O simples fato do homem sentir-se cobrado em sua consciência implica na existência de Deus.

Para poder dizer isto, é necessário admitir a existência de consciência, memória, do cosmo e de uma relação entre o homem e tudo quanto consta no cosmo.

Podemos até admitir a memória como produto da consciência ao avaliar os processos que atravessamos.

Mas a consciência como produto de si mesma é impossível.

Admitida também a existência do cosmo e de tudo quanto contém, é forçoso que seja precedido de vida.

Então, o fato de que precisamos responder por nossos atos, implica numa relação de natureza que além da sistematização de causa e efeito, transcende para uma submissão a um poder.

Quando nós nos cobramos, é porque admitimos que há lei presente no cosmo acima de nós: não determinamos as leis cósmicas. Não determinamos que as plantas cresçam com a chuva, nem que o sexo gere filhos, somos do contrário tão elementos deste sistema quanto quaisquer outros. Há portanto uma lei à qual devemos subordinação, independente da nossa vontade. Desta forma o cosmo todo a obedece e a isto podemos observar.

Salomão disse que algumas coisas nos cansam tanto que as paramos de observar, como o fluir dos rios e o nascer do sol.

E de fato assim procede: tudo está acontecendo enquanto assistimos de camarote e participamos tão involuntariamente quanto bate o coração.

Desta subordinação do cosmo todo às leis, há então a questão da qual temos a maior dificuldade de passar: há alguém a quem respondemos? Ou respondemos a um sistema automático e misterioso?

Nisto havemos de admitir também que entre tudo que existe no cosmo, há também um aspecto nosso que é a consciência, cuja existência já admitimos.

Havendo então consciência, nem tudo é matéria e se nem tudo é matéria, quimicamente falando, então nossa subordinação reside tanto nas coisas materiais quanto nas imateriais: porque uma pedra não tem consciência, mas lançada para o alto, pela lei presente no cosmo deverá cair, e mesmo inconsciente e involuntária, ela obedecerá. Ao passo que nós, em nossas consciências nos sentimos cobrados e tudo quanto fazemos, registramos na memória e o próprio ato de registrar na memória é inconsciente, o fazemos querendo ou não.

Há com isto uma lei também para a consciência que é seguida pela própria, tão involuntária quanto o bater do coração ou quanto a gravidade que ordena à pedra que caia ao ser lançada.

Notando que há leis para a consciência, tais leis não podem estar exclusivamente na matéria, sistêmicas e casuais, porque a mesma natureza de leis que rege o material, o imaterial também rege.

Disto é forçoso admitir novamente que as leis do cosmo, que subjugam o material e o imaterial, precisam ter alguma natureza e que esta natureza não pode ser material, pois o material é nisto inferior por não estar consciente.

Oras, não estando conscientes, o ato de criar não pode ser exercido pela matéria, e portanto o reger é pela matéria impossível. Temos com isto que as leis não podem portanto ser casuais, sistematizadas e inexplicáveis quanto à sua natureza.

Tendo descartado aqui a possibilidade do material elaborar leis, sobra a hipótese do imaterial.

Sendo portanto o imaterial a origem necessária da regência do cosmo, é necessariamente uma consciência pois, há separação entre o que é material e o que é imaterial.

Acontece que admitindo tratar-se a origem das leis de uma determinada consciência, no âmbito do imaterial, é porque obviamente esta consciência existe. Admitindo que existe e que está consciente, seja quem for (uso quem, pois não é coisa inanimada, mas alguém) trata-se de um ser.

Quanto ao mais que existe no imaterial, nada sei, mas que há neste ser consciência e capacidade para reger o cosmo, isto é absolutamente necessário admitir, ou todo resto não seria possível.

Este ser só pode ser Deus.

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