Há algum tempo publiquei a crítica da quinta temporada de The Walking Dead. Em seguida mergulhei de cabeça na sexta, e terminei bem rápido, na verdade dia 24 do mês passado eu já a havia terminado. Precisei lidar com inúmeros contratempos e surpresas da vida, e acabei por atrasar esta publicação, mas vamos em frente.

A sexta temporada delineia o início (ou re-início) de uma civilização. Há algo que eu já havia dito no texto anterior, mas aqui torna-se novamente necessário: “Alexandria real foi um centro urbano fundado em 332 a.C. por Alexandre Magno, é um dos pilares da civilização, tal qual a conhecemos“.

O cenário muda numa evolução natural, o momento de pura sobrevivência é ultrapassado e a novidade é a tentativa de reconstruir o mundo, considerando agora os zumbis e a doença como parte inalienável. É o mesmo mundo, refazendo-se sobre as ruínas do anterior. Não se trata de um reset total na humanidade, como se fôssemos homens neandertais descobrindo o fogo e fazendo pinturas rupestres de animais no fundo de cavernas. Longe disto, a linha desta temporada é a evolução, é a renovação, e este processo teve início com o surgimento do governador, seguido pelos sucessórios grupos que se apresentaram até então, a diferença é que Alexandria é o primeiro grupo realmente estabilizado.

Politicamente, esta temporada me deixou com a sensação que Rick e Deanna disputavam a liderança como Trump e Hillary, tanto pela data da temporada comparada com a data da eleição para presidente americano.

O espírito de renovação se cristaliza sutilmente após a metade da temporada, com crise da invasão zumbi, quando Rick pede uma chance para mostrar a Carl o “novo mundo” e o passo seguinte é surgimento de um personagem apelidado de “Jesus“.

Deste momento em diante, novas culturas começam a surgir e uma atmosfera de amenidade toma conta, para que novos desafios (e piores) pertinentes ao desenvolvimento da humanidade, possam evoluir com certa naturalidade. Entre os mais marcantes eventos deste mix conceitual que impõe a dialética da pena de morte, é Eastman entregando o livro “A arte da paz” de Morihei Ueshiba para Morgan.

Morgan é contra a pena de morte, Rick é favorável. Tal é o embate conceitual temático da temporada. Alguns coadjuvantes tornam-se muito importantes, como Carol que é contra matar, mas sabe que é necessário fazê-lo, e encontra-se exausta de espírito nisto.

Robert Kirkman é sempre um sujeito sutil com a simbologia e os arquétipos, mas lentamente cria uma espécie de assinatura RPG no cenário, gradualmente: um arqueiro (elfo), um mago (bastão), um anão (machado) e um líder humano, além de outras contextualizações genéricas.

Há muita política e filosofia nesta temporada, sordidamente desenvolvida para o deleite dos fãs mais apegados à realidade.

A fotografia, trilha sonora e edição nada perderam em qualidade, o roteiro continuou com a mesma assinatura de arco narrativo, mas a qualidade do elenco teve uma queda: Lennie James parece não mergulhar na pele de Morgan Jones, e o pessoal de Alexandria é meio insonso. A verdade é que são coadjuvantes que a realidade na qual o autor os inseriu não permite que sejam afastados ou mortos tão facilmente, assim, necessariamente, acabam pendurados como pregadores sem função em um varal vazio: é portanto perdoável.

 

Questões filosóficas

  • 1º episódio: a diferença entre a barbárie e a civilização, a dignidade humana e a responsabilidade com a vida.
  • 2º episódio: a responsabilidade com a vida e a relação entre coragem e força.
  • 3º episódio: a importância da persistência.
  • 4º episódio: o peso da culpa, o arrependimento e a segunda chance.
  • 5º episódio: o valor da esperança, o peso da responsabilidade, a crueldade dos filhos.
  • 6º episódio: o senso de dever.
  • 7º episódio: a fé, a piedade e a estupidez.
  • 8º episódio: o preço da negligência, o mérito.
  • 9º episódio: a tradição, o preço da covardia, e a virtude da coragem.
  • 10º episódio: a vocação, e a família.
  • 11º episódio: a mudança do status quo.
  • 12º episódio: a dialética do medo, a consciência, a força do amor, o peso da culpa.
  • 13º episódio: a moral e a ética da guerra.
  • 14º episódio: a consciência, a resiliência, a coragem, o efeito dos atos, e o senso de dever.
  • 15º episódio: a relação entre autoridade e ordem, e como a fraqueza atrai a agressão, o retorno.
  • 16º episódio: o importância da união.
  • Os zumbis: nesta temporada os mortos vivos tornam-se a figura dos desafios da vida, as trilhas do mérito para se alcançar os resultados, e o destino daqueles que eximem-se das responsabilidades, dos covardes e negligentes de forma geral.

