Pouco tempo atrás escrevi a crítica da primeira temporada de The Walking Dead.

A segunda temporada tem início no mesmo prédio onde a primeira terminou, transmitindo a ideia de que um ciclo se encerrou. Em seguida Rick falando pelo rádio aborda o conceito de fé, enunciando que esta será a nova temática e então o grupo pega a estrada com um rumo determinado.

No meio do caminho um incidente os faz mudar a rota e eles acabam na fazenda de um senhor cristão chamado Hershel, que ali vive com sua família, isolados e seguros, alheios ao mundo.

A passagem pela fazenda é um verdadeiro teste de fé, onde o grupo passará por muitas provações nas quais terão que demonstrar quem realmente são, como agem, pensam e sentem.

Entre lágrimas e sangue, o mundo no qual só os melhores sobrevivem passa a contar com a seleção natural pelo espírito: para sobreviver eles precisarão de muita resiliência, força, caráter e muita, mas muita fé.

Um ponto importante do roteiro desta temporada é que nada acontece por acaso, absolutamente nada. Tudo tem um motivo e toda situação está conectada com alguma outra que desconhece. Está tudo, intimamente interligado.

O elenco é fantástico, não há substituição de atores e a sinergia em cena é tão natural que me fez lembrar o documentário Anthology dos Beatles: a equipe leva o trabalho com o mesmo entrosamento e espontaneidade, o expectador chega ao ponto de esquecer que são atores e a imersão na narrativa é completa.

O roteiro é veloz, muito intenso e nos faz devorar a tela esperando a próxima cena.

O trabalho de fotografia é impecável, embora não seja ousado, é técnico, mas perfeito. A trilha sonora inova em picos emocionais e surpreende com qualidade. A edição permanece a mesma, mantendo a abertura com o excelente vintage desbotado que se tornou marca registrada do seriado como uma assinatura emocional. É inclusive a melhor edição depois de Criminal Minds, que na minha opinião é o melhor e mais complexo trabalho de edição já realizado num seriado.

Em The Walking Dead, a direção do show é absolutamente perfeita pelo aproveitamento completo do talento de todas as competências listadas e reunidas num conjunto harmônico e insolúvel: fotografia, música, maquiagem, figurino, elenco e edição, aqui não são trabalhos isolados, mas uma unidade.

Com a mudança temática, aqui há a ruptura completa com a obra de Richard Matheson, o seriado ganha vida própria e abandona a sensação de estarmos assistindo um longa metragem que foi seccionado para ser explorado. Resta criticamente uma comparação leve com os temas sócio-culturais, políticos e filosóficos de George Romero, mas é necessário dizer que Robert Kirkman vai muito além de seus predecessores e ousa dramaticamente abordar questões teológicas. Só por isto, seu universo é extremamente superior comparado com a prisão mental “direita versus esquerda” de Romero.

Examinemos isto mais de perto.

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Questões filosóficas

  • 1º episódio: os limites da esperança e da fé.
  • 2º episódio: o que é ser pai.
  • 3º episódio: como lidar com as adversidades e o sofrimento, o preço da desistência, os limites da lealdade e a pena para a consciência.
  • 4º episódio: o acaso e a intervenção divina, o amor possível até num cenário caótico e a piedade dos pais pelos filhos.
  • 5º episódio: o papel de cada um no todo caótico: como alguém muito mau pode fazer parte de algo maior.
  • 6º episódio: o peso da mentira na consciência, a responsabilidade com a vida e a relevância da realidade contra o idealismo.
  • 7º episódio: o limite do luto, o apego ao passado, a piedade, a responsabilidade e o que é a vida.
  • 8º episódio: o luto, o exame de consciência e o que é a morte.
  • 9º episódio: a luta pela vida e o que é força.
  • 10º episódio: suicídio e estado de consciência, a ética da sobrevivência.
  • 11º episódio: mais sobre a ética da sobrevivência e a realidade.
  • 12º episódio: o amadurecimento.
  • 13º episódio: a fé durante a crise.
  • Os zumbis: os zumbis nesta temporada ganham uma perspectiva filosófica nova, a ausência de alma, são mortos no sentido espiritual agora. O desfecho dado ao personagem Shane é precisamente esta figura simbólica: ele já estava morto, sem qualquer motivo para viver, com um acúmulo de culpas tão grande que estava a ponto de enlouquecer. Assassinou um inocente por puro egoísmo, a cobiça pela mulher de seu amigo lhe subira à cabeça de forma incontrolável, a inveja do lugar ocupado por Rick, como líder e pai o consumia e a crueldade com os sentimentos da família Greene que o acolheu foram imperdoáveis. Seu destino já estava selado, a única diferença entre ele e os demais zumbis, é que ainda estava consciente.
  • Recorrentes: a família, a mentira e seus desdobramentos, o fato de que tudo está intimamente conectado como causas e efeitos improváveis, e a fé.

