Uma das coisas que mais demorei para aprender foi a criação de um bom personagem e não, não tive um professor. Aprendi na raça, lendo e assistindo, até que um dia, depois que eu entendi os tipos de personagens acabei por encontrar materiais diversos que repetiram aquilo que eu já havia entendido.

Vou sintetizar aqui estas informações sem a pretensão de esgotar o assunto, apenas fornecer um pavimento para que você, sozinho consiga desenvolver os seus próprios personagens, mas antes vamos estabelecer algumas regras:

Primeira regra: esqueça as fórmulas prontas. Abandone impiedosamente Joseph Campbell e Vladimir Propp, pois embora suas teorias estejam corretas, a sua narrativa não deve se adequar aos seus trajetos previamente estabelecidos, ou então, não será uma obra, mas um exercício de redação. Sua missão é descrever algo que está dentro de você, em seu mundo imaginário, conforme o impacto que causa em você.

Segunda regra: não tem segunda regra. Só a primeira mesmo.

Vou partir do princípio que você já desenvolveu um cenário em sua mente e que já o descreveu, para situar o seu leitor, mas seja como for, se você é seguidor deste site, saiba que em breve falarei a respeito de criação de cenários.

Existem inúmeros arquétipos de personagens prontos que você pode se servir, mas que se usá-los, pode correr o risco de escrever algo profundamente desinteressante. Ninguém gosta de pensar num “homem de negócios“, “dona de casa“, “líder de torcida“, “nerd do colégio“, como personagens pois, isto serve para identificar um grupo, algo como uma espécie, mas nunca um personagem a ser entendido.

Para que alguém goste de verdade dos seus personagens eles devem obrigatoriamente possuir uma alma e isto significa que devem ter determinados valores, e para tanto isto requer que tenham uma história. É o que chamo de “dimensão histórica do personagem“.

O primeiro passo, quando se cria um personagem é geralmente pensar sua aparência, altura, peso, forma física, cabelo, rosto, cor, indumentária e etc. Em seguida ou ao mesmo tempo, sua personalidade superficial, ou seja, seu humor, se é alguém contente, triste, atormentado, caladão, falastrão, cínico e etc, ou seja, como ele geralmente se comporta nas situações. O grande problema dos escritores que se empenham em criar seus primeiros textos é geralmente deixar claro como este personagem chegou a ser quem é, como ele se tornou assim.

É fácil dizer que um sujeito musculoso passou anos na academia, mas isto só diz respeito a sua aparência e pouco ou nada sobre sua personalidade. O leitor pode “deduzir” que ele é assim por seus próprios motivos e esta dedução pode estar perfeitamente errada. Por exemplo, ele pode imaginar que se trata de alguém fútil que cultua o corpo, ou pode pensar que é justamente o contrário, alguém muito dedicado em todas as áreas e que estar bem de saúde é uma delas. Acontece que a dedução do leitor é imaginação dele, por vezes até um juízo de valor errado, do qual você pode ser o culpado, pois você descreveu apenas a dimensão física do personagem, nada dizendo sobre sua personalidade.

Da mesma maneira não é difícil criar um personagem sempre alegre, ou sempre triste, alto astral, ou depressivo, ou ainda neutro, um tipo aéreo que está sempre distraído, mas isto é apenas a dimensão psicológica do personagem e extremamente superficial. Mais uma vez seu personagem pode ser mal interpretado. Um sujeito alegre pode ser visto como um bom amigo, como pode ser visto como um bobão e de ambas as formas pode não criar um laço emocional com seu leitor ou expectador (no caso do cinema, TV e vídeos em geral).

Seu personagem precisa de uma história, ele precisa ter nascido ou contado sua própria história em algum ponto da narrativa. Toda história é por definição uma sequência de acontecimentos que informarão ao leitor como o personagem chegou a ser quem é. Seu personagem precisa de “valores” que lhe forneçam substância de alma, para que seja inteligível.

Valor significa capacidade de atender uma necessidade.

Vamos supor que você crie um personagem cujos valores incluam a justiça. A justiça é a capacidade que ele tem de tratar a cada um conforme seu mérito. Ou então que seja alguém que entre os valores, seja forte, a força como valor é a capacidade de após discernir entre o bem e o mal, escolher o bem. Recomendo neste ponto uma rápida leitura e apreciação das “virtudes cardinais“, que podem ser de muita utilidade para seu esclarecimento.

Estes valores podem (e devem) ser manifestos em atitudes de seu personagem no decorrer de sua narrativa, porém, seria excelente informar ao leitor como elas surgiram.

Grandes narrativas que se tornaram HQ e depois filmes ou seriados, como The Walking Dead e Supernatural, e outras que nasceram do narrar a realidade como Criminal Minds, ou ainda um misto de ambas, como Lie To Me, podem ter seus personagens analisados deste ponto de vista que ofereço, decompostos em dimensões físicas, psicológicas e históricas, como elementos essenciais que ajudam o leitor a identificar os personagens na realidade.

A realidade é o ponto do qual você deve partir e retornar. Investigue por exemplo os heróis Marvel e DC, você verá que todos os grandes, tiveram seu início em algum exemplo real. O Batman por exemplo, foi inspirado em Theodore Roosevelt que foi o 26º presidente dos EUA. Teddy Roosevelt em 14 de fevereiro de 1884, perdeu Alice, sua primeira esposa, e Martha, sua mãe, tragicamente nas mãos de um criminoso.

