Isto aconteceu quando eu tinha aproximadamente 17 anos de idade.

Eu era um rapaz muito tímido e desajeitado, inseguro que só, meio cabeludo, minha inspiração era o Jim Morrison, do The Doors, mas de Morrison eu tinha apenas a inspiração. Na verdade foi após assistir sua biografia que eu resolvi começar a escrever poemas naquela época. Era o cabelo do Jim e a mesma camisa de flanela, inspirada por Kurt Cobain, do Nirvana.

Estudava no colégio Ermano Marchetti, em Pirituba, na rua da minha casa.

Apesar de ser um perfeito adolescente em plena confusão mental, sabia de uma coisa: eu sabia que era inteligente e que nisto superava a maioria. Esta certeza estava gravada dentro de mim a ferro quente.

Esta foi a época também que eu descobri formas de pular os muros do colégio que ninguém mais conhecia. Um dia no intervalo fui à biblioteca e fiquei observando a quadra e a diretoria. Na diretoria havia uma sacada e da sacada um curto espaço de terreno baldio que terminava no muro da rua. Sugeri que se alguém subisse pela quadra nos muros de trás da biblioteca e pulasse no terreno, poderia entrar e sair quando quisesse. Um sujeito se arriscou, deu certo e em um mês aquele acesso virou febre entre a molecada toda.

O problema é que embora fosse tímido para alguns assuntos, eu era cara de pau demais para outros e enquanto todos pulavam os muros para sair do colégio, eu pulava para entrar, pois não havia um único dia que eu chegasse no horário. E ninguém pense que eu entrava ávido a assistir aulas, minha intenção era apenas ficar por ali no pátio mesmo com meus colegas. Nas aulas mesmo eu entrava apenas quando a gorda inspetora aparecia para o desespero geral, espaventando-nos como a moscas com uma toalha. E nós, voávamos é claro, antes de sermos abatidos.

Tinha vez por outra uma namoradinha, a moda do “ficar” estava começando ainda. Foi nesta época que conheci um sujeito chamado Aroldo. O sujeito era repetente profissional, já havia feito o segundo ano do ensino médio tantas vezes que se quisesse, poderia até dar aulas. Aroldo era um tipo grandão, alto pra burro, usava umas camisas coloridas, tinha cara de bobo com olhos saltados e sempre ficava nos corredores com um walkman dançando passinhos de salão sozinho. Um dia eu o sacaneei, tirei os fones de ouvido do aparelho sem ele perceber e mesmo assim, de olhos fechados ele permaneceu dançando no corredor, com o fio balançando de um lado para outro, como se houvesse música no aparelho. Foi gargalhada geral. Ninguém nunca soube que o autor fui eu, e foi melhor assim. Ser socado por uma montanha de músculos não estava em meus planos.

A parte mais engraçada é que o sujeito tinha duas namoradas e apresentou uma para outra, e, para surpresa de todos elas aceitaram numa boa e ficaram inclusive amigas. O caso se espalhou e pronto: nascia um mito.

Um belo dia, sozinho estava eu em minha jornada de pular para dentro do colégio e pensei: se este paspalho consegue isto, eu também consigo. Resolvi investir.

Tratei de arrumar uma namorada, em seguida tratei de arrumar outra e passei umas duas semanas jurando que amava as duas, cada uma em seu lugar, e quando menos se esperava, enchi o peito de coragem e apresentei-as com um belo discurso de que amava ambas de verdade. Qual foi minha surpresa quando de repente, ao invés do escândalo que esperava, as duas simplesmente aceitaram e até viraram amigas?! Pois é, eu havia conseguido, estava lá o prematuro bígamo a se aventurar pelos caminhos da malandragem amorosa.

O fato é que eu nunca neguei atenção à mulher alguma e sempre fui do tipo que passa horas no telefone me embrenhando profundamente na alma das donzelas. Durante o dia eu trabalhava como instrutor de informática e a noite ia para o colégio.

Eu juro que não me lembro o nome de nenhuma das duas, mas me lembro que uma me ligava pela tarde, ocupava longamente meu tempo, propunha seus assuntos e lá ia o mergulhador de espíritos desfazer algum emaranhado de conflitos de alguém, comprar alguma causa impossível, salvar alguma moça de algum perigo inexistente, e outras coisas cansativas adolescentes do gênero. Após o escaldante papo que levava horas, quando eu podia finalmente respirar aliviado, chegava a noite e com ela a vez da segunda namorada. O problema é que mudar o foco de atenção da primeira para a segunda e perfazer outro vez o caminho todo pela segunda alma alheia, minuciosamente, era uma tarefa hercúlea.

O negócio foi ficando cansativo demais e então comecei a me perguntar porque eu estava fazendo aquilo. Mais tarde eu descobri que atenção é uma espécie de unidade e como tal é indivisível. Eu sentia o incômodo embora não fosse capaz de explicá-lo. Subitamente um dia senti o fastio daquela atividade, me olhei no espelho do espírito e vi que atender aquela vaidade não só não estava me fazendo feliz, como estava me fazendo perder tempo. Não havia nada para mim ali, nada. A publicidade durara um segundo entre os colegas que se admiraram, mas após este momento passou e o vazio consequente ocupou o espaço que era antes preenchido por alguma outra azarada.

Terminei aquela empreitada me sentindo um perfeito idiota por tê-la começado, mas carreguei um axioma: ter duas mulheres ao mesmo tempo é definitivamente imbecilidade, não há hipótese de se amar mais que uma pessoa ao mesmo tempo e quem disser o contrário está mentindo. Eu sei, eu estive cedo na pele de quem segue este caminho e não é apenas mentira, é mentira deslavada. Quem o faz, não ama uma pessoa e nem a outra, ama a si próprio apenas e goza da fama que a publicidade lhe rende. Isto e nada mais, porque de fato nada mais há que isto.

Eu não sei na verdade o número de mulheres que tive na vida, mas este episódio foi um dos inaugurais desta jornada pelos corações femininos.

Hoje com plenos 37 anos de idade, me veio em mente o filme desta época.

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