A dialética paternal Dale versus Hershel

Hershel é a segunda figura paternal que entra em cena. A primeira é o Dale e aqui há um processo dialético em curso. Dale é um adepto da democracia e do intelecto, enquanto Hershel rege sua casa com leis rígidas, adepto dos sentimentos e menos democrático.

Dale é um distante argumentador racional, que afirma agir que em nome do bem maior, reservando-se o direito de decidir pelos demais, manipulando as informações que chegam ao grupo, como no caso do recolhimento das armas e no momento em que mentiu sobre o veículo para impedir o grupo de decidir se iria embora ou se continuaria em busca de Sophia.

Hershel por outro lado não está aberto a sugestões, ele fechou seu mundo e vive como lhe aprouve. Num caso de mentira muito parecido com o de Dale, ele também oculta a verdade sobre os zumbis que guarda no celeiro, por serem seus parentes e acreditar numa cura. Neste caso a mentira é de um tipo diferente: ele não está fazendo falsas afirmações para manipular o grupo, mas como acredita que o grupo está de passagem apenas ele não os informa, uma vez que esta informação não pertence ao domínio de decisões que o grupo pode ou não tomar, não está em sua gama de assuntos.

Dale persuade, Hershel manda.

Este não é o único âmbito em que se observam as diferentes propostas de paternidade: há também uma disputa entre Rick e Shane. O primeiro é o responsável disposto a morrer pelo filho, o segundo quer apenas os bons momentos nos quais encarna ludicamente a figura do pai.

O peso da mentira

  • Dale mente três vezes.
  • Hershel mente.
  • Carl mente duas vezes.
  • Lori mente duas vezes.
  • Shane mente três vezes.
  • Glenn mente duas vezes.
  • Maggie mente.
  • Rick mente.

Na medida em que a verdade vai aparecendo e eles lidam com as consequências, o peso desaparece de suas costas e vão se libertando.

Dale não conta a verdade sobre sua primeira mentira: a mecânica do seu veículo, mas a situação resolve-se e o fato torna-se irrelevante. A segunda mentira dele é sobre os zumbis no celeiro, mas esta ele procura Hershel para conversarem a respeito. A terceira é sobre a gravidez de Lori e ele a procura para conversarem também.

Hershel mente para o grupo de Rick sobre os zumbis no celeiro, mas Maggie, filha de Hershel, revela a Glenn que revela ao grupo, então Rick questiona o fazendeiro e ele admite de imediato.

Carl pega uma arma escondido e é descoberto, sua mentira é perdoada e tudo cai no esquecimento.

Na segunda vez em que Carl pega uma arma escondido, a reação em cadeia custa a vida de Dale, ele confessa a Shane o que fez, mas adquire medo de armas.

A primeira mentira de Shane é sobre seu relacionamento com Lori: ele cobiça o lugar de Rick como marido e como pai, não se arrepende de como age com seu melhor amigo e persiste no erro. A segunda é sobre a morte de Otis. Dale o desmascara e o afronta, o que o faz considerar que a qualquer momento sua máscara cairá. Dada a conjuntura da situação, o peso o enlouquece aos poucos, até que somadas ambas o fazem surtar.

