Procurando novas inspirações, li em algum lugar recomendações sobre este seriado, True Detective, que foi ao ar em 2014 pela HBO.

Como todo episódio piloto é diferente do resto do seriado, geralmente muito mais caprichado que os demais e ponto do qual se entende, que o piloto não é dado suficiente para avaliar o todo, mas apenas para entender o que supostamente virá pela frente, examino aqui, com estes olhos, este episódio.

De cara me surpreendeu muito ver Woody Harrelson no papel do Detetive Martin Eric Hart, estou acostumado com Harrelson fazendo papéis excêntricos e marcantes, como Assassinos por NaturezaO povo contra Larry Flynt, e inclusive está trabalhando como Cletus Kasady o Carnificina, no filme Venon da Marvel ainda este 2018. Em outras palavras, embora a filmografia de Harrelson seja extensa, seu potencial artístico é também aquele ponto fora da curva, o cara interpreta este ano o maior serial killer dos HQ’s de todos os tempos (Carnificina), já interpretou psicopata no casal de Assassinos por Natureza, o excêntrico imoral de O povo contra Larry Flynt, como outros personagens que nada tem de excêntricos e assassinos. É estranho para mim, vê-lo num papel de homem de família, policial comum, detetive mediano, trabalhando só para manter uma família, ser feliz no almoço de domingo e lutando para ser o mais comum quanto possível. No entanto, Harrelson novamente me surpreendeu e encarnou muito bem Martin Eric Hart.

Matthew David McConaughey por sua vez, com seu depressivo, niilista e filosoficamente schopenhaueriano, Detetive Rustin Spencer Cohle, ganhou mais minha atenção. Aliás, 2014 foi o ano de McConaughey: ele ganhou Oscar pela atuação em Dallas Buyers Club (Clube de Compras Dallas) e foi indicado pelo trabalho em True Detective. Rustin é intenso e misterioso, é aquele personagem que você não sabe se vai fazer alguma tremenda besteira com um surto de loucura, ou se vai solucionar tudo de repente com um ato de genialidade. A carreira do ator é repleta de pequenas realizações, algumas muito premiadas, mas em geral filmes B, portanto ele nunca havia chamado muito minha atenção. Agora chamou.

O caso apresentado no piloto é de um serial killer, inteligente e cuidadoso, que está assassinando garotas em um tipo de ritual satânico. É claro que colocar como detetