Há poucos dias escrevi a crítica da quarta temporada de The Walking Dead que terminou com uma crise terrível mas necessária.

Robert Kirkman constrói seus personagens dotando-os de todas as dimensões necessárias: social, psicológica, histórica e física, tornando-os críveis e nos fazendo com isto criar uma empatia tremenda com os mesmos. Todos possuem uma alma delineada com valores claros. Por vezes não concordamos com eles, mas somos obrigados a admitir que os entendemos. Assim muitas são as lágrimas de fãs quando algum morre.

O problema com isto é que para um escritor, a tarefa de conciliar a participação de cada personagem no cenário e nos atos, dada a alta complexidade de cada um com seus princípios tão particulares, por vezes as únicas opções para continuar a trama são afastar os personagens para recuperá-los no futuro, ou matá-los.

Como Kirkman trabalha com uma linhagem de virtudes muito clara, espremendo seus personagens em situações extremas, fazendo-os errar e acertar, e sempre colher os frutos de seus atos, sejam erros ou acertos, a participação de cada um deles vem com prazo determinado para acabar, eles cumprem seus papéis e logo em seguida precisam necessariamente morrer, pois sua existência já cumpriu seu dever.

O espírito da temporada anterior foi todo sobre o personagem Bob, depois disso ele fica sobrando no contexto e precisa, necessariamente, desaparecer. Raras exceções como Morgan cuja curva dramática é muito extensa, caem na linhagem de serem meramente afastados, para voltar na hora certa.

Esta temporada precisou de um tempo para se estabilizar e o fez até a metade, contando um pouco da história de cada novo personagem, e resolvendo os problemas que deixou sem solução no arco narrativo da anterior. Com todas as sub-tramas resolvidas, um novo cenário é proposto: Alexandria. Com novas propostas a serem desenvolvidas.

Alexandria é um lugar fechado, isolado do resto do mundo, no qual os moradores não presenciaram as transformações do resto do mundo. Rick e seu grupo chegam após traumas intensos do acampamento na primeira temporada, da fazenda de Hershel na segunda, da prisão e de Woodbury na terceira, da epidemia e da diáspora que os conduziu à Terminus na quarta. O grupo do xerife Grimes está traumatizado, arisco, sem disposição para confiar em estranhos e com este espírito é conduzido à uma cidade cheia de cidadãos presunçosos e mesquinhos, despreparados para as responsabilidades e dificuldades da nova situação do mundo.

O grupo é necessário para a sobrevivência do local, mas eles terão que aprender a duras lições.

Eugene encarna a figura de Robert Neville, o cientista da obra de original de Richard Matheson (A última esperança sobre a Terra), que deu origem ao fenômeno mundial zumbi. É a terceira vez que o seriado lida com este tipo de personagem, sempre colocando-o como um fraco e covarde.

Morgan reaparece para criar um exercício dialético importantíssimo: ele acredita que não deve matar ninguém, ao passo que Grimes defende a pena de morte com unhas e dentes.

Esta defesa já havia começado com Carl na temporada anterior, que executa um soldado do governador temendo que ele volte ao seu posto, se equipe e faça mais algum mal aos residentes da prisão. Rick e Carl tem um contratempo neste momento, mas a questão fica suspensa no ar e prefigura todo processo que tem apenas início nesta quinta temporada, para se desenvolver na próxima. Este processo dialético, nitidamente, será desenvolvido por Morgan, que acredita no oposto contrário de Rick, e ambos viverão uma tensão até que a questão seja solucionada.

A fotografia permaneceu com a mesma excelente qualidade vintage, as trilhas sonoras de Bear McCreary foram mais uma vez o registro emocional dos momentos com a sensibilidade que lhe é dom, a edição não apresentou novidades, mas o elenco teve sua queda de qualidade. Alguns dos cidadãos de Alexandria não foram tão convincentes, mas entre os bons merecem destaque Aaron, Deanna e Jessie, sobretudo para Jessie que chega a causar fascínio na atuação, principalmente na química cheia de ternura com Rick. A maioria do elenco foi excelente ou bom, mas o número de aguados aumentou nesta temporada. Acredito inclusive que com a crescente complexidade da trama as atuações tendem a decair mesmo.

O roteiro foi um pouco lento, mas necessário para estabilizar novamente o rumo da narrativa. O tema desta vez, após tudo solucionado, foi a demagogia contra a realidade. O cenário de sobrevivência extrema trouxe sub-temas como a tolerância e a paciência.

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Questões filosóficas

  • 1º episódio: a definição do ser pelas escolhas nos atos e a redenção.
  • 2º episódio: o fim de uma punição, o lado bom da adversidade, os segredos e a esperança.
  • 3º episódio: a crueldade, a loucura, o peso de uma promessa, o perdão, o que é uma igreja e o que é uma alma.
  • 4º episódio: a ética da medicina, a ética policial, a essência da arte e as perspectivas do bem maior.
  • 5º episódio: o que é determinação e bravura, e o peso da frustração.
  • 6º episódio: o recomeço e os ciclos da vida.
  • 7º episódio: a honra, a opressão e o despertar para as necessidades da vida adulta.
  • 8º episódio: o choque de realidade.
  • 9º episódio: a luta pela vida e o preço de esmorecer.
  • 10º episódio: as virtudes e a reflexão.
  • 11º episódio: a maturidade.
  • 12º episódio: o valor da experiência, o problema da ilusão.
  • 13º episódio: os fundamentos de uma civilização.
  • 14º episódio: as consequências da insensatez, a feiura e a superação da covardia, e a traição.
  • 15º episódio: a realidade versus o idealismo ideológico.
  • 16º episódio: a não violência, os problemas da democracia, o peso da mentira contra as contradições e verdades de uma situação que não se resolveu ainda, a questão do valor da vida.
  • Os zumbis: os mortos vivos nesta temporada tornam-se não apenas um perigo constante já integrado completamente com a realidade, mas também passam a ser vistos como recursos de guerra em casos extremos, dado que a maldade humana pode superar a selvageria irracional zumbi. A maldade racional é colocada como termo de comparação em status superior com a irracional, os humanos vis como praticantes da racional, os zumbis como da irracional.

Simbologias

Alexandria: a Alexandria real, foi um centro urbano fundado em 332 a.C. por Alexandre Magno, é um dos pilares da civilização, tal qual a conhecemos.

Aaron é novamente um nome bíblico, “Aarão”, do Velho Testamento (o que é recorrente na série).

Há uma simbologia muito sútil nos relógios desde a primeira temporada, nesta as mensagens ficam mais evidentes. Trata-se de uma relação entre a consciência e a vida, de como se faz escolhas e suas consequências na linha do tempo, causa e efeito, formando quem você é a partir de suas decisões dilema a dilema.

Hospital Grady Memorial: o hospital é real, é público e é onde a máfia comanda. Há uma mensagem nisto com relação aos abusos do serviço público.

Questões políticas

Primeiro episódio

A necessidade dos militares e resultado do idealismo: Terminus inicialmente era um bom lugar, mas por excesso de confiança na bondade humana foi tomado, reformado e transformado num açougue a céu aberto.

Segundo episódio

Direito: Rick aceita o retorno de Carol ao grupo. Ele a havia expulsado por ter matado dois doentes em estado terminal na prisão, se ela ficasse teria sido morta por Tyreese que estava enfurecido e fora de si. Resolvida a questão com Tyreese, ele a recebe de braços abertos.

Terceiro episódio

Ideologia e pretexto: Gareth afirma que se tornou canibal por ter passado fome, como o discurso marxista que afirma que o indivíduo se torna criminoso por falta de oportunidade.