Glenn mente sobre os zumbis do celeiro, mas revela a Dale. Sobre isto o coreano na verdade precisa mentir a pedido de Maggie, mas não suporta o fardo de consciência que coloca o grupo todo em risco e acaba revelando a verdade ao grupo. A segunda mentira de Glenn é sobre a gravidez de Lori, sobre esta ele guarda segredo a pedido da própria mas acaba revelando a Dale. Após Dale procurar a esposa de Rick e falarem a respeito, ela procura o coreano e o perdoa por ter revelado.

Maggie mente sobre os zumbis no celeiro, ela revela a verdade a Glenn mas não por vontade própria, ela apenas o faz para salvar sua vida. Este revela ao grupo mais tarde, mas como a responsabilidade da propriedade é de Hershel, após esta revelação ela fica livre do fardo de consciência.

Lori é o caso mais embaraçoso, pois cobra duramente a mentira de Carl e a posição de Rick sobre a permanência de todos na fazenda, acusando-o de mentir, quando Rick não estava mentindo, uma vez que a situação não havia se resolvido, ele e Hershel negociavam ainda sem conclusão. Enquanto cobra os demais, a paladina da verdade oculta que teve um caso com Shane e que está grávida. Aos poucos, um aqui e outro ali vão descobrindo. Quando Rick descobre, revoltado lança-lhe em face este quadro vexatório, mas a partir deste momento, desta mentira pelo menos ela está livre.

A segunda mentira de Lori é o caso com Shane. No momento em que Rick a cobra sobre a tentativa de aborto, surge a oportunidade dela confessar sua mentira. Ela admite seu erro e seu marido a perdoa.

A terceira mentira de Shane é a mais trágica de todas, ele assassina Randall, diz que foi pego de surpresa e arma uma estratégia para assassinar Rick, e tomar seu lugar de uma vez. Esta é sua última mentira da vida.

No final da primeira temporada o doutor Jenne havia revelado um segredo ao Rick sobre todos do grupo estarem infectados. Rick não conta-lhes a verdade, mas com o surgimento de zumbis que não foram mordidos ele é obrigado a confessar-se.

Simbologia indumentária

Rick logo de início abandona a roupa de policial e passa o seu chapéu ao seu filho. A partir deste momento ele deixa de ser um policial para ser um líder oficial, respeitado pelo grupo e responsável pela vida de todos. Carl no entanto assume uma postura de policial, seguro de si ele passa a falar com autoridade quando está usando o chapéu de policial.

Shane após cometer o assassinato de Otis, assume suas roupas e abandona a veste de policial. O grupo gradualmente observa seu comportamento e seu respeito se vai, alguns inclusive desejam que ele se vá.

Glenn após os incidentes que passou e decisões difíceis que tomou amadurece, neste momento ele pede o chapéu de Dale e passa um longo tempo isolado no alto do trailer.

Após salvar Hershel, Rick assume seu lugar na mesa de jantar e suas roupas novamente mudam.

Questões políticas

Primeiro episódio

A pauta do desarmamento aparece pela primeira vez no seriado.

Dale viu Shane mirando em Rick pelas costas num momento de nervoso e desde então passou a preocupar-se em diminuir as possibilidades de incidentes em surtos de raiva. Somado a isto estão os fatos de que alguns em momentos de fraqueza consideraram seriamente o suicídio e que ainda os zumbis são atraídos por sons, e que alguém assustado que resolva atirar, pode atrair repentinamente um bando inteiro e colocar a vida de todos em risco.

Deste ponto, resolveu ser o portador de todas as armas, ele passa a recolhe-las contra a vontade das pessoas e em seguida faz um simpático discurso de segurança para todos.