Simbologias

O nome “Easteman” significa “homem do leste“, ou seja, do oriente, e é justamente o que o personagem faz: insere a cultura oriental através do livro “A arte da paz” com a filosofia do Aikido.

Jesus, dispensa explicações, ele não veio para representar um homem santo, mas para simbolizar o que Rick chamou de “novo mundo“.

Questões políticas

Primeiro episódio

Pena de morte: Rick e Morgan discordam sobre o destino de assassinos. Rick defende a pena de morte, Morgan defende a prisão.

Imigração: Rick e Daryl discordam sobre aceitar novas pessoas em Alexandria. Rick não quer estranhos, dado o estado de coisas do mundo, Daryl quer continuar procurando e trazendo.

Desarmamento: Rick e Deanna discordam sobre as pessoas andarem ou não armadas em Alexandria. Rick defende que devem, Deanna o oposto, e no mesmo instante acontece um ataque zumbi com as pessoas desarmadas.

Segundo episódio

Desarmamento e pena de morte: o grupo dos lobos ataca Alexandria e sai matando todos que encontram pela frente. O povo está desarmado e nada pode fazer. Morgan e Carol discutem, ele quer combate-los sem mortes, ela mata quem pode.

Terceiro episódio

Impunidade: os membros do bando dos lobos que Morgan deixa escapar atacam Rick na estrada.

Quarto episódio

Pena de morte: Easteman é contrário à pena de morte, mas acabou por matar o psicopata que assassinou sua família. Morgan se esforça para não matar Owen, a despeito de todas as posições do assassino.

Quinto episódio

Fronteiras: tudo com que Alexandria pode contar é com suas fronteiras fechadas, se não houvessem muros, a cidade teria ido abaixo.

Liderança: Spencer faz um discurso que deixa Deanna orgulhosa, mas em seguida faz o contrário do que pregou ao povo. Deanna é atacada por um zumbi e é socorrida por Rick, ela reconhece que ele está certo em suas posições e afirma o posto de líder em Alexandria deve ser dele.

Homossexualismo: Denise se declara homossexual e beija Tara.

Sexto episódio

Imigração: Daryl resolve confiar no casal Dwight e Sherry, dá-lhes uma chance para ir à Alexandria e é roubado pelo casal.

Sétimo episódio

Desarmamento: Rick e Carl ensinam Ron a atirar.

Oitavo episódio

Desarmamento: a torre cai sobre o muro e uma invasão zumbi acontece em Alexandria com toda população desarmada e despreparada.

Pena de morte: Morgan mantém Owen preso, acreditando que poderá ser ressocializado um dia, que ele pode mudar. Durante a invasão zumbi, Owen acaba confinado com Denise. Carol descobre Owen e tenta matá-lo, mas Morgan aparece para protegê-lo.

Nono episódio

Pena de morte: no último momento Owen muda e salva Denise, mas acaba mordido.

Liderança: Rick assume-se como líder, parte para a briga contra os zumbis e seguindo seu exemplo todos se motivam para lutar.

Décimo episódio

Pátria: Spencer busca sua mãe que se tornou zumbi, conversa com Michonne e percebe que seu lugar é em Alexandria, onde estão suas raízes.

Décimo primeiro episódio

Relações exteriores: Hilltop é a primeira comunidade pacífica a estabelecer contato com Alexandria e propor comércio.

Totalitarismo: surge Negan, como um líder totalitário e usurpador.

Décimo segundo episódio

Estado de guerra: Rick declara guerra contra os Salvadores, reúne o grupo e quando os avisa, causa um momento de tensão com Morgan, que é pacifista.

Mente de um soldado: Glenn fala para Heath como se sente precisando matar outras pessoas.

Décimo terceiro episódio

Feminismo: um grupo dos Salvadores, liderado por uma mulher, debate o papel do homem em suas vidas, ostentando força.

Décimo quarto episódio

Encarceramento: Morgan constrói uma cela de prisão e diz a Rick que terá opção para não matar da próxima vez.

