Há menos de uma semana escrevi a crítica da segunda temporada de The Walking Dead. Estes textos todos, além das críticas habituais de cinema que fazem parte do meu estudo da origem e desenvolvimento do fenômeno cultural zumbi que, diferente dos vampiros, lobisomens, múmias, bruxas, deuses, magos, elfos, anões, orcs, trolls, androides, extraterrestres e demais personagens da literatura fantástica, repentinamente tomou conta do imaginário popular e ganhou proporções mundiais. Eu pergunto, por que zumbis? Afinal são as criaturas mais simples possíveis, não vieram de outras galáxias, não possuem circuitos com inteligência artificial, não usam magia de segredos ancestrais, não nasceram nos subterrâneos inimagináveis do Hades, pelo contrário, são mortos que insistem em caminhar, famintos e violentos, isto e só. Então porque eles? A resposta para esta pergunta é complexa, mas os motivos passam por religião, pelo impossível científico, pelo terror do inexplicável, pela alta possibilidade de contextualização numa leitura poética com personagens do nosso cotidiano, entre outros.

Nisto vê-se que o seriado de Robert Kirkman é diferente de seus antecessores e alcança genialidade. Em O Banquete, Platão define “genialidade” como alguém inspirado que causa inspiração, é segundo sua explanação alguém que é capaz de ouvir os deuses e transmitir seu recado aos homens, é o fio condutor entre o divino e o terrestre, e é a esta genialidade que me refiro aqui.

Kirkman não criou um universo extremamente parecido com o nosso para depois inserir nele mortos vivos, não, pelo contrário, ele trouxe os zumbis para nossa realidade. Os personagens de The Walking Dead não são super-heróis com capas e martelos eletrificados, são civis comuns, são eu, você, seus vizinhos e parentes, pessoas simples, que de repente vêem o mundo transformar-se numa selva, uma muito parecida com o que já é agora. Afinal, as pessoas não mudaram tanto além de suas aparências, pois o ódio e o desejo de consumir o que os outros possuem continuam presentes nos putrefatos caminhantes em decomposição.

A obra de Richard Matheson criou um herói cientista, dotado de altíssimos níveis de ética e uma esperança infalível. Na obra de George Romero foram apresentados trágicos grupos sem heróis, niilismo puro. Nenhum dos dois é real, não somos tão infalíveis quanto Robert Neville e nem tão estúpidos quanto os personagens de Romero. Somos Rick Grimes, Carol Peletier, Daryl Dixon e Glenn Rhee. Somos errantes esforçados buscando um bem que desconhecemos, humildes mortais que se não tomarmos cuidado acabamos contaminados pelo ódio contra tudo que nos cerca, contra empregos que odiamos para comprar coisas que não precisamos, diria Kubrick. Nestes simplórios ingênuos e falíveis encontramos nosso eu e não conseguimos mais soltar a tela: “solte o próximo episódio logo Kirkman!“, berramos em silêncio. É isto que The Walking Dead é, um retrato nosso desbotando num quadro horrível que gostaríamos de não gostar de ver. Somos nós.

A segunda temporada teve como tema a fé e foi excelente explorando o tecido de coincidências que configura a relação entre Deus e o homem. A temática desta terceira temporada é a liderança. Quando Rick na última temporada encerra dizendo “isto não é mais uma democracia“, está na verdade enunciando que a pauta será amplamente abordada.

O grupo encontra uma penitenciária que foi tomada por zumbis. Rick e os seus esforçam-se para entrar, limpar o local e torná-lo seguro para que possam sobreviver e para que Lori grávida possa ter sua gestação em paz. O objetivo é este e apesar de muita dificuldade a necessidade os impele e faz o árduo empenho valer a pena.

Enquanto isso, não muito distante surge uma figura caricata: o “governador“, um sociopata populista que cuida de uma pequena cidade chamada Woodbury. Ele tem diversas faces, mas duas tem destaque: uma de santo bondoso que discursa para o povo cheio de boas intenções e outra do demônio ambicioso e assassino que se mostra apenas em seu mundo particular, e para um pequeno círculo de mercenários contratados que vivem sob o medo.

O problema é que o modelo de liderança proposto por Rick é exatamente o mesmo do oferecido pelo governador, mas Rick terá que aprender que diferente do governador, ele não é um político.

O governador descobre que a prisão foi ocupada por um grupo e decide que eles podem ser um perigo para a cidade. Implacável, ele acredita a sua cidade só pode estar segura se ninguém souber dela: quem entra em Woodbury tem duas escolhas, ficar nos seus domínios ou morrer, mas só descobre quando já é muito tarde.

O braço direito do governador é o cientista Milton Mamet. Este relembra mais uma vez Robert Neville de Richard Matheson, honrando a obra que desde a literatura de 1954, deu origem ao fenômeno zumbi no cinema.

