Diferente das três temporadas anteriores de The Walking Dead, esta teve um tema geral e outros sub-temas, que ligados ao central criaram uma complexidade tão sutil que quase se pode dizer inapreensível à primeira vista.

O tema geral foi o sentido da vida, num questionamento de “por que afinal estamos vivos?“, tendo como foco o fato de que a consciência nos mantém ligados com a realidade, atuantes numa luta pela sobrevivência; que em tal cenário o amor ao próximo é o reconhecimento mesmo da realidade e disto toda civilização decorre.

Assim o arco narrativo abordou sub-temas como, lidar com a perda dos entes queridos, aceitação da realidade por mais dolorosa que seja e a formação de um líder em meio a tormenta.

É nesta temporada que, durante uma alucinação Rick Grimes elabora as famosas três perguntas: “Quantos zumbis você já matou? Quantas pessoas você matou? E por quê?“, para decidir se a pessoa está apta ou não a ingressar em seu grupo.

Carol também diz uma das frases que entra para a história do show: “Apenas vire-se e olhe para as flores.“, ao lidar com uma psicopata infantil.

Esta temporada amplia a existência de outros grupos como o do governador e isto dá um novo ar ao seriado, o da humanidade em desenvolvimento como civilização em processo de restauração.

Com o surgimento de novos grupos, Robert Kirkman adota um consequencialismo necessário e começa a questionar os diversos códigos morais religiosos com o cuidado de não citar nomes diretamente, como no caso do grupo que Daryl se une nos últimos episódios, que segue o código moral islâmico, sem no entanto declará-lo. Kirkman é visceral e não poupa bons personagens, implacável e abrangente ele apresenta, poeticamente, a alma humana em suas situações reais, mesmo num universo fantástico.

A fotografia manteve-se com a mesma espetacular qualidade e assinatura psicológica. As trilhas sonoras de Bear McCreary são um show a parte, inclusive o momento de Hershel durante a epidemia na prisão é iconográfico com Oats In The Water de Ben Howard, é fascinante. A edição tem uma suave melhorada com as ligações simbólicas entre cenas distintas e o elenco novamente é fantástico, embora alguns novos atores não sejam tão expressivos como Alanna Masterson (Tara Chambler) e Lawrence Gilliard Jr. (Bob Stookey), ironicamente, este último representou um dos papéis essenciais para o roteiro, mas também não foram ruins, apenas não foram tão intensos quanto os demais, considerando o drama constante da tragédia encenada.

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Questões filosóficas

  • 1º episódio: como lidar com a perda de alguém que amamos, o suicídio, o vício, a indiferença e o preço da covardia.
  • 2º episódio: os limites da sanidade e a formação da personalidade na infância.
  • 3º episódio: a ética da precaução, os excessos de uma crise, o valor da vida e a lealdade.
  • 4º episódio: o que é ser alguém, o que é a vida e qual seu propósito.
  • 5º episódio: os limites da fé pelo amor.
  • 6º episódio: o ressentimento e o poder do ódio.
  • 7º episódio: a psicologia do poder, o preço da tolice e a ética da sobrevivência.
  • 8º episódio: o preço da insanidade.
  • 9º episódio: a crueldade juvenil com os pais, o exame de consciência e a importância dos entes queridos.
  • 10º episódio: o problema do apego, o amadurecimento e a esperança, e o valor da figura da mãe.
  • 11º episódio: o peso das boas lembranças, o valor da família e o caótico acaso.
  • 12º episódio: o preço da fuga da realidade e a culpa.
  • 13º episódio: a dignidade humana.
  • 14º episódio: a revolta contra a realidade, a inversão de valores, a confiança e o valor da confissão.
  • 15º episódio: a definição da propriedade e o código moral.
  • 16º episódio: a lei, o crime, a crença em promessas revolucionárias e o poder da união.
  • Os zumbis: nesta temporada os mortos vivos ganharam novas dimensões. A primeira com Rick, é a de que são um mal inescapável, estão fora da prisão, mas dentro também. A segunda com Lizzie é a de que não são humanos, mas são “alguém” e portanto possuem um propósito. A terceira com os acidentes de Bob como resposta para a fraqueza humana, para o vício. Os zumbis aqui tornam-se uma limpeza espiritual da humanidade, uma espécie de dilúvio exatamente igual ao primeiro bíblico: os espiritualmente fortes sobrevivem, ou seja, os que cultivam as virtudes e evitam os vícios. na segunda parte da temporada este sentido é ampliado e o questionamento passa a ser um exercício dialético no qual os vivos conscientes devem descobrir por que motivo inclusive estão vivos e conscientes, tal papel desenvolve-se sobretudo na figura de Bob.

