– Eu não sei como tudo começou, tenho apenas algumas suspeitas.

Eugênio e Clóvis conversam no laboratório.

– Darwin usou a curva de Malthus para fundamentar toda teoria da evolução. Na medida que faltam recursos as espécies vão se separando, é a sobrevivência do mais apto, mas isto por si só não explicava as diferenças genéticas responsáveis pela brutal separação entre um homem e um alface por exemplo, levando em conta que todas as espécies teriam um ancestral comum. Foi com a chegada do DNA que tudo começou a ficar mais claro. Somados os três conhecimentos, restava entender como um DNA de repente sai fora do padrão e cria alguma anomalia, ao que chamamos evolução. A resposta estava em outra perspectiva da curva de Malthus, a psicológica: a teoria era que a necessidade de mudanças era gerada pelo sofrimento.

– Mas isto é apenas uma teoria, não?

– Aceleramos um grupo de bactérias num ambiente em condições desfavoráveis e obtivemos um resultado interessante, elas dobraram o tempo de vida.

– E o que fizeram com o resultado?

– Documentamos tudo e incineramos todos os testes.

– Então como você conecta isto com a realidade que estamos vivendo?

– Havia um cientista na ocasião encarregado de acompanhar tudo, um russo silencioso que se comunicava apenas com um americano bilionário. É minha única pista. Ninguém sabia o nome dele. Havia rumores de que realizava testes com humanos.

– Você quer dizer que este sujeito é o responsável por estas coisas andando por aí?

– Não há outra hipótese, Clóvis.

– A equipe alpha capturou um e o trouxe até aqui e conseguimos amostras de tecido, mas a coisa destruiu o laboratório inteiro e saiu andando pela porta da frente, como se não existíssemos. Fomos feitos de idiotas por este… negócio estranho.

– E com este tecido o que conseguiram?

– Exatamente o mesmo resultado das bactérias, mas de uma outra forma surpreendente. Havia na sua pele traços de epinefrina alterada e níveis controlados de radiação.

– Eles são radioativos?

– Não… ou melhor… são. A epinefrina no sangue deles faz com que as células permaneçam em estado de stress altíssimo, causando em tempo integral o efeito da evolução. É um efeito em dominó, tudo que os atinge uma vez, o corpo registra e se cura em questão de segundos. São invulneráveis à todas as armas que conhecemos. Se você mergulhar um no oceano por exemplo, ao invés dele morrer afogado, adquire em segundos a capacidade de respirar água, se levar um tiro ele se regenera e a pele fica mais resistente que o projétil, se cair de um avião, o corpo se regenera no chão e os ossos se tornam mais resistentes que o aço.

– Isto deveria ser uma maravilha! Ninguém morre mais!

– O problema é que muitas das reações do próprio corpo causam dor e são identificadas pelo cérebro como um mal, então o próximo passo é cortar as conexões com córtex pré-frontal e a amígdala. Ele desliga a região da empatia e as memórias dolorosas que construíram o caráter e a personalidade vão sendo gradualmente apagadas até que abandonam o idioma, a fala, a cultura, e todo resto… basicamente eles permanecem como animais racionais sem emoções negativas, em busca de prazer.

– Então não é um vírus?

– Não! É o próprio DNA. Quando o DNA de um deles entra em contato com o seu, a epinefrina radioativa começa a se espalhar como um raio, em questão de minutos você está perdido. Em seguida começam as reações cerebrais que causam uma febre de mais de 40 graus, é uma cirurgia acontecendo por dentro.

– Então não há cura?

– Não é sequer possível uma cura. Não se trata de um organismo agindo no corpo, é o próprio corpo.

– E como isto se espalhou?

– Testaram em 20 humanos num laboratório na Sibéria, era para ser uma nova droga para o mercado negro, como o Krokodil e Cloud Nine. Um sujeito estava sob efeito de Cloud Nine e num ataque de canibalismo contaminou outro, a epinefrina radioativa adaptou-se primeiro ao suor misturado com o sangue, depois com a saliva e o sêmen. O viciado saiu para uma balada antes de perder o resto de consciência, beijou muitas garotas e transou com outras. O processo de readaptação da droga é quase incalculável, mas o veículo é líquido sempre.

– Então não há mais água segura?

– Apenas a minada da terra diretamente.

– Há como matá-los?

– Eles são praticamente imortais e se reproduzem muito. A única forma de morrerem é esgotando os recursos combustíveis dos corpos. Ainda respiram, mesmo que água ou fumaça, ainda comem animais e plantas, e precisam se reproduzir. Não tem interesse em desenvolver sociedades, cultura, nada. O problema é que a maioria esmagadora desenvolve uma força descomunal a ponto de lutar com leões e ursos de igual.

– Mas se acertarmos o cérebro…

– O corpo o reconstrói.

– Então qual o meio para matar um?

– Apenas cortando qualquer coisa que possa ser respirada ou por inanição.

– Isto é quase impossível…

– É por isto que o que restou da humanidade, vive em grupos isolados em cavernas profundas, como esta que estamos.

Eugênio espiou pela fresta no fundo da caverna o último retrato daquele que foi o habitat da humanidade.

Os homens haviam criado pele de crocodilo, suas unhas crescido, seus dentes afiados, eram agora uma espécie biologicamente evoluída.

Sentido-se seguro naquele local isolado no meio da mata fechada resolveu tomar um ar e pela primeira vez viu um deles de perto.

Alguém havia-lhe dito sobre uma profecia que a morte seria retirada dos homens, aqueles malditos crentes.

Esta foi sua última lembrança antes de pular do precipício, passar 3 dias com febre altíssima e em seguida acordar com sua pele criando escamas e muita fome.

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