Esta questão é apenas iniciada neste episódio, sua conclusão vem mais adiante.

Segundo episódio

Democratas versus Republicanos: os valores encarnados por Dale e Hershel são antagônicos enquanto política de gestão de grupo. Dale representa os Democratas, Hershel os Republicanos.

Esta é outra questão que se apresenta neste episódio, mas que se desenvolve pela temporada.

Terceiro episódio

Na questão do desarmamento, Dale reconhece o erro e devolve a arma de Andrea. Embora seja um argumento, a questão ainda não foi encerrada e prossegue.

Quarto episódio

Hershel também pede que em sua propriedade as pessoas não andem armadas. Shane contra argumenta citando a hipótese de um ataque zumbi em massa. Rick defende a propriedade de Hershel, alegando que como a propriedade é dele, as regras são dele. Mais tarde Andrea rebela-se contra a decisão, mas desta vez Shane concorda com Rick.

Há aqui um desenvolvimento na questão que começa a ganhar corpo: se o poder sobre propriedade estende-se até a vida alheia que está dentro de seus domínios. Em outras palavras: o direito de propriedade contra o valor da vida.

Quinto episódio

Merle aparece em visão à Daryl e faz um discurso com alusão aos republicanos, citando agora claramente ser contra os democratas. Há neste discurso citações de família e racismo.

Andrea confunde Daryl com um zumbi e atira nele. É um acidente, mas a questão do desarmamento surge mais uma vez.

Sexto episódio

Desarmamento: mesmo com restrição às armas, Carl pega uma escondida e Shane o descobre. Ele quer aprender a atirar e Shane consulta os pais. Rick concorda em seu aprendizado e Lori discorda a princípio, mas acaba cedendo, contanto que ele estude com responsabilidade redobrada. A questão é neste ponto sobre se o aprendizado do uso de uma arma, com seu funcionamento e riscos, reduz a probabilidade de incidentes. Rick e Shane dão um curso de tiro e manuseio de armas.

Shane mostra para Andrea na prática, colocando-a em uma situação com zumbis de verdade que usar uma arma requer técnica e treino. Ela aprende e finalmente compreende a preocupação de Rick.

Surge a questão do aborto com Lori. Ela acredita que ter um filho neste cenário poderá trazer apenas sofrimento à criança, além de suspeitar que o filho que carrega é de Shane. Sem consultar Rick ela decide abortar e é descoberta por Maggie. Glenn a surpreende afirmando que tal decisão não é só dela, mas de Rick também. Desesperada, sozinha e atordoada, temendo pelo futuro da criança e a descoberta de sua relação com Shane, ela toma a droga abortiva, mas arrepende-se no instante seguinte e a vomita. Rick descobre quando encontra a embalagem dos comprimidos e a cobra, pois para tomar esta decisão ela precisava antes consultá-lo.

Sétimo episódio

A questão da propriedade versus a vida ressurge. Hershel é o dono da fazenda e o grupo está lá como convidado, ele mantém zumbis no celeiro porque são seus parentes e porque acredita estarem doentes. O grupo com medo por suas vidas precisa escolher entre respeitar as regras da propriedade e ir embora, ou permanecer e dar fim aos zumbis, violando a lei do proprietário.

Desarmamento: Shane surta pela primeira vez e vai procurar as armas, mas Dale as tentou esconder prevendo seu comportamento, quando o surtado o encontra há uma discussão e Shane fica com as armas.

Oitavo episódio

Novo argumento sobre a propriedade. Surge um grupo de estranhos armados e sem qualquer respeito querendo ir à fazenda. Rick percebe que se trata de uma gangue e que isto precisa ser resolvido ali.

Nono episódio

Desarmamento: a importância do treinamento para usar armas quando necessário.

A situação começa a preparar uma questão: pena de morte.

Décimo episódio

Desarmamento, eutanásia e pena de morte são questionados quanto a ética.

Beth quer se suicidar e é pega em flagrante, mas pode não estar em seu juízo perfeito. Neste cenário, ela pode permanecer armada?