Quarto episódio

Saúde pública, gestão e ética: a falta de recursos leva o hospital de Atlanta a assassinar pacientes que não apresentem melhora em um prazo determinado sob a pena de todos os demais ficarem sem tratamento.

Assédio no trabalho e estupro: Gorman assedia e estupra a maior parte das moças socorridas no hospital.

Quinto episódio

Comprometimento militar: Sargento Abraham está disposto a arriscar sua própria vida para salvar o mundo.

Sexto episódio

Abusos domésticos: Carol faz alusão aos abusos sofridos por ela e Sophia no casamento com Ed.

Sétimo episódio

Máfia: ex-policiais formaram um grupo e controlam tudo no hospital através da coerção, eles oferecem proteção em troca segurança. São uma figura parecida com a do governador, só que mais frágeis.

Oitavo episódio

Diplomacia: troca de reféns na esfera policial, serviço de embaixadores em conflitos bélicos.

Rick negocia a troca dos policiais por Beth.

Nono episódio

O cidadão diante das disputas políticas e bélicas: Tyreese relembra seus momentos e se vê em meio as disputas e guerras do mundo como está, que não são muito diferentes dos conflitos de antes de tudo acontecer. É a figura do cidadão comum apolítico, preocupado em pôr o pão na mesa e cuidar de sua família, e que de repente se encontra fugindo de tiros, bombas, violência e buscando um lugar seguro para viver em paz.

Décimo episódio

Pós-guerra e diáspora: o grupo vaga pelas estradas rumo a Washington, sem recursos como água, alimentos e um teto. É o que acontece geralmente nas diásporas após ditaduras comunistas, teocracias islâmicas e demais governos totalitários.

Décimo primeiro episódio

Recrutamento: Aaron quer que Rick e o grupo unam-se com sua comunidade, mas depois de tudo que o grupo passou, conquistar a confiança do grupo de Rick será muito difícil.

Homossexualismo: Aaron e Eric são namorados e beijam-se. Tara já havia se assumido homossexual na temporada anterior, mas esta foi a primeira cena na qual uma dupla interage.

Décimo segundo episódio

Sustentabilidade: o discurso de Deanna para Rick sobre Alexandria afirma que o lugar foi projetado para se sustentar, com energia renovável e etc.

Desarmamento: embora o lugar seja pacífico e confiável, há a exigência de que todos entreguem suas armas.

Lei e ordem: Rick volta a ser xerife.

Deanna faz uma jocosa menção ao comunismo, ao afirmar que todos terão que trabalhar, aludindo os campos de concentração nos quais os trabalhos são forçados e não há liberdade.

Décimo terceiro episódio

Desarmamento: Rick e Deanna tem visões opostas. Ela quer o desarmamento, ele quer que as pessoas andem armadas.

Preconceito: Aaron conta para Daryl as reações sociais relativas a sua sexualidade.

Décimo quarto episódio

Polícia: Rick cita a “Teoria das janelas quebradas” como modelo de segurança ideal.

Relacionamentos abusivos: Carol percebe que Pete, marido de Jessie pode ser um violentador.

Décimo quinto episódio

A falta de bom senso ideológica: o marido de Jessie realmente lhe bate e já há muito tempo. Ele ataca Rick e por pouco ambos não acabam se matando. Rick explode e fala as verdades que a Deanna precisa ouvir.

O impasse entre Rick e Deanna pode ser lido facilmente como o excesso de complacência com criminosos reincidentes que resistem às leis, desafiam a ordem social e produzem vítimas.

O debate sugere a pena de morte.

Décimo sexto episódio

Morgan conversa com Owen (líder dos Lobos). Owen que faz alusão à obra de Thomas Hobbes sugerindo que “o homem é o lobo do homem“.

Golpe de estado: Rick planeja uma tomada de poder como alternativa para caso seja expulso de Alexandria, mas desiste na última hora. O homem que Deanna defendia assassina seu marido na sua frente e a faz despertar para a realidade.

