Seguindo a ideia do texto anterior, este é também uma meditação.

Assistindo uma cena de suspense intenso de um dos mestres do gênero no cinema, por acaso do destino me lembrei de situações semelhantes que passei em minha vida.

A primeira vez que me meti numa briga no colégio. Era criança ainda e estava na segunda série do ensino fundamental (naquela época chamado primário) do extinto Colégio Conceição de Andrade. Eu não sabia no que estava me metendo até ouvir um “te pego lá fora“. Aquela situação me horrorizou, pois só ouvira algo semelhante em casa. Minha mãe tinha umas varas de bambu e se a desobediência fosse muito além, tomaríamos umas nas pernas. Como bom irmão mais velho que se preze eu apanhava como castigo e apanhava para dar exemplo para minha irmã, três anos mais nova. Também na mesma época, uma vez bati na minha irmã e desta vez fui castigado sob o aviso de que eu não poderia bater em ninguém.

A confusão mental estava feita: se eu ficasse quieto apanharia do estranho e se eu reagisse apanharia dos meus pais. Aquele dia a aula não passava e eu precisava de um plano ou algo que me pudesse salvar. Minha única saída era não brigar a qualquer custo. Além do que estava dividido com medo extremo de apanhar de um estranho e com medo na mesma medida de apanhar em casa.

Nos últimos minutos eu descobri uma saída para a situação, eu sairia pelo estacionamento da escola ao invés do portão principal e passaria desapercebido pelo povo que se aglomerava na frente do colégio. Perfeito, era só fazer.

Acontece que, se naquele dia houvesse um único pombo sobrevoando São Paulo toda, na hora de defecar eu seria sem dúvida o alvo.

Fui um dos primeiros a sair da classe, como um ninja que some na fumaça me misturei com toda aquela gente que se apertava entre os portões, distraí o manobrista que estacionava os carros e vigiava o portão, me espremi pelo canto e fui. Estava feito. Eu estava do outro lado dos muros, sozinho, pronto para empreender fuga sorrateira. Era um vitorioso, triunfante por não ter apanhado de ninguém e ainda planejado e executado uma estratégia fantástica.

Nos primeiros passos em direção a minha casa, lembrei que minha mãe iria me buscar e que estava no outro portão. Como tudo havia dado certo até aqui, a chance da sorte me continuar sorrindo era imensa. Dei a volta, encontrei minha mãe e cutuquei-lhe as costas. Ela se virou, me viu, disse alguma coisa que eu não lembro e começamos caminhar saindo do aglomerado de seres humanos que buscam seus filhos no colégio.

No segundo passo alguém me puxou pela mochila (que tinha alças amarelas e que por algum motivo me lembro perfeitamente), era meu algoz e meu pesadelo tomou uma forma mais aterrorizante que antes: se eu ficasse quieto apanharia do estranho (sim, eu estava com medo dele) e se eu reagisse, mesmo que para apanhar, levaria outra surra em casa.

As “surras em casa” nunca foram violentas de verdade, mas o medo que eu desenvolvi era monstruoso.

Enfim, o tempo paralisou e eu precisava fazer alguma coisa.

O garoto avançou, me empurrou e cerrou o punho.

Me ocorreu que se eu ia apanhar de qualquer jeito e ainda duas vezes, que pelo menos eu reagisse.

Foi o que fiz. Morrendo de medo eu reagi. Para minha surpresa total, no exato momento em que eu aceitei a briga e reagi, todo medo se foi instantaneamente, desapareceu num passe de mágica e me lembro de perceber que o outro garoto ficou espantado, mas que mesmo assim investiu.

Eu naquele instante não era mais um impotente e a briga eu venci.

No dia seguinte eu seria conhecido na sala por isso e empolgado levaria uma advertência, que me custaria novas varadas nas pernas. E no mesmo dia eu ainda seria cobrado severamente em casa, por ter arrumado uma briga, mas não apanharia desta vez.

Foi assim. Primeiro a calmaria que permite um ambiente alegre nos quais podemos acabar cometendo alguns abusos inconscientes e assim ofender alguém. Em seguida um desafio inesperado para o qual não estamos preparados. Na sequência, dado o despreparo e as múltiplas possibilidades de prejuízos diversos, o medo que pode se estender ao terror. Então a situação propriamente dita, que toma outra forma diferente do que esperávamos, reduzindo um gigante enfurecido a um cachorro sarnento, do qual sentir medo é no mínimo uma vergonha. Então a solução da situação, que após concluída nos premia de alguma forma, fazendo-nos saber que da próxima vez, antes de superestimar o inimigo, é melhor conhecê-lo de verdade.

Para além desta passagem, houveram outras mais tarde, envolvendo violência que me modificaram de outras formas, mas esta primeira lembrança acredito ser suficiente para descrever todos os processos estabelecendo de certa forma um padrão que consigo notar em inúmeras outras ocasiões semelhantes.

Os estágios emocionais que discirno em mim são estes, me ocorre inclusive que são semelhantes aos descritos no mito grego analisado por Joseph Campbell em “O herói de mil faces” e como o próprio autor diz no livro, não se trata de uma novidade, mas de uma análise, ou seja, de decompor uma objeto em seus elementos, e, talvez por isto não seja exclusividade minha este padrão.

Quanto ao mais não sei, o que sei é que a realidade é até aqui, exatamente esta.

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