Randall é um perigo para o acampamento, mas não pode ser julgado por crimes que ainda não cometeu. Rick quer mante-lo vivo e pensar sobre o assunto, Shane quer matá-lo para evitar problemas futuros. Ambos apresentam argumentos válidos até certo ponto e a questão permanece suspensa. É no final uma questão ética.

Décimo primeiro episódio

As suspeitas de que Randall é um perigo se confirmam, seu grupo é grande, está fortemente armado e contém assassinos e estupradores.

Desarmamento: reflexão sobre as consequências de crianças com armas. Carl pega escondido a arma de Daryl, vai para a mata sozinho, encontra um zumbi, não consegue atirar e perde a arma na mata. É sob muitos aspectos um raciocínio que considera o cidadão destreinado que perde sua arma para o criminoso.

Surge com Glenn e Hershel o tema da imigração, Hershel levanta os pontos positivos.

Pena de morte: Dale sente uma pena excessiva sobre a execução de um criminoso e torna-se vítima de outro.

Décimo segundo episódio

Propriedade: com a chegada do inverno e os incidentes recentes com zumbis, Hershel se apieda e permite que o grupo more na casa.

Pena de morte: Shane engana Randall e o garoto confessa que o acampamento dos bandidos é a 7 km da fazenda, que ele pretendia voltar lá e se unir ao grupo novamente.

Legítima defesa: Shane tenta assassinar Rick que não vê mais outra escolha senão lutarem até a morte.

Décimo terceiro episódio

Os limites da democracia durante uma crise institucional. Isolado na tensão e carregando toda responsabilidade sozinho, Rick pronuncia a célebre frase: “isto não é mais uma democracia“.

Questões teológicas

A complexidade da tragédia de Sophia

Quando todos entram na igreja e pedem a Jesus Cristo que mostre onde está a Sophia, que se perdeu na mata, o último a entrar é o Rick e ele sozinho confessa que é um desligado da igreja, mas que sabe que Jesus pode ajudá-lo de alguma forma e pede-lhe um sinal.

Do lado de fora, no momento seguinte, Carl e ele encontram um alce a alguns passos da igreja.

Carl se aproxima e leva o tiro que acaba fazendo o grupo descobrir a fazenda de Hershel, na qual são todos cristãos. Hershel em sua fé decide não dar cabo dos zumbis e guarda-los no celeiro, acreditando que podem estar doentes e que uma cura será cedo ou tarde encontrada.

No final da temporada, após procurarem por Sophia exaustivamente, ela estava lá, guardada o tempo todo e o alce foi o sinal que Rick pediu, pois o colocou em contato com Otis, que a havia encontrado e a levado para a fazenda. Sem explicação racional ela foi mantida intacta, não teve seu corpo destruído: eis aí intervenção divina. Deus respondeu a oração de Rick logo em seguida ligando-o a Otis.

É um sistema parecido com o das tragédias gregas e é sem dúvidas uma tragédia cristã presente na cultura americana por Robert Kirkman, que ganhou força mundial.

A interconexão de todos os fatos

Há nesta temporada uma hierarquia do divino sobre o terrestre. Para tal, há uma separação entre o que é papel de Deus e o que é do homem.

Nem mesmo os ataques de zumbis que são aparentemente mera casualidade, não o são na realidade conforme sua aparência sugere.

Todos os eventos desencadeados seguem o pedido de Rick a Deus, que lhes dê um caminho, alguma coisa para não perder a esperança: o caminho é a casa de Hershel, a esperança é a capacidade que eles descobrem ter para lidar com os problemas.

Quando T-Dog está com problema de saúde, o remédio que o salva é o de Merle Dixon, que estava com Daryl. Merle na última temporada o havia humilhado e tudo que T-Dog sentia por ele era desprezo, o sentimento não muda, mas é o favor involuntário de Merle que salva a vida do rapaz.