O ressurgimento de Morgan implica numa dialética com o status quo. Rick e boa parte do grupo são favoráveis a pena de morte, Morgan acredita que toda vida é preciosa. Ambos tem suas razões, argumentos e vivências válidas.

Questões teológicas

Rick havia emprestado seu relógio para um rapaz chamado Sam no mesmo dia em que expulsou Carol. Ela lhe deu o relógio do ex-marido abusador Ed. Sam reaparece e morre nas mãos dos residentes de Terminus. Carol salva o grupo, durante o conflito encontra o relógio perdido de Rick. Ela o devolve à Grimes, mas rejeita a devolução do relógio de Ed. Há um significado cíclico na tragédia de Sam e na troca de relógios. A carga da troca de relógios é fácil de entender, pois Rick deixou de ser ele mesmo quando puniu Carol e assim tornou-se por um tempo como Ed, e no momento em que ele se reconcilia com ela, e a aceita de volta, ele volta a ser ele mesmo, e o pertence de Ed já não lhe cabe mais. A simbologia embutida em Sam é mais complexa e quase inapreensível: ele trai ambos, abusa da confiança, principalmente, de Rick e quando Carol se manifesta a respeito dele, Rick se enfurece com ela, ele é o gatilho que desencadeia o processo todo, e ele paga por isso com sua vida.

Padre Gabriel ao ser salvo afirma ter pedido ajuda e o grupo ter aparecido como providência divina, uma resposta tão veloz quanto a do pedido de Rick na segunda temporada.

Rick e Bob eram os únicos favoráveis a dar um fim nos canibais de Terminus, mas Bob silenciou e deixou Rick sozinho em sua proposta, o resto do grupo era contra. Os assassinos voltam e a primeira vítima é Bob.

Tyreese fica encarregado de cuidar de Bob, que está namorando com sua irmã Sasha. Ele terá que tomar a mesma decisão difícil que Carol e nas mesmas circunstâncias. Isto encerra o ciclo de seu drama.

Padre Gabriel questiona a matança dentro da igreja, Maggie responde que são apenas paredes com um teto.

O doutor Steven Edwards, médico do Hospital Grady Memorial em Atlanta oferece um raciocínio sobre Pedro negar Cristo por três vezes.

Eugene reflete com Maggie sobre Sansão, personagem da Bíblia.

Na van que Daryl e Carol encontram para se salvarem há uma imagem de uma santa católica simbolizando providência divina.

Abraham se vê obrigado a destruir parte da igreja para salvar Michonne, Gabriel, Carl e Judith. É um dilema entre salvar a construção de alvenaria simbólica ou praticar o amor ao próximo. Este é um dos momentos mais importantes da temporada pois coloca em perspectiva a demagogia contra a realidade. Morgan chega de surpresa e re-estabelece a igreja.

O grupo rejeita a água oferecida pelo estranho e em seguida chove e eles conseguem água para beber. Antes, enquanto estavam com fome, alguns cães os atacaram e serviram de comida. Logo em seguida Daryl encontra um celeiro e o primeiro objeto a encontrarem é uma Bíblia. Na noite deste dia há uma tempestade fortíssima e um ataque zumbi em massa, e milagrosamente as árvores em volta do celeiro caem impedindo os zumbis, mas sem danificar o lugar.

Padre Gabriel trai Rick e o grupo que o salvou e o acolheu. Em seguida tenta se suicidar, mas encontra um zumbi que justamente morreu suicidando-se, ele entende o recado e se desiste da ideia.

Conclusão

A proposta desta temporada foi a dialética da demagogia contra a realidade. O querer parecer bonzinho e as implicações consequentes das decisões.

Kirkman propôs e cumpriu de forma digna, extremamente digna, o único problema é que a complexidade do assunto requer mais atos e análises que foram deixadas para a próxima temporada.

Uma nota 10,00 é justa.

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