Personagens como Rick Grimes de The Walking Dead são estereótipos com alma, um misto do policial honesto e justo, homem de família, mas que além do estereótipo possui uma alma e uma história. O mesmo se pode dizer dos irmãos Winchester, Sam e Dean, cujas histórias são contadas desde a infância. Já com o doutor Lightman de Lie To Me, a história é um misto do personagem real, o doutor Paul Ekman com as situações e cenários propostos nos quais ele precisa aplicar sua ciência. Em Criminal Minds, por sua vez, simplesmente todos os personagens são reais e foram mudados apenas seus nomes para preservar suas identidades.

A dimensão histórica do personagem, informa onde, quando e como ele aprendeu seus valores.

É importante ressaltar um dado de psicologia aqui: quando um evento se conecta com uma emoção, ele se torna uma memória e quanto mais forte a emoção do evento, mais enraizado no personagem é a memória, de tal forma que pode se tornar um traço de sua personalidade. Bingo! Eis aí o tio Ben do Homem Aranha dizendo: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades“, para ser assassinado por negligência e capricho do próprio Peter Parker que num momento de vingança por não ter recebido seu pagamento, deixou o bandido que assaltava seu patrão fugir. Também aí está o bandido assassinando os pais de Bruce Wayne, ainda criança no beco. Não é necessário dizer que Dean e Sam (Supernatural) vendo sua mãe queimar no fogo, presa no teto de seu quarto ainda criança e o agente Derek Morgan (Criminal Minds) sendo violentado sexualmente na infância, são exatamente este tipo de informação, que fazem o leitor entender suas jornadas.

Há um paradoxo terrível neste texto: eu digo que a primeira regra é esquecer as fórmulas prontas e em seguida sugiro uma fórmula. Se você não percebeu, provavelmente deve estar me odiando [com razão] agora. O que eu quero fazer aqui não é uma fórmula como a de Campbell, na qual o personagem necessariamente precisa passar por determinados processos previamente pensados para alcançar um determinado efeito, pelo contrário, estou informando uma necessidade inescapável para uma obra consistente (há outras, como o cenário e as situações, mas aqui concentro-me nos personagens). Não há fórmula para isto, há a necessidade. Por exemplo: Sam e Dean em Supernatural tem sua história contada nos primeiros episódios e relembrada frequentemente, a história de Rick Grimes de The Walking Dead é contada logo de início e o mesmo se passa com Batman e Homem Aranha, já o agente Derek Morgan de Criminal Minds tem sua história contada apenas na segunda temporada do seriado.

Quando eu digo para dotar o personagem de dimensão histórica, não me refiro especificamente a contar seu nascimento, a história de seus pais e etc, mas de como, quando e onde, ele adquiriu seus valores. A trajetória de Campbell explica como modificar valores, quando o herói precisa passar por algum dilema e para isto opta por algum sacrifício difícil que o faz aprender um novo valor, ou reforçar algum valor que já possuía. Isto no entanto, não diz nada sobre os valores que o personagem precisa para existir e é este ponto que quero tocar. A existência dos valores que define “para quê este personagem serve“.

Você não pode criar bons vilões sem antes saber o que é ser vil. Um bom conhecimento de virtudes e vícios ajuda muito a discernir quem é quem e por que. O mesmo se passa com heróis e neutros.

Existem algumas categorias de personagens que costumo discernir e que acredito que você já tenha em mente por instinto previamente: os protagonistas, os antagonistas, os coadjuvantes e os figurantes.

Protagonistas são os personagens centrais, geralmente é a história deles que estamos contando. Os antagonistas são os inimigos, não necessariamente personagens que os odeiem, mas que, de alguma forma tenham valores opostos aos do personagem protagonista. Para criar bons antagonistas eu recomendo entender o conceito “idem velle, idem nolle“, que é a própria definição de amizade: amar as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas.

Coadjuvantes são personagens que aparecem para aumentar a complexidade da trama. Eles são necessários quando os protagonistas e antagonistas não são suficientes para expressar o que o autor intenta. O protagonista e o antagonista, necessariamente, criam um processo dialético, eles vão lutar por alcançar resultados baseados naquilo que acreditam e como acreditam em coisas diferentes, baseados em valores diferentes, suas atitudes serão diferentes. No entanto, as vezes a coisa pode ficar realmente confusa e sem uma definição clara, é neste momento que o coadjuvante deve surgir, cumprir seu papel e em seguida pode ser afastado ou morrer. The Walking Dead usa inúmeros coadjuvantes para enriquecer a narrativa, Supernatural da mesma forma, o próprio Robin do Batman é precisamente isto e assim por diante.

Os figurantes são os demais seres que habitam o universo e que, inevitavelmente comprometem o desenvolvimento da trama. São os mais importantes componentes do cenário que definirão a dimensão social do personagem. Suponha que você esteja narrando a história de um jogador de futebol e que ele faça um gol magistral, a torcida é o figurante que se levanta e comemora. O gol maravilhoso é o ato do personagem, a torcida comemorando é o efeito social e isto o define neste momento como alguém “amado“. Nem sempre o figurante é uma massa, as vezes pode ser um mero desconhecido que observa a cena, por exemplo, um mendigo num beco que assiste um assassinato cometido pelo antagonista.

Enfim, acredito que, entendendo bem as dimensões de um personagem, você pode criar os seus próprios sem seguir fórmulas de ninguém, apenas cuidando para que sejam críveis. Se você for capaz de criar um personagem que possua as dimensões física, social, psicológica e histórica, já estará no caminho de uma narrativa capaz de despertar no leitor algo forte.

Encerro por aqui esta análise superficial e aceito quaisquer observações.

Um grande abraço. 🙂

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