Simbologias nos nomes

Terminus é um lugar no qual, ironicamente as pessoas encontram seu fim, habitado por canibais.

Questões políticas

Primeiro episódio

A organização de uma comunidade que começa a crescer: todos podem ser aceitos, desde que cada um faça sua parte para não pesar para os demais.

Segundo episódio

Desarmamento: Carl pede sua arma de volta para Rick, que a havia tomado por ter matado um soldado inimigo que se rendia. Rick não a devolve, poucos estão armados dentro da prisão para evitar incidentes. Num dos momentos seguintes um ataque zumbi acontece pegando todos de surpresa. Carol decide ensinar as crianças a usarem armas para se defender se for necessário.

Epidemia: a responsabilidade de um líder e os sacrifícios necessários quando um problema de saúde pública emerge matando cidadãos rapidamente. Uma doença é trazida pelos animais à prisão e começa a matar as pessoas e atrair zumbis demais, condenando a segurança de todos. Rick precisa se desfazer da criação de porcos, que está espalhando a doença. A medida implica num aumento de custo para a alimentação de todos.

Terceiro episódio

Prioridades de um estado: saúde, segurança ou saneamento básico? Dois internos são assassinados, as tubulações que levam água para prisão entopem e a epidemia se espalha. O que é mais importante?

Quarto episódio

Eutanásia: Carol percebe que dois internos estão condenados à morte pela doença e os executa para que não sofram. Rick não aprova seu comportamento e a desliga do grupo.

Quinto episódio

O quinto episódio comprova que Kirkman tinha em mente filosofia política quando criou The Walking Dead: o nome é “campo de concentração“, em alusão aos regimes totalitários comunistas e nazistas que se serviram deste recurso para tentar firmar seu modus operandi. Os primeiros foram os comunistas, em seguida os nazistas os copiaram.

Estado de direito: as dificuldades de uma condenação. Rick volta à prisão e precisa explicar porque motivo expulsou Carol, mas o estado de coisas atual faz com que seja necessário que Hershel faça exatamente a mesma coisa que Carol.

Desarmamento: Rick estava se negando a devolver a arma para Carl, no momento em que um ataque zumbi acontece ele se vê forçado dar-lhe não uma pistola, mas uma metralhadora. Trata-se aqui de esclarecer que o uso de uma arma é com responsabilidade.

Sexto episódio

Não há muitas questões políticas neste episódio, mas há uma clara exposição do ressentimento dos perdedores, tanto nas urnas quanto em uma guerra.

Sétimo episódio

Golpe e fraude: o governador assassina Martinez para tomar seu lugar no grupo. O grupo fica sem uma liderança, Pete se auto-proclama novo líder, recruta o governador como seu homem de confiança e é assassinado por ele em seguida.

Oitavo episódio

Tomada de poder: o governador prepara uma ofensiva para tomar a prisão, para isto sequestra Hershel e Michonne.

Direito: Rick e Daryl conversam sobre a pena de expulsão aplicada à Carol por ter matado dois doentes em estado terminal.

Nono episódio

Desarmamento: a importância de possuir e saber usar uma arma quando é preciso. Carl sai para caminhar enquanto o pai se recupera dormindo e é atacado por zumbis.

Décimo episódio

O lastro de uma sociedade: a lealdade. Com o grupo todo separado, os membros espalhados precisam confiar uns nos outros ou não sobreviverão.

Décimo primeiro episódio

A confiança na instituição militar: Glenn e Tara cruzam o caminho com o sargento Abraham, Rosita e Eugene. O sargento pretende ir a Washington levar Eugene para por fim ao fenômeno zumbi.

Décimo segundo episódio

Substâncias ilegais: a importância de não fugir da realidade e as responsabilidades da vida adulta. Beth inventa que quer beber a qualquer custo, Daryl a acompanha zelando por sua vida. Ela o tenta até que ele explode e lança-lhe em face todo seu comportamento infantil, inferior ao necessário para sobreviver no mundo.

Décimo terceiro episódio

A desconfiança com as propostas de sociedade perfeita: integrantes do grupo começam a encontrar as placas de Terminus, Sasha desconfia que tudo é perfeito demais para ser verdade. O mesmo se passa no espectro político, conservadores jamais acreditam nas propostas revolucionárias, que igual Terminus sempre terminam em matança.

Décimo quarto episódio

A inversão de valores revolucionária: Lizzie se recusa a enxergar que os zumbis querem matá-la e acredita que são amigos. É o exato mesmo pensamento de quem acredita que os criminosos autores de crimes hediondos são vítimas da sociedade.

