Ana acordou mal, com pontadas de cólica, virou para o lado na cama e beijou Roger:

– Tive um pesadelo.
– Me conta… – espreguiçou o policial.
– Primeiro ouvi gritos, depois tiros, então você me pediu para olhar o calendário, mas nas folhas não havia mais nada escrito, elas estavam vermelhas.
– Foi só um sonho ruim. Eu vou tomar um banho e vou pro campus, fica tranquila.

Em tempos de tensão política no país diversos grupos de ativistas de linhagens ideológicas ajuntaram-se, tanto pela internet quanto no real, nos campus das universidades.

Os vídeos e textos trocavam farpas, as ruas trocavam berros, gritos recheados de palavras de ordem ecoavam nos manifestos.

Pela primeira vez viu-se manifestações a favor do governo, um evento histórico e louco, sem dúvidas, mas o Brasil era palco destas figuras.

Não havia entendimento entre esquerda e direita. Não havia entendimento dentro da própria esquerda. Não havia entendimento dentro da recém surgida direita. Não havia entendimento.

Alguns nomes ficaram conhecidos na internet pelas redes sociais, entre as militâncias e ativistas. Como samurais que protegiam as virgens no Japão feudal, os ícones defendiam a honra das ideias que adotaram, numa relação de amor e ódio tão profunda que a irracionalidade se tornara o pavimento político da juventude.

Pela grande estrada dos bits que subiam calorosos vídeos para sites, um direitista chamou outro para briga. Um magricelo anarco-capitalista que adorava jogos de tabuleiro e vídeo games, seu nome era João e gravou um vídeo inflamado com o coração batendo na garganta desafiando o seu adversário conservador para um debate. Júlio por outro lado, o conserva, era um aguerrido estudante católico, que encarava qualquer um e aceitou o debate que se realizaria em São Paulo.

A universidade cedeu o espaço, as militâncias, os ativistas e até fãs, de ambos os lados se firmaram em seus postos. O auditório lotara naquela terça-feira que prometia um duelo digno do Coliseu.

A pauta, sendo ambos do mesmo lado do espectro político era se a sociedade precisava de um estado mínimo, defendido pelo flanco dos conservadores ou se o correto seria nenhum estado, conforme os anarco-capitalistas.

Jaqueline, a irmã de 17 anos de João foi com ele. Apesar de não gostar de política e sonhar em ser veterinária, empolgou-se muito com a ideia de estar pelo menos por alguns instantes naquela faculdade, que era onde sonhava formar-se um dia. Boa moça, dedicada aos estudos, alheia às chamas flamejantes que incineravam almas com seus nobres ideais, ela passearia pelo campus enquanto seu irmão debatia, sem se intrometer em nada. Prometia “ficar boazinha e não se meter” se a levasse e diante desta promessa, vendo o brilho nos olhos da irmã, João topou.

Do lado de fora um grupo de esquerda reuniu-se para assistir e ouvir aquela inovação: direita contra direita. Os rapazes e moças, de coletivos negros, grupos feministas, ativistas dos direitos dos animais e da liberação da maconha, disputavam pescoço a pescoço, para acompanhar a dialética bélica que se desenvolveria.

O reitor, doutor Pedro, percebeu os ânimos inflamados e acionou a polícia militar, solicitando que ficassem de olho, pois poderia terminar em violência.

Roger foi até sua sala, era seu policial favorito, aquele que sempre resolvia tudo com serenidade, evitava encrencas a qualquer custo e sempre carregava um sorriso orgulhoso no rosto, pois Ana, sua esposa, estava grávida.

Os ativistas pela liberação da maconha eram liderados por Walter, um jovem branco de olhos fundos e cabelos castanhos encaracolados. Waltinho Marola, como apelidaram seus companheiros, encontrou duas horas antes seu conhecido Jânio, um ex-presidiário que vendia drogas para a molecada. A ficha de Jânio era longa, fora preso três vezes por assalto a mão armada, um homicídio, quatro agressões e um assassinato dentro da prisão. O Aranha, como era chamado, moreno com cabelo tingido de loiro, muito magro, recebera este apelido por uma tatuagem de teia de aranha que tinha na mão esquerda, ele tinha marcas de queimadura e cortes pelos braços, havia fugido na última rebelião e estava foragido da polícia, mas ninguém sabia muito bem sua história, para cada um ele narrava uma trajetória diferente e superficial. Alguns achavam que ele vinha de Goiás e era músico, outros que ele vinha do Acre e era mecânico e ainda para alguns dizia que era pastor da Universal na Paraíba. Jânio fazia um pouco de tudo, era trêmulo e imprevisível.

