Por um determinado período de minha vida fui absolutamente fascinado por astrologia, estudei o assunto minuciosamente, mas do ponto de vista das personalidades das pessoas nascidas sob cada signo. Um dia, resolvi que separaria, signo a signo, as informações contidas em todos os sites e livros que havia lido, e que as verificaria na prática.

Qual seria então a melhor maneira de um adolescente de 16 anos verificar se aqueles escritos eram verdade mesmo? Testando.

Nesta época eu trabalhava em uma pequena empresa de produtos orgânicos em São Paulo, que recebia mercadorias do Sítio A Boa Terra e distribuía por São Paulo inteira. Meu chefe na época, seu Ivon Lubos (que foi um dos poucos homens a quem posso chamar de segundo pai), me confiou parte de seu departamento de vendas. Eu era um jovem imaturo, insensato, daquele tipo petulante que acha que sabe de tudo. Se eu de hoje com 37 anos, encontrasse o eu de ontem com 16, me daria uma surra, mas a sabedoria e paciência do Ivon superaram minha personalidade insuportável e mesmo debaixo de muitas brigas (quase diárias), ele confiou em mim e me ensinou muito (muito mesmo).

Como esta é uma história real, vou omitir o nome da garota, a chamarei de Leoa. É honroso, outros signos como touro não possuem o mesmo privilégio, imaginem alguém apelidando carinhosamente a mulher de “Toura“, referindo-se ao seu signo. Um belo dia o sujeito liga para o trabalho da mulher e manda que chamem a Toura, ou alguém ocasionalmente a reconhece na rua, a distância e resolve chamar-lhe atenção – Toura! Toooura! Ô Toooouraaa! Alguém cutuca a Toura ali pra mim… -, até que a coitada, involuntariamente adicionada ao gênero bovino atenda ao chamado do desatento sacana. Leoa por outro lado é honroso, trata-se de um animal que reúne beleza, charme e sagacidade.

Conheci a Leoa pela internet, na época do Orkut, naquelas comunidades que se formavam entre os inovadores internautas brasileiros. Estavam todos no Orkut. O Orkut jamais acabaria. O Orkut seria eterno. E foi enquanto durou.

Não sei ao certo quantas pessoas do mundo virtual conheci no real, mas sei que a grande maioria foram pessoas importantes para minha história.

Dos comentários das comunidades orkutianas, um dia resolvi investir em impressionar a Leoa. E consegui. Em pouco tempo minha soberba adolescente despertou-lhe o interesse e então passamos a trocar mensagens privadas. O fluxo das mensagens privadas cresceu e migramos para o MSN (quem lembra?). O contato do MSN fluiu e de repente estávamos ao telefone. Tudo isto numa única semana.

A Leoa era uma garota da Zona Sul de São Paulo, com pouca diferença de idade, romântica e de um apetite sexual impressionante. Antes de nos conhecermos pessoalmente, um dia ela disse ao telefone:

– Minhas amigas me dizem que eu só penso nisso… – e riu sem graça. É claro que daquele momento em diante a conversa mudaria seus rumos irreversivelmente.

Além disto, ela era uma morena muito bonita, magra, de olhos grandes e verdes, pouca coisa mais baixa que eu, gostava de usar colares, pulseiras e brincos dourados, as vezes usava um vestido vermelho que lembrava ciganas, e tinha um cabelo liso até os ombros.

Demorou um pouco para nos encontrarmos. Ela, com sua vaidade leonina me ligava no trabalho, sempre no horário que eu estava sozinho, me falava de sua vida e seus problemas, mas estranhamente afirmava não ter sonhos e ter um segredo. Não era uma moça culta, mas era ainda assim inteligente e observadora. Estava dividida entre um sujeito que vivia atrás dela e eu. Havíamos em pouco tempo desenvolvido uma espécie de laço que nos mantinha presos contra nossa vontade. A cada ligação, ela contava mais e mais sobre si, me dava informações diversas sobre seus interesses num homem e com a mentira que faz tremer a voz enrouquecendo suas cordas vocais, em determinado momento dizia baixinho – Eu não quero nada com você… -, com uma voz doce que no fundo dizia precisamente o contrário. Vez por outra lhe perguntava qual era o motivo de não querer nada comigo e ela respondia com um ar de superioridade superficial que não queria nada com ninguém, o que era crível como barreira emocional. Na tentativa de romper esta barreira eu contra argumentava que ninguém havia nascido para viver sozinho e que o certo era ter alguém com quem dividir nossos momentos, nossa vida, enfim.