Décimo quinto episódio

Propriedade privada: quem é o proprietário? aquele que trabalha para conquistar ou aquele que a documenta? Daryl e Len membro do novo grupo disputam um coelho. Daryl passou a manhã toda caçando, mas o outro rapaz simplesmente diz “é meu” e reclama seu direito.

A formação de um código civil: o novo grupo que Daryl se uniu apresenta seu código moral que começa a definir um código civil, com leis para propriedade e punição para crimes.

Homossexualismo: Tara se declara homossexual.

Décimo sexto episódio

Pedofilia: um membro do grupo de Daryl agride Carl com intenções sexuais. Rick perde o controle e assassina-o impiedosamente.

Lei: o grupo de Daryl estranhamente pune os mentirosos, mas permite a pedofilia e o estupro como aceitáveis, lembra o Islã.

Desarmamento: a chegada em Terminus exige que o grupo se desarme, mas é uma armadilha.

Questões teológicas

Clara amava o marido que morreu e se tornou zumbi ao ponto de mantê-lo preso alimentando-o, não suportando a dor ela suicida-se na frente de Rick.

Patrick rejeita as aulas de Carol para auto-defesa com facas e no mesmo dia conhece seu destino.

Beth trata Zach com indiferença, não se despede dele antes da partida e neste dia ele morre.

Bob considera a tentação da bebida e imediatamente esta lhe traz problemas.

Lizzie e Mika Samuels são crianças, perdem o pai Ryan durante a epidemia. Lizzie nunca entendeu bem o que são os zumbis e insiste em não entender, apesar de tudo que lhe ensinam. Sua insistência tem um preço alto.

Carol que já havia superado a perda de Sophia ouve de Ryan antes de morrer um pedido para que cuide de Lizzie e Mika como se fossem suas próprias filhas e aceita a responsabilidade. Por algum tempo ela faz o papel de mãe novamente, mas deixa claro que não é a mãe das garotas.

Bob reflete sobre o por que de estar vivo e como isto o conduziu à bebida, há uma ligação entre o propósito de sua existência e o desvio de rota que o vício causa. No mesmo episódio ele cede à fraqueza novamente e pela segunda vez coloca o grupo todo em risco.

Hershel salva Glenn e Sasha pela fé, e lê a Bíblia após ver o mundo cair ao seu redor dentro da prisão durante a epidemia. O fato dele não ter ficado doente lembra a passagem do Salmo 91: “Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti“.

Quando o governador ressurge, há uma simbologia subliminar na vela vermelha que queima em seu quarto, não que seja intencional da parte de Kirkman, mas que esteja além da mera coincidência. Há sugestão de satanismo em sua figura diversas vezes.

Há uma dialética entre o comportamento de Carol com Lizzie e Mika e o do governador com Megan. Carol é muito clara ao dizer às meninas que não é sua mãe, ao passo que o governador pega Meghan no colo e jura por Deus que não deixará que nada lhe aconteça de mal.

Pete, membro do grupo de Martinez luta para que o governador seja aceito no grupo, em seguida é morto por ele.

Hershel conversa com o governador, o questiona sobre a matar a família de outro homem e obtém uma resposta que carrega um significado: ele não reconhece o outro como seu semelhante, mas como seu inferior.

O governador adota Meghan como sua nova filha no lugar da que faleceu. Ele tem uma nova chance de uma nova vida com uma nova família, mas troca tudo isso pela sede de poder. Quando toma a atitude de trocar, perde automaticamente tudo.

Carl culpa Rick e o despreza muito após a tragédia na prisão, mas ao ver o pai quase morto acorda para a realidade.

Daryl perde a esperança de encontrar os amigos vivos, as flores que entende como sinal reaparecem, mas ele não as percebe.

Os grupos formados na estrada são propositalmente selecionados para desenvolvimento mútuo.

Carol salva Tyreese em seu pior momento, ela precisa resolver a questão do início: ser responsável pela morte de Karen.

Beth tenta fugir da realidade apelando à bebida alcoólica, mas tão logo quanto toca a garrafa, é atacada por um zumbi, como sinal de que ela precisa enfrentar a realidade e não fugir da mesma.

Sasha acredita que há uma força superior os ajudando de alguma forma com avisos e sinais.

Carol passa novamente sem perceber por flores que Daryl afirmou serem sinais.

Toda simbologia encontrada em Terminus é ocultista.

Conclusão

Esta temporada prometeu apenas estender a existência de novos grupos para aumentar a complexidade, mas o fez sem pronunciar previamente para com isto questionar o sentido da vida. Prometeu um, não prometeu o outro, e cumpriu ambos objetivos com dignidade e a sutileza de uma sentença velada. Tal foi a qualidade.

É portanto minha nota um 10,00 novamente.

The Walking Dead – Ben Howard – Oats In The Water

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