O governador possui inúmeras semelhanças com O Príncipe do Maquiavel: ele quer conquistar e manter o poder pelo poder e a qualquer custo, também se esforça para ser amado e temido, acredita que os fins justificam os meios (conforme Maquiavel expôs em A Mandrágora), assim como em O Príncipe, Maquiavel afirmava sonhar com fundar seu próprio principado o governador acredita estar reiniciando a civilização e também cita os romanos como exemplo, o que Maquiavel fez não somente em O Príncipe como em Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio.

Este é um adversário formidável e o primeiro inimigo humano de verdade que demonstra que a série não pretende encontrar cura para os zumbis, mas restaurar a humanidade de alguma forma.

Até esta temporada, minha avaliação sobre o elenco é que todos são excelentes, com destaque para Andrew Lincoln como Rick Grimes, Norman Reedus como Daryl Dixon, Chandler Riggs como Carl Grimes, David Morrissey como O Governador e Scott Wilson como Hershel Greene. Não há qualquer demérito no time de atores inteiro, nem figurantes, nem coadjuvantes, todos são absolutamente fantásticos e imersos na trama, absorvem a atmosfera depressiva e angustiante, a vivem e a transmitem, nos fazendo sentir com eles suas aflições.

A fotografia prossegue com a mesma qualidade e a edição ganha um aspecto diferente de boa parte dos outros seriados, atualizando as introduções com easter eggs que nos fazem buscar, onde e quando aquilo acontecerá, dotando de uma dimensão histórica a narrativa, de tal forma que posiciona o expectador num tempo futuro ao seu próprio, como quem lê uma história que aconteceu há milênios e que a mantém como memória da humanidade, é como se estivéssemos no ano 3000, lembrando algo.

Para a música é necessário dizer algo a mais aqui: Bear McCreary está entre os mais sensíveis compositores da atualidade.

The Mercy of Living tem o poder de acabar comigo, quando ouço sinto como se estivesse morrendo de dentro para fora e não fosse deixar memórias, como se estivesse vivendo uma vida sem sentido, como se o mundo tivesse acabado e eu fosse o último habitante, perambulando e tomando notas, que de nada serviriam num futuro.

Este mergulho só é possível com um compositor de verdade.

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Questões filosóficas

  • 1º episódio: a fé em si, o valor do trabalho.
  • 2º episódio: a relação confiança e mérito, e os limites da fé na adversidade.
  • 3º episódio: o princípio de uma civilização.
  • 4º episódio: o limite da confiança e o nascimento como continuidade da vida.
  • 5º episódio: a ética científica, a ética da publicidade, o valor da amizade e a ética do entretenimento.
  • 6º episódio: o exame de consciência.
  • 7º episódio: a coincidência e o destino.
  • 8º episódio: a lealdade, o direito e a recusa em enxergar a realidade.
  • 9º episódio: a relação família e confiança, o limite da tolerância com os erros alheios e a culpa.
  • 10º episódio: como seus atos te definem e o preço da culpa.
  • 11º episódio: o peso da responsabilidade e a noção de lar.
  • 12º episódio: as consequências da negligência com a verdade, a vergonha da auto-piedade e o problema da autoconfiança excessiva.
  • 13º episódio: a capacidade de ver o mal, o problema da ingenuidade e como lidar com a morte de quem amamos, o valor de um contra o valor de todos e o limite da lealdade.
  • 14º episódio: a psicopatia, o sadismo, o preço da resistência à verdade e do orgulho.
  • 15º episódio: a fraqueza, a traição, o amor em meio ao caos, a redenção e o bem maior.
  • 16º episódio: a impiedade, o sadismo, a loucura e o aprendizado.
  • Recorrentes: a troca da liberdade pela segurança, o princípio de uma civilização e a lealdade.
  • Zumbis: nesta temporada a visão sobre os mortos vivos ganha uma nova dimensão, a de mal inconsciente. O contra-ponto para mensura-los dialeticamente é a maldade manifesta pelo governador e alguns de seus seguidores, com destaque absoluto para ele mesmo. Os zumbis são ainda de fato um perigo, mas são vistos mais como um problema casual, enquanto a maldade dos homens ambiciosos é um problema mais importante e agora emergente. Em uma conversa nos últimos episódios Glenn compara homens maus aos zumbis, afirmando que sempre houveram e sempre haverão más pessoas.

Questões políticas

Primeiro episódio

O primeiro episódio apenas enuncia uma temática de disputa territorial.

Segundo episódio

Quem é de fato o dono da propriedade? Quem lutou para conquistá-la ou quem chegou primeiro? Os diferentes tipos de crimes e criminosos.