Infanticídio: Denise encontra uma loja abandonada onde assassinaram uma criança de no máximo 2 anos de idade.

Décimo quinto episódio

Pena de morte: Carol é abordada na estrada e não quer violência, mas os Salvadores não lhe deixam escolha. Daryl explode e sai atrás de Dwight e os outros Salvadores. Se ele os tivesse matado Denise estaria viva. Morgan impede Rick de atirar num homem na estrada e explica-lhe como Owen salvou a vida de Denise antes, justamente, por ter sido mantido com vida por ele.

Décimo sexto episódio

Pena de morte: Morgan dá todas as chances para um assassino dos Salvadores abandonar a violência e ir embora vivo, ele persiste na luta obstinado a matar Carol. Morgan percebe que não tem escolha e mata-o.

Totalitarismo: Negan surge, e demonstra que os Salvadores não aceitam qualquer trato.

Nova Ordem Mundial: Negan afirma-se como a NOM.

Questões teológicas

Carter planeja trair e matar Rick, ele e é descoberto no flagra. Rick o perdoa e lhe dá uma chance, mas ele recusa-se a entender que para sobreviver terá que enfrentar de frente as dificuldades. Persistindo na recusa, vendo-se sozinho na mata, acaba mordido.

Barnes acusa Rick de ser o culpado pela invasão em Alexandria, recusa-se a encarar os problemas do mundo para sobreviver, e acaba mordido momentos depois.

Nicholas acaba tendo que passar pelo mesmo lugar onde seu primeiro grupo morreu, como uma segunda chance para fazer a coisa certa. Ele mesmo diz que o grupo não sentiu medo, mas ele sim e por isto fugiu, deixando-os para trás para morrerem. Neste lugar ele falha e paga o preço.

Michonne diz para David que ele está voltando para casa. Momentos depois ele morre.

O surgimento de Eastman no caminho de Morgan é justamente o que ele mais precisa: um psiquiatra. Tal encontro é providência divina. Ele lhe entrega o livro “A arte da paz” de Morihei Ueshiba e fala sobre redirecionar, que quando explicado, significa o mesmo que se arrepender.

Durante a invasão zumbi o último refúgio torna-se a igreja. O padre Gabriel responde aos fiéis que Deus lhes deu a coragem para enfrentar os problemas, e que Deus salvará Alexandria. Isto se confirma no momento em que Glenn corre risco de vida salvando Maggie e Enid.

O espírito desta temporada é enunciado após a crise da invasão zumbi. Rick fala em “novo mundo” e neste momento surge o personagem Jesus.

O que Jesus explica sobre Negan, é que é um totalitário que mata seus inimigos, não faz amigos, muda os nomes de seus adeptos, tem inúmeras esposas forçadas e expande seu poder. É o Islã.

Tara resolve confessar-se com o padre Gabriel, no banco de trás está Jesus que ouve tudo e diz que ela deve lutar. É um momento muito carregado de significado.

Presa pelo pessoal de Negan, Carol encontra um terço católico de oração que serve para ajudá-la em sua situação. Sua algoz pergunta-lhe se deseja negar sua fé.

Dwight que Daryl não quis matar, volta e mata Denise.

Carol usa sempre o terço consigo, da metade desta temporada em diante ele torna-se um forte símbolo de busca pela paz.

Morgan e Carol que desistiram de matar acabam poupados do encontro com Negan. Carol clama a Deus prestes a ser assassinada e é socorrida em um instante. O homem que Morgan não deixou Rick matar, é quem socorre Carol.

Conclusão

Esta temporada prometeu, no gancho da anterior, uma dialética sobre a pena de morte, mas como tal assunto é muito complexo, acabou ficando pela metade. Neste andamento, primeiro o grupo enfrenta o maior problema possível com zumbis, em seguida surge o maior problema possível com humanos. Antes, já haviam lidado com um zumbi aqui e um humano ali, mas agora a questão é muito séria e ameaça a vida e a liberdade de todos.

Lidar com uma questão tão ampla, também requer passagens e análises de outras inúmeras questões, como fé, liberdade, riqueza de circunstâncias, enfim, e todas são muito bem exploradas.

Portanto, dentro do possível, por 16 episódios apenas, o seriado debruçou-se muito bem sobre estas questões com a temática principal.

Uma nota 9,5 é justa, deduzida algumas fraquezas de atuação do elenco, no mais a entrega foi de acordo com a proposta.

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