca, abri o notebook, aceitei alguns trabalhos, tomei um analgésico, sequei o whisky e embalei num sono pesado.

O sol acertou meu rosto, sarcástico e sádico, às seis da manhã. Tão bem humorado quanto uma vítima de assalto desci, comprei o jornal do dia e voltei. O leria apenas ao entardecer.

O jornal me fez voltar correndo para o notebook, Saulo estava morto, estrelando a primeira página.

[Continua]

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