Rick e o grupo encontram uma penitenciária tomada de zumbis, eles tomam o território ao custo de muito esforço. Lá dentro encontram bandidos que tentam matá-los. Alguns são assassinos, mas nem todos são.

Terceiro episódio

Desarmamento: surge o “governador“. Ele controla as armas e dá as ordens num teatro de persuasão política.

Michonne entende a proposta e percebe que toda oferta que ele faz à ela e sua amiga Andrea terá cedo ou tarde um preço que não foi previamente anunciado. Andrea não percebe e se deixa levar pela oferta.

O modelo proposto pelo governador implica que o princípio de uma civilização resida numa troca na qual ele oferece segurança e recebe o poder.

Quarto episódio

O número de chances que alguém deve ter antes de uma sentença condenatória irreversível.

Os criminosos que sobraram querem uma chance de convívio com o grupo, Rick se reúne com os seus e os ouve.

Quinto episódio

O controle estatal da mídia: o governador controla o fluxo de informações e o fluxo de emoções.

O fluxo de informações mantém controlando quem entra e sai, quem fala ou morre e quem sabe ou não os segredos sórdidos. O fluxo de emoções por sua vez, ele mantém com entretenimento que desafia a ética.

Sexto episódio

A verdade por trás das aparências: Michonne não se deixa enganar pela sedução do governador. Ela parte de seus domínios e com isso ele manda seus homens para matá-la.

Sétimo episódio

A proteção da propriedade e o exercício do poder: o governador captura Glenn e Maggie, e os tortura até dizerem o endereço da prisão onde o grupo está. Ele deseja poder e acredita que a única maneira de manter-se a salvo é não deixando que ninguém saiba onde fica sua cidade.

O direito: ressurge a noção de crime numa terra sem lei. Com a figura do governador e uma cidade, na qual os cidadãos trocam sua liberdade por segurança, os motivos das disputas deixam de ser por meras desavenças pessoais e passam à esfera da conquista e manutenção do poder. Este advento coloca homens contra homens, mais perigosos inclusive que os zumbis. Assim, a manutenção da sociedade requer o reconhecimento de outras sociedades que estão fora dos domínios murados do território. Há não apenas uma preocupação com as relações exteriores, como as garantias para os “cidadãos” de fora.

Além de erro e acerto, certo e errado, noções de ética, agora nos relacionamentos entre todos, as preocupações de convivência começam silenciosamente a restaurar o direito.

Oitavo episódio

Relações exteriores e estado de guerra: Rick e alguns do grupo vão salvar Glenn e Maggie, mas para fazer isto precisam iniciar uma guerra. É semelhante a situação de um estrangeiro que comete crime em outro solo e está sujeito as leis daquele estado. Não há como livrá-lo sem causar uma guerra.

A fragilidade da democracia pela manipulação da massa: o governador sequestra Daryl, reúne a população, faz um discurso contra o “terrorismo“, ganha a opinião pública da massa inflamada e usa-a contra Merle. Não é a verdade, mas ele aproveita-se do momento.

Nono episódio

Racismo: a pauta é trazida à tona com leveza, piadas e muita descontração.

Família: as definições de família são sutilmente abordadas, sem qualquer pretensão, com o retorno de Merle.

Guerra: a diferença de mentalidade de um estado pacífico para uma situação bélica.

Fronteiras: um governante tem o dever de fechar as fronteiras em caso de guerra, impedindo os cidadãos de entrarem e saírem, ou isto lhes fere os direitos?

Com a situação de guerra entre os dois grupos, que ganharam complexidade de cidades, o governador manda fechar as fronteiras de sua cidade e impede o trânsito de seus cidadãos.

Daryl precisa escolher entre permanecer com o grupo ou com seu irmão, é uma abordagem simbólica e uma contextualização do termo família entre o uso coloquial e o literal, em uma disputa de pesos nos significados.

Décimo episódio

Defesa de um território: o que vale a pena? Fugir ou enfrentar?

Liderança: o peso que um líder deve aguentar e a importância da união.

O governador não quer apenas ter sua cidade próspera, ele deseja que ela seja a única. Seu plano não é tomar a prisão, mas infestá-la de zumbis para que não tenha nenhuma vizinhança. Ele ataca, arromba os portões e infesta o lugar.

Rick não está bem, perturbado mentalmente pela soma de acontecimentos, o grupo sem liderança, todos assustados, atordoados e separados. É neste momento que o ataque acontece.

Décimo primeiro episódio

Liderança: com o peso de todas as decisões nas costas, Rick é forçado a refletir sobre sua posição. Ele é cobrando por Hershel sobre isto ser ou não uma democracia.

A formação de um exército: o governador começa a recrutar homens, mulheres e adolescentes capazes para uma guerra.

