I Am Legend (Eu Sou a Lenda) é um filme de 2007 com Will Smith que propõe uma releitura contemporânea da obra de Richard Matheson, especificamente do livro “I Am Legend” (Eu sou a Lenda – 1954).

No esforço por entender o fenômeno dos zumbis no cinema que explodiu numa onda mundial na última década, passei a rastrear as origens culturais. Encontrei documentos literários como o livro de Matheson e logo em seguida uma linhagem cinematográfica que percorre por adaptações diversas, que por sua vez partem das ideias do autor e culminam numa variedade quase caótica de temas abordados, alguns inclusive divergindo formidavelmente da proposta inicial. Este filme, é uma destas divergências.

Nesta trajetória analisando o desenvolvimento critiquei The Last Man on Earth (Mortos que Matam – 1964), The Omega Man (A Última Esperança da Terra – 1971)I Am Omega (A Batalha dos Mortos – 2007). Examinando em cada qual a iconografia zumbi e o ambiente cultural, que naturalmente muda. Primeiro por tratarem-se de adaptações, o que é excelente pois oferecem visões diferentes sobre a mesma obra, enriquecendo o entendimento dos aspectos possíveis. Segundo por transmitirem uma ideia da mentalidade da época sob alguma perspectiva. Por exemplo: o filme de 1964 possui uma visão política de guerra biológica, o de 1971 complementa esta abordagem ambientando a narrativa com o ambiente dos anos 70 e no outro publicado em 2007 não apenas ambienta com as novidades do advento tecnológico como oferece uma perspectiva da cultura musical da época. Além é claro do esforço central que trata-se de entender o fenômeno zumbi em si. Caso haja curiosidade, está tudo registrado em cada um dos textos anteriores.

Robert Neville é um cientista que busca uma cura para um desastre biológico: ao se tentar inverter um vírus, fazendo-o trabalhar a favor do corpo ao invés de contra, 10.009 pessoas tratadas foram curadas e a comunidade científica deu por seguro trabalhar com este resultado na cura do câncer. Com 3 anos de intervalo após o advento, uma epidemia surge exterminando a população do planeta. Neville é naturalmente imune ao vírus e sobrevive. O cientista se esforça numa busca interminável pela cura, sem jamais perder a fé que um dia a encontrará. Seus dias são divididos entre uma busca por suprimentos em companhia de Sam, seu cachorro, e esconder-se completamente em sua residência à noite. Todos os dias ele transmite uma mensagem em busca de algum sobrevivente, informando sua localização e horário, sem resposta. Quando ele pensa que tudo está perdido e sua fé vacila, caindo em desespero, uma providência o alcança e ele descobre que não está sozinho. Neville está prestes a entender que sua missão não é por mero acaso do destino e que ele faz parte de um plano maior, mas que isto exigirá um sacrifício doloroso.

O roteiro é definitivamente uma adaptação cristã da obra de Matheson. Neville e sua família são cristãos e ele só não enlouquece de vez porque o cachorro é a ligação com sua filha e o mantém constantemente conectado à realidade. A maestria desta adaptação consiste na demonstração de como o niilismo pode conduzir facilmente um homem à auto-destruição, em comparação à perspectiva de pertencer a um universo ordenado e com sentido. São 3 fases que o personagem atravessa: ceticismo, niilismo e fé.

Logo de início a narrativa deixa claro que se tratará de uma argumentação sobre a fé, ao passar o personagem por um cartaz com dizeres sobre Deus. A personagem Anna que surge em determinado momento, se guia exclusivamente por revelação divina e a simbologia apresentada ao longo do roteiro faz lembrar a citação filosófica de São Tomás de Aquino: “Deus fala por coisas“, remetendo mais uma vez à realidade como ponto de partida e demonstrando que apesar das coincidências possíveis, nem tudo é realmente coincidência.

Das qualidades técnicas do roteiro estão, além da velocidade narrativa e do ritmo, a sensação de que se vai levar um belo susto a qualquer momento, mas esta conta com o talento notável da fotografia e trilha sonora que encontraram sinergia na edição.

