Não sei se inauguro algum modelo de redação com isto, se apenas dou nome à alguma proposta já existente, ou se caio no ridículo de presumir que ainda não exista. Sei que, apesar do aspecto de redação crônica, ou seja, uma narrativa real de um recorte pessoal, este vem com um propósito central: auto-reflexão.

Eu não sei também por qual nome batizo este propósito, mas vou guardar estes textos na categoria da reflexão.

Sou aqui livre para errar, livre para mudar de ideia no futuro, livre para articular as percepções que ofereço com quaisquer áreas do conhecimento ou dados que me surjam em qualquer momento da vida. A única liberdade que aqui não existe é a da mentira e esta limitação por sua vez estende-se à vaidade e portanto auto-excluem-se os juízos de valor possíveis decorrentes de quaisquer linhagens éticas, interessa o fato e sua leitura, e só.

Ao propósito crítico de qualquer profissional ou entusiasta de qualquer área (literatura, psicologia, filosofia e etc) deixo claro: este conteúdo propõe-se à sinceridade, explorando do fato real e sua leitura possível.

Qualquer mentira, invalida este tipo de texto automaticamente, portanto, se alguém quiser praticá-lo algum dia, saiba de antemão, suas falhas, seus defeitos, suas limitações, feridas e segredos mais profundos, não podem estar escondidos, ou então você simplesmente não estará praticando a proposta, será um mero falsário indigno de atenção.

Inauguro minha própria proposta com uma percepção.

De tempo em tempo, ciclicamente, acumulo tarefas, atividades diversas e compromissos inúmeros, que geralmente estão acima da minha capacidade. Este fenômeno se passa em algumas etapas: primeiro uma euforia de origem externa, dada por alguma conquista de aprendizado que me impulsiona a buscar mais e mais inadvertidamente.

Em seguida a sensação que vou conseguir atender a todas as propostas dentro do prazo, concomitante com um alerta súbito de que provavelmente o tempo para execução das mesmas seja inferior ao necessário.

Disto se segue o esvaziamento gradual do espírito que começa a minguar a euforia e perceber lentamente o exagero.

O próximo passo é sempre admitir que determinadas atividades precisarão ser entregues fora do prazo e começar a sentir vergonha pelo atraso que infalivelmente virá.

Tal etapa então concatena-se com a preocupação de escolher uma das atividades para ter foco e logo após um reconhecimento de derrota face a este desígnio, por não conseguir comandar a própria mente: é para mim impossível escolher a atividade que quero me focar, simplesmente meus pensamentos fluem em direção ao que quiserem, como se vida própria tivessem. Neste estágio eu fico mais perdido que se possa imaginar.

Os compromissos, são geralmente de duas naturezas: aqueles que eu quero fazer e aqueles que eu preciso fazer, e podem ser classificados como desejos de aprendizado na primeira espécie e trabalho na segunda espécie. Não, não adianta eu resolver que farei este ou aquele: eu não estou no comando de meus pensamentos, eles surgem e se vão sem que eu possa fazer qualquer coisa, são tão involuntários quanto o batimento cardíaco.

Após imenso esforço para realizar esta ou aquela atividade, somado com a preocupação dos prazos, vem então a estafa, um cansaço mental que começa a me deprimir com uma sensação de derrota, uma pressão esmagadora como quem estivesse dentro de uma sala cujo teto começa a descer e da qual não se tem saída.

Próximo ao fim dos prazos e com quase tudo atrasado, finalmente a rendição do espírito surge e com ela a pronúncia em pensamento de “não dá, não vou fazer, sinto muito Ricardo, você não vai conseguir“.

Então, desmontado de ânimo, faço uma fuga mental para alguma atividade de lazer, como jogos, leitura, conversa ou pesca, à qual entrego-me sentindo o quão ineficiente sou na verdade.

Este é o momento mais estranho pois, quando estou nestas atividades de lazer, absolutamente desconcentrado, as soluções dos problemas, dos entraves diversos, simplesmente começam a surgir na minha mente, sem que eu os espere. A verdade é que não são meus, tais pensamentos obviamente não estavam em mim, eles chegam involuntariamente como heróis enviados à minha salvação, de algum lugar desconhecido e por alguém que está me observando, e que resolve intervir em meu socorro.

Tão logo quanto se apresentam, com eles também se apresenta uma força inigualável, como se eu fosse capaz de levantar um ônibus com um braço e arremessá-lo com violência contra as dificuldades, triturando-as impiedosamente. E então, um por um os problemas são atacados, uma a uma as atividades são solucionadas e entregues, por vezes algumas atrasadas, é verdade, mas sempre num prazo ainda razoável.

O final deste ciclo é gozar de uma glória que não me pertence: eu sinceramente não fui o autor dos pensamentos que solucionaram os problemas.

Proposital e ironicamente contradizendo o parágrafo anterior, afinal ciclos não tem fim por sua forma estrita circular, entro novamente no estágio de euforia e tudo recomeça.

O que noto disto é que eu sou eu em parte, mas não no todo. Ou então, há uma conexão com alguém mais. Eu no final das contas não sei quem, mas sei que está lá e sei que lhe devo gratidão. Espero que seja Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo, alguma espécie de anjo da guarda, mas embora exista um impulso cristão em mim que me force à admitir esta autoria, eu na verdade não sei; e não sabendo espero que seja assim.

Há nisto também um ponto de atenção à humildade: a única forma de solucionar isto seria reconhecer que não estou no controle absoluto e que embora deseje seguir adiante sempre, não sou muito além do desejo, mesmo a substância do pensamento não é propriedade minha, uma vez que estou em débito confesso.

A sensação que me impulsiona, é também inalienável, ela decorre do resultado e portanto deveria se converter em gratidão, que confesso não realizar senão sistematicamente, com uma frieza mórbida que é imprópria e configura as próximas ajudas que recebo sempre como misericórdia e não mérito; seria mérito se eu reconhecesse desde o profundo coração e sentisse a mais pura gratidão, e não esta advinda do senso de obrigação.

É portanto a euforia que me impulsiona parte da misericórdia que me cerca.

De tudo que sei, é forçoso dizer que nem o saber é meu e talvez a única parte de fato minha, seja o reconhecimento da minha falta de capacidade quando o espírito se abate voltada face à verdade dos fatos.

Desta profunda incompreensão, também me surge por vezes um fio poético, cuja expressão nem sempre é reconhecível anos mais tarde e me questiono: “eu escrevi isto?“.

Há ainda algo que noto com tal ciclo: este está dentro de outro ciclo maior. Anualmente revejo o que estava fazendo na mesma época do ano anterior e me deparo com uma surpresa, estava trabalhando no mesmo assunto, em um ponto anterior, do qual evoluí e migrei para o próximo.

Destaco no final como meus, o desejo fortíssimo de aprender algo novo, a fé que é possível alcançar e o reconhecimento da incapacidade. A informação, vem toda de fora e não me pertence.

Seria possível neste instante até desenhar geometricamente o que vejo do que descrevi e ainda acompanhar o desenho com um gráfico cartesiano que demonstre os picos de euforia e depressão.

Isto não é um sofrimento ou algo do tipo, apenas uma constatação no caminho que traço por compreender a mim mesmo, na difícil trilha de somar recortes, intervalos e comportamento que observo.

Se houver algo parecido com você, deixe seu comentário, eu vou ter muito prazer em lê-lo.

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