Diplomacia e espionagem: Andrea visita a prisão e descobre que não haverá paz entre os grupos. O grupo de Tyreese chega na cidade do governador e possui informações sobre a prisão.

Décimo segundo episódio

Liderança: o valor da integridade mental de um líder.

Rick está mal com a morte de Lori e todo mundo pesando em suas costas, isto afeta o grupo e a segurança do local no qual todos dependem dele. Foi preciso encontrar Morgan para perceber que seus problemas não são tão grandes quanto ele pensa e que se insistir em auto-piedade poderá afundar-se, fazendo com que todos do grupo paguem por sua negligência.

Décimo terceiro episódio

Diplomacia: o papel de um embaixador. Andrea marca uma reunião entre Rick e o governador, na esperança de uma conciliação com uma proposta de paz. O desenvolvimento é um impasse e a conclusão uma proposta indecente, o governador pede Michonne em troca da paz.

Décimo quarto episódio

Guerra: decididamente haverá uma guerra. Rick sente-se tentado com a proposta de entregar Michonne, o governador por outro lado planeja exterminar o grupo todo.

Décimo quinto episódio

Lealdade: Rick fraqueja e concorda em entregar Michonne, em seguida se arrepende e desiste da ideia. Merle rapta-a escondido, sabendo que Rick não o fará e a leva por sua conta, mas também arrepende-se. Merle torna-se um sabotador de estado, um espião.

Tipos de estado: Rick sente o peso de tomar decisões sozinho e restaura a democracia.

Décimo sexto episódio

Guerra: o governador conta mentiras para persuadir o povo e levá-los à fúria contra o grupo de Rick, a luta finalmente acontece, mas descontente com o resultado Phillip (o governador) surta e assassina seus próprios homens após a batalha.

Questões teológicas

Há uma certa justiça divina em curso novamente. T-Dog defende que os assassinos devem ter chance de conviver com o grupo, mesmo depois de terem tentado assassina-los. Pouco tempo depois de seu pedido, ele é vítima de um mal que da mesma forma aflige todo grupo.

Andrea também recusa-se a ver o mal do governador e paga o preço. Primeiro deixa-se seduzir por suas propostas e depois, sabendo do perigo que representa para todos, torna-se complacente sustentando uma vã e consciente esperança de que mude.

Rick se nega a dar atenção à Lori por tudo que se passou na última temporada. Eles não estão bem. Inesperadamente ela morre e a consequência em sua consciência quase o enlouquece.

Merle encontra uma chance de redenção. Daryl e ele discutem, o irmão mais novo lança-lhe em face que a culpa de tudo quanto o mais velho sofreu, foi dele mesmo, como consequência de seus atos. Merle reconhece que não tem mais para onde ir ou quem contar. Não pode voltar à cidade do governador, não é bem aceito no grupo de Rick e fora destes dois grupos há apenas solidão e morte. Hershel encontra-o na prisão e fala-lhe sobre seu sofrimento à luz da Bíblia.

A negligência de Morgan com a realidade na primeira temporada, também custa-lhe a vida do filho.

Rick vê sua ex-mulher em seu trauma, ele acredita em sinais, mas não vê aquela que será sua mulher em sua frente, este sinal passa desapercebido.

O sofrimento de Rick com a perda da esposa por um fio não o enlouquece, ele recebe ajuda do alto para acordar de seu problema: primeiro o que houve com Morgan, em seguida o exemplo do governador. O primeiro enlouqueceu tornando-se uma ferida aberta e carregando o mundo nas costas. O segundo fechou-se em seu mundo, obstinado e ressentido, indiferente à qualquer vida. Morgan e o governador são figuras opostas na dialética da loucura, e são os exemplos trazidos à contemplação de Rick.

Andrea desperta para a realidade, mas já é tarde. Ela alerta o cientista Milton, Sasha e Tyreese. Milton recusa-se a enxergar a necessidade de tomar alguma atitude. Sasha e Tyreese escutam com atenção. Tanto Andrea quanto Milton serão punidos por suas escolhas tardias e recusas.

Quando Rick fraqueja, em outro lado Hershel lê o Salmo 91 na Bíblia para sua família.

Glenn tem a chance de perdoar Merle e endurece seu coração, mas Merle encontra sua redenção sacrificando-se pelo grupo.

Carl mata um soldado inimigo que se rendia, mas acredita ter feito a coisa certa para não dar chance do inimigo de voltar e realizar um novo ataque.

Conclusão

Esta temporada de The Walking Dead promete tratar de liderança e o faz com maestria, a proposta foi tratada com tal zelo que nada mais resta complementar. Se ditadura ou democracia e as qualidades de homens a frente de um povo, está tudo ali.

Uma nota 10,0 é o minimo que posso conceder.

The Walking Dead – Bear McCreary – The Mercy Of The Living

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