A tensão política instalada fazia com que tudo sempre sobrasse para os policiais: se agissem, eram fotografados e acusados de violência pela esquerda, e se não agissem eram cobrados pela direita. Roger agia dentro das regras, parecia que havia decorado o código de ética e era vivido, ele sabia o que esperar.

Marola encontrou Aranha no bar na frente da avenida.

– Fala moleque!
– Fala Aranha…
– Vou pegar só duas parangas hoje, uma de remédio pra depois.
– Que tá acontecendo ali? Essa molecada amontoada…
– Tem uns boy vindo trocar ideia, uns comédia de apartamento.
– Mas por que os homi tá chegando?
– O reitor pediu pr’eles ficarem de olho. A coisa pode esquentar. Isso vai por umas 2 horas ainda.
– E não vai ter polícia em lugar nenhum mais?
– Sei não. Acho que vão focar no salão ali.
– Haha! Cês tão de brincadeira! – riu Jânio.

Walter pegou o que foi comprar e saiu.

No auditório o debate começava, mas tão logo foram apresentados, João pediu a palavra, tomou seu microfone e questionou:

– O que a polícia está fazendo aqui?!
– Ordens da reitoria. – explicou o mediador.
– Podem sair seus cães! Capangas fardados malditos!

O auditório riu, ninguém levou aquilo a sério e neste momento João conquistara a simpatia dos ativistas da esquerda que se aglomeravam.

Júlio defendia que o estado é necessário e que começa justamente pela instituição da polícia, que assegura a propriedade e protege a vida num estado de direito.

João contra-atacava afirmando que as drogas geram demandas e que cada um deveria defender seu patrimônio com suas próprias iniciativas.

O debate se concentrou sobre a instituição da polícia e João a cada novo argumento ridicularizava os policiais, chamava-os de inúteis, bandidos e capangas.

Ana precisava ir a um médico naquele dia e sua mãe a acompanharia, como era caminho resolveram esperar no estacionamento da faculdade, pois faltava apenas uma hora para o fim do expediente e Roger voltaria junto para casa. Ela sentada no banco do passageiro alisava sua barriga e pensava em nomes para a menina que o casal esperava, conversava com sua mãe sobre como seria sua personalidade, e dizia que ela finalmente seria avó, para esperar que a talvez Catarina, ou Mônica, ainda a chamaria de vovó.

O clima entre João e Júlio esquentou com a agressões de João e o debate de ideias se tornou uma troca de elogios como “seu filho da puta“, “seu canalha“, “seu merda” e Júlio levantou disposto a quebrar a cara do adversário que não se fez de rogado.

Roger entrou no meio dos dois e levou uma cuspida na cara de João.

– Tirem esse verme fardado daqui!

O tumulto contagiou a platéia e a PM teve que entrar no meio, antes que algo pior acontecesse.

Roger limpou o rosto, encarou João e disse que estava cumprindo seu trabalho, para o rapaz se acalmar.

Jaqueline concluiu sua caminhada, tirou todas as suas dúvidas, leu os murais, tomou notas em um caderno e já havia decidido-se a entrar naquela faculdade, de qualquer jeito. Ela seria a melhor veterinária que São Paulo já havia conhecido e sorte do cachorro que fosse atendido por ela.

A irmã de João resolveu tirar sua última dúvida: o preço do estacionamento e dirigiu-se determinada naquela direção.

Curioso, o senhor que atendia a guarita correu até o campus para ver o que estava acontecendo e Jaqueline não encontrou ninguém para informá-la sobre mensalidades, diárias, permanência e etc, foi então que viu Ana no carro estacionado próximo da entrada, nas primeiras vagas e decidiu perguntar para as mulheres no carro, se tinham alguma informação.