Politicamente pode ser considerado um filme majoritariamente de direita e conservador, com um único momento de esquerdismo, no qual atribui-se o ódio à luta de classes e cita-se o racismo como exemplo, mencionando Bob Marley.

Entre as leituras possíveis, também está a ética científica: trata-se de um questionamento sobre o caráter transitório do método científico que admite que as certezas científicas podem todas sempre serem contestadas; neste caso o fenômeno tratado são as consequências possíveis em proporções mundiais. Um erro científico que culmina na dizimação da espécie humana.

Os zumbis aqui são na verdade vampiros e isto combina com a obra original de Matheson (1954) e sua primeira adaptação para o cinema (1964). Não estão perfeitamente conscientes, mas são muito racionais ao ponto de elaborarem estratégias e táticas complexas na luta contra Neville, inclusive criam animais e organizam-se socialmente em torno de uma liderança. Podem aqui retratar tanto o fenômeno totalitário do culto ao líder encontrado no comunismo pela ótica política, quanto o homem que deixa-se perder no vício e no abandono de seus apetites, o irascível fora de controle, o homicida que se torna incapaz do diálogo e veta a razão.

A fotografia é um trabalho digno que mescla a arte digital com a narrativa simbólica em uma paleta de cores variada e forte que não poupa a emoção em momento algum. Cenas caríssimas foram filmadas em diversos pontos da cidade de Nova Iorque, incluindo a cena de US$ 5 milhões da Ponte do Brooklyn, que também entrou para história como a mais longa cena já filmada na cidade até hoje. A trilha sonora é um espetáculo à parte, na verdade não imagino escolha melhor que Bob Marley para aqueles momentos sem sacrificar a autenticidade. A edição é uma obra prima, considerando o trabalho hercúleo que mescla a arte digital das montagens com as imagens reais da fotografia sem jamais perder o realismo. Tais trabalhos foram todos harmônicos e ofereceram uma imersão digna de tutorial técnico aos iniciantes na sétima arte: é exemplar e constitui meta de qualidade audiovisual, simultaneamente.

O elenco é o Will Smith, fantástico como sempre. Posso não concordar com suas posições políticas, mas como ator é um monstro de profundidade, um dos melhores da atualidade e sem qualquer dúvida já participa da história do cinema. Todo resto do elenco é bom, mas não excelente.

A direção orquestrou essa equipe técnica e artística através de uma adaptação de roteiro fantástica que culminou numa obra de valor filosófico que vale a reflexão pela dialética contemporânea entre niilismo secular e cristianismo.

A produção contou com um orçamento de US$ 150 milhões, colheu uma suntuosa bilheteria de US$ 585 milhões e ainda 31 indicações a prêmios dos quais venceu 9.

É uma nova, incrível e muito pertinente releitura da obra de Richard Matheson, além de um entretenimento garantido em 100 minutos de muitos sustos e fortes emoções.

Uma nota 10,0 é o mínimo que posso oferecer.

I Am Legend ( Eu Sou a Lenda )

Ficha técnica – I Am Legend ( Eu Sou a Lenda )

Filme I Am Legend ( Eu Sou a Lenda )
Ano 2007
Duração 100 minutos
Produção Akiva Goldsman, David Heyman, James Lassiter, Neal H. Moritz, Tracy Tormé, Jeffrey Wetzel, Bruce Berman, Dana Goldberg, Erwin Stoff, Michael Tadross
Direção Francis Lawrence
Roteiro Mark Protosevich, Akiva Goldsman, John William Corrington, Joyce Hooper Corrington

Baseado em “I Am Legend” de Richard Matheson

Fotografia Andrew Lesnie
Música James Newton Howard
Edição Wayne Wahrman
Elenco Will Smith, Alice Braga, Dash Mihok
Orçamento / Receita US$ 150 milhões / US$ 585.349.010
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