O livro A sutil arte de ligar o f*da-se, do americano Mark Manson dono do site MarkManson.net, publicado no Brasil pela Intrínseca, contém apenas 162 páginas.

Manson inicia a exposição de ideias falando sobre o que devemos dar foco e o que não merece nossa atenção, afim de que não gastemos nosso precioso tempo com banalidades que apenas nos atrasarão na busca por nossos objetivos.

Em seguida fala-nos sobre como a conotação de felicidade contemporânea, estabelecida como meta pode ser um erro, um problema que nos fará andar em círculos sem resultados tão satisfatórios quanto esperávamos e da relação entre realização e sacrifício, na qual o sofrimento é necessariamente uma etapa no caminho para os objetivos finais.

Na continuação deste raciocínio, Manson nos oferece uma perspectiva de como podemos acabar exagerando e nos tornando arrogantes ou vitimistas quando nos deparamos com problemas que não nos sentimos capazes de resolver. Explica como estas situações podem nos transformar em iludidos ofuscados, que se comportam como pessoas especiais ou excepcionais, sem contar que na verdade, nossos problemas todos são comuns. Oferece uma perspectiva libertadora do quanto nos enganamos ao estabelecermos metas inalcançáveis e de como isto se tornou uma nociva mentalidade da moda.

Ressaltando a relevância de descobrir por quais caminhos sofridos queremos atravessar, o autor nos conta as histórias de heróis de guerra e músicos famosos que realizaram grandes feitos porque queriam de alma alcançar tais resultados, exemplificando com isto que toda atividade terá sua estrada e que cabe a nós decidirmos quais desafios queremos enfrentar, e quais medidas de valores existem.

Oferecendo um método para auto-reavaliação, o autor procura primeiro demonstrar como somos responsáveis por nossas escolhas mesmo na pior das adversidades e explora a relação entre responsabilidade e culpa.

Manson ainda explora o caráter transitório de nossas crenças, no qual as certezas de ontem são derrubadas pelas experiências do hoje num contínuo processo de reaprendizagem. Para tal ele nos oferece exemplos como da jornalista novaiorquina que criou falsas lembranças e chegou a acusar um inocente de um crime que não aconteceu, para depois recuperar a memória e arrependida voltar atrás. Expõe a relação entre nossas crenças e nossa identidade, de como é limitador definirmo-nos por elas. Após os raciocínios propostos, Mark sugere exercícios de auto-reflexão que podem produzir auto-conhecimento.

Explicando a relação entre sucesso, fracasso e nossos valores, o autor nos mostra a perspectiva transitória do quanto isto pode ser grandioso ou minúsculo, a necessidade de encarar as dores oriundas das dúvidas e como dar início aos nossos projetos.

Então, já na reta final, o autor explica com nitidez a diferença entre felicidade e euforia, expõe novos ângulos sobre a importância de se dizer não e porque devemos sacrificar superficialidades em prol dos benefícios que se obtém quando nos aprofundamos naquilo que vale a pena. É a relação entre liberdade e responsabilidade, que passa pela consciência.

Encerrando a epopeia do vôo sobre sua mentalidade, Mark fala-nos sobre a diferença entre a pretensão à vida e a vida real, entre a superficialidade da euforia juvenil e a profundidade do comprometimento maduro, e de como o advento da morte pode ser um despertar impiedoso, mas impiedoso e glorioso.

Eu quero recomendar este livro com duas ressalvas críticas. A primeira é que trata-se de uma leitura fácil, rápida, prazerosa, reflexiva e contagiante, e no entanto, justamente, por ser estudante de filosofia e possuir minhas próprias convicções, eu não concordo com boa parte do que o autor afirmou; portanto chamei a esta leitura de reflexiva. A segunda está emendada na primeira: o autor comete a ousadia de falar por todos, suas considerações são quase todas na primeira pessoa do plural no indicativo: o “nós“. E aproveitando-se desta extensão inapropriada acaba por misturar suas preferências políticas de esquerda, como preconceito contra ocidentais brancos de classe média e atribuir culpas ao capitalismo que já são lugar-comum em textos de esquerdistas. Apesar das bobagens típicas de pseudo-filosofia, o livro é legal e a leitura é prazerosa.

Um toque pessoal: eu recomendo ler o último capítulo ouvindo Shine On You Crazy Diamond do Pink Floyd na versão completa e sem pressa para terminar.

O autor já havia causado sensação ao passar pelo Brasil anos atrás e deixar uma carta aberta em seu site, que foi lida na altura pela Bel Pesce e que vale a pena conferir.

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