Do outro lado da rua, Aranha disse para o balconista no bar:

– A ocasião faz o ladrão! Haha! – e saiu em direção ao estacionamento.

Seu mundo naquele instante estava livre da polícia, era fazer a fita, quantas quisesse no silêncio, sorrateiro e sumir.

João empurrou com desprezo Roger e foi se sentar de volta.

Júlio dera o debate por encerrado temendo o que poderia acontecer com toda aquela gritaria que o auditório se tornara, mas era tarde. Alguém jogou alguma coisa no meio e acertou a cabeça de um ativista inflamado, em questão de segundos a porrada comia solta no auditório e nada mais podia-se ouvir.

No estacionamento, o Aranha chegava para tecer sua teia e precisava ser rápido. O primeiro carro que viu dando sopa foi o da grávida Ana, que conversava pelo vidro com a jovem Jaqueline. Seu alvo estava decidido.

Entre as mulheres o assunto havia fluído, Ana já ria falando do nome da filha e Jaqueline sobre seu feliz futuro e sua provável clínica veterinária.

Aranha aproximou-se do carro já de arma em punho, andando torto de drogas na cabeça, rendeu as garotas e mandou passarem tudo. O senhor da guarita voltava e os avistou, ele entendeu o que estava acontecendo e gritou com o bandido. A teia estava por aumentar. Fora de si ele chamou Ana de vadia e deu um tiro em sua cabeça. Apontou a arma para o outro banco e atirou em sua mãe, que gritou aterrorizada. Pegou Jaqueline pelo pescoço numa gravata, atirou na direção do guarda e a saiu arrastando.

Jaqueline estava em estado de choque obedecendo roboticamente seus comandos.

Quando os policiais conseguiram separar os dois lados, o guarda do estacionamento entrou no auditório e foi na direção de Roger, eles eram conhecidos. Roger havia tomado socos e pontapés de João e seus seguidores. O guarda o abordou e disse que não fosse para fora, o coitado não sabia o que fazer.

Uma moça do campus havia filmado a cena do Aranha fugindo fora de si com Jaqueline e o vídeo já bombava na internet.

Dentro do auditório alguém procurou João e lhe mostrou a filmagem.

O anarco-capitalista entrou em pânico e saiu correndo para fora atrás da irmã, e com ele todo auditório.

A avenida estava forrada de polícia e Jaqueline com a arma na cabeça.

Aranha tinha a vantagem da refém.

Roger pensou em aproximar-se dele para negociar e foi pelo estacionamento. Quando viu seu carro com as marcas de sangue, sua esposa e sogra mortas, algo morreu dentro dele.

Ele passou a caminhar na direção do Aranha com a arma em punho, surdo como num filme em câmera lenta. Havia uma bala com o nome do traficante. Todas as balas tinham seu nome.

Aranha o viu caminhar e desesperou-se, empurrou a garota em sua direção, deu-lhe um chute nas costas e atirou na direção de Roger.

Roger segurou Jaqueline a empurrou para o lado, sentiu o impacto das balas o acertando e com a franqueza de quem nada mais tem a perder puxou o gatilho quantas vezes conseguiu.

Atrás do Aranha havia um calendário de promoções da concessionária, mas não era mais possível ler a data, o vermelho de seu sangue agora cobria os números.

Ana e Roger encontraram-se no mesmo dia no céu, junto com sua mãe. Do alto viram Aranha escapar sangrando e ser socorrido.

Nos dias seguintes Jaqueline ganharia um presente amargo, uma linda cadeira de rodas pelo tiro que levara na coluna, tornando-a paraplégica. A jovem sobreviveu, mas seus sonhos morriam ali.

Naquela semana João ficou mais famoso que esperava a vida toda, o drama de Roger que havia salvado Jaqueline era notícia na mídia toda, mas as cuspidas que João lhe dera no auditório foram encaixadas numa montagem por algum internauta.

A fama de João chegou a tal ponto, que ele só podia andar nas ruas com segurança policial.

O debate de ideias tem um limite: a realidade.

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