Há uma chave psico-teológica na oração de Glenn no terceiro episódio, a cristã Maggie lhe diz: “somos nós que teremos que resolver estes problemas“, ou seja, a solução de Deus não foi fazer algo para o grupo, mas lhes dar as ferramentas para que façam.

As inúmeras indicações espontâneas que fazem Shane rever sua consciência lhe dão dois caminhos: a confissão e a negação. O personagem opta pela segunda, mas tais indicações são todas intervenção divina dando-lhe chance para que não pereça: logo que chega em casa, perde o uniforme da polícia (indica que ele já não é autoridade), as únicas roupas que ganha são as que Otis usava, o homem que ele assassinou, o discurso no funeral de Otis tem que ser feito por ele e quando ensina Andrea a atirar tem que abordar o tema, de como é tirar a vida de alguém.

Hershel lista para Rick no quarto episódio todos os eventos improváveis que o conduziram até o presente momento, como evidências de que quem está no comando é Deus. A questão desta citação implica na intenção do autor, pois foi ele quem a escreveu e portanto está, necessariamente, consciente da questão envolvida. Rick Grimes demonstra as mesmas resistência e incompreensão à vontade de Deus que os profetas dos Velho Testamento bíblico, que não esperavam pelo chamado.

No mesmo episódio, dentro do poço preso com um zumbi, Glenn clama a Deus em seu desespero, momentos depois, ao chegarem na farmácia, o mesmo Glenn lê na porta um aviso que diz “Deus os abençoe” e é neste local que Maggie e ele se envolvem pela primeira vez.

A flor que Daryl entrega à Carol contém um significado de intervenção divina para sustentar seu espírito dando-lhe forças, como quem diz: “Eu estou te vendo“.

Hershel considera que os zumbis ainda podem ter alguma chance de cura, o grupo não foi enviado apenas para encontrar Sophia, mas para mostrar-lhe também a verdade. Ele não tem piedade do grupo, acreditando que pode expulsa-los, mas quando perde a propriedade entra na pele de todos, para aprender a ter piedade. Maggie tenta despertá-lo sendo clara ao citar direto da bíblia o mandamento do amor ao próximo, o que o põe a pensar mas para o qual ele resiste.

Daryl encontra mais flores e mostra-as a Carol, entendendo nelas um sinal divino de que deve manter-se na busca por Sophia, com isto encoraja a mãe angustiada.

Quando Dale e Shane discutem por causa das armas, o velho diz ao policial que já está espiritualmente morto, que seu lugar é no novo mundo em meio aos zumbis. Tal fato se confirma quando ele abre o celeiro e mata todos por pura sede de sangue.

Carl afronta Carol e diz-lhe cruelmente que o céu não existe, desrespeitando os sentimentos dela por sua filha. Em seguida encontra um zumbi e se vê diante da morte.

Dale não leva em conta a natureza do espírito do criminoso e o quer manter vivo, o evento desencadeado por Carl acaba por colocar sua vida nas mãos de um zumbi. Ele que estava contra a morte de alguém que colocaria a vida do grupo inteiro em risco, acaba por sentir na pele o que propunha aos demais.

Shane e Rick eram como irmãos. Quando Shane força a situação até o limite, Rick e ele lutam até a morte. Rick clama a Deus, mas a morte de Shane parece ter profanado o lugar, que é atacado por uma horda imensa de zumbis, que até aquele momento ficavam longe, alheios à fazenda.

Tudo termina onde começou, no mesmo ponto da estrada e a cadeia de coincidências só pode ser explicada pela intervenção divina e a fé.

Conclusão

A proposta desta temporada é a fé e ela cumpre isto com dignidade de valor estético e obra histórica que deveria ser reservado como patrimônio cultural nas bibliotecas do Congresso americano, ao lado de Star Wars e a Trilogia dos Dólares.

Uma nota 10,0 é o mínimo que posso conceder.

Parto em breve para a terceira temporada.

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