Hoje visitei um cliente na Zona Sul de São Paulo. Na volta parei na Praça Ramos, no centro, para comer alguma coisa. Era por volta de oito e meia da noite já e chovia.

Entrei num mercado destes Extra Express, comprei amendoim temperado, bolacha de morango e dois sucos, um uva e outro laranja.

Ao sair resolvi ficar debaixo da cobertura, do lado de fora do mercado, esperando meu ônibus. Havia um mendigo, baixo, loiro e muito bem humorado que pedia coisas e fazia piadas. Parei e dei-lhe atenção. Ele me pediu dinheiro e neguei, mas dividi a bolacha com ele e dei metade do suco de laranja.

Ele me contou uma história maluca de que veio de Belo Horizonte para trabalhar, perdeu o emprego e ficou morando na rua. A história não batia, mas é perdoável. Cedo ou tarde estas figuras caricatas acabam se tornando personagens de meus contos e crônicas.

Antes de sair aproximaram-se três jovens prostitutas, extremamente mal educadas, acho que não escovavam os dentes há mais de uma semana. Um delas chegou perto de mim, fez um “charme” e disse para as outras duas “nossa, como eu to com sede…“, olhando para meu suco.

Fingi que não ouvi e elas foram embora xingando o segurança do mercado.

É óbvio que eu não daria atenção, imagine qualquer homem chegando no puteiro, fazendo charme e dizendo “nossa, hoje acordei com tesão…“, nenhuma delas iria dar uma foda só por camaradagem.

Meu ônibus havia chegado, o mendigo ficou rindo e eu fui embora. Já havia esperado sob aquela cobertura por quarenta minutos.

No caminho, quando o ônibus passava pelo Largo Paissandu, parou no ponto na frente da Galeria do Rock, com a velha Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos na qual vi uma cena que provavelmente não vou esquecer tão cedo: as inúmeras barracas iglu e seus respectivos moradores, debaixo daquela chuva, acompanhados de alguma estranha forma pela fé que não professavam. Icônico, não sei, havia algo naquela imagem que eu não soube decifrar.

Entre os recém chegados no ônibus, uma garota simpática, morena, com piercing e um lenço vermelho escuro no cabelo, pediu licença e sentou-se ao meu lado.

Não resisti e perguntei:

– Você mora, trabalha ou estuda por aqui?
– Estudo. – respondeu sorrindo.
– Vem para estes lados todo dia?
– Sim, todo dia.
– Este pessoal das barracas, está aí faz muito tempo?
– Desde que o prédio desabou…
– Caramba! E é verdade que eles pagavam aluguel?!
– Sim. Todo mundo sabe. Alguns pagavam 200, outros 400, mas todos pagavam.
– Puta que pariu!
– Dá dó né?
– Dá sim.
– Por que está tudo lento hoje? – me perguntou.
– Jogo do Palmeiras, muita gente na frente do estádio, sabe como é.
– Sei sim, é sempre assim, ainda mais com chuva.

Me toquei que toda vez que meu cliente da Zona Sul me chama, é jogo do Palmeiras e a tarde chove.

– O que você estuda aqui? – perguntei por que, não havia qualquer mochila, livros e etc…
– Faço balé, vou ser uma grande bailarina um dia.

A guria me disse isso com os olhos vibrando de alegria. Senti um misto de consternação pela falta de oportunidade que ela encontraria pela frente com alegria por saber que ainda havia alguém se interessando por cultura de alguma forma.

A coitada devia ter seus 14 anos no máximo e há poucos minutos eu estava na frente da Biblioteca Mário de Andrade, um dos maiores espaços culturais da cidade e por quase uma hora havia visto suas luzes acesas, sem uma única alma viva movimentar-se, nem para entrar, nem para sair, nem para respirar; não seria má ideia rebatizar o lugar para “Cemitério Cultural Mário de Andrade“.

O ônibus seguiu seu caminho, pessoas entravam e saíam, uma mais estranha que a outra e assim foi até meu destino.

São Paulo não é uma cidade, é uma fábrica de loucos.

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