Um dia a Leoa me contou seu segredo. Era uma bobagem, mas fingi dar valor, pois o simples fato de ouvi-la já teria o efeito de aliviá-la nisto, havia anos que a coitada estava angustiada sem ter com quem dividir aquele peso em sua alma. Ela era evangélica e de uma família muito rígida, com um pai severo, um dia por curiosidade foi à umbanda e morria de medo de contar isto para qualquer um.

Nossos encontros eram geralmente em shoppings de São Paulo e ela me beijava loucamente, gostava de andar de mãos dadas, ir a toda parte comigo, como quer que fosse e tinha um estranho costume de repentinamente começar a rir do nada, por se lembrar de alguma coisa sozinha, mas que depois me explicava e geralmente a história era engraçada mesmo.

Esta tensão permanente entre meu ímpeto por ouvi-la admitir que me queria e sua constante recusa, que sempre deixava no ar que ambos sabíamos a verdade, mas que ela teimosamente não a pronunciaria um dia também se acabou. Após todos nossos casos, idas e vindas, um dia nossos caminhos tomaram rumos diferentes e o que sobrou foi o aprendizado sobre o que é o coração das mulheres de leão.

Era difícil nos encontrarmos na verdade. Ela trabalhava como vendedora num empresa de insumos hospitalares e seus horários variavam muito, bem como seus dias de folga. Eu pelo meu lado não tinha flexibilidade alguma e além de trabalhar na distribuidora de orgânicos também dedicava mais três horas após o expediente num colégio de informática, como instrutor e quando chegava a noite ia estudar. Nos víamos nos intervalos que combinassem a folga dela e a minha, o que era difícil. O resultado óbvio deste empecilho foi o afastamento gradual.

Após alguns anos numa das idas e vindas da vida nos encontramos casualmente, ela havia se casado e me disse que só o fez por causa deste episódio, que segundo as palavras dela mesma, tomou como meta formar uma família e para isto precisava encontrar alguém. Eu não sei na verdade se lhe fiz bem ou mal, se ela se casou por amor ou se escolheu alguém para suprir lacunas da necessidade humana, mas sei que o fato de nos aprofundarmos tanto em alguém, embrenharmo-nos por sua alma, sempre causa mudanças nas pessoas, mas isto eu só notaria muito mais tarde, já na fase plenamente adulta, observando minhas próprias memórias e seus desdobramentos.

O ponto alto é que eu além de adolescente descobrindo as mulheres, estava também fascinado pelos signos e passava horas as ouvindo, na tentativa de conhecer seus mais profundos sentimentos, seus desejos inconfessáveis, seus conflitos, crenças, enfim, tudo que estava guardado na alma e que elas mesmas pudessem não saber sobre si. Fazia faculdade de cada uma delas. Geralmente após um tempo neste mergulho unilateral em direção às personalidades reais por trás das aparências externas, quando elas me colocavam algum problema pelo qual estavam passando, eu as surpreendia dizendo como agiriam no final das contas. Isto despertava fúria, pois nem sempre o que eu dizia era bonito, mas era verdade. Em seguida elas agiam daquela forma mesmo e voltavam para me contar com palavras mais ou menos assim – É, eu acabei fazendo isto mesmo… -, junto com esta afirmação vinha a mesma pergunta – Como você sabia que eu faria isto? -, este era meu auge impetuoso, no qual respondia – Você não se conhece, eu te conheço. O problema é que este ponto também era um marco: eu havia conquistado aquele coração e ele perderia gradualmente toda importância até que inevitavelmente romperíamos aquela relação. Não havia mais nada a ser aprendido sobre aquele signo com aquela garota.

É claro que este é o tipo de empreitada adolescente, de escolher namoradas pelo signo, é risível, mas aconteceu e hoje lembro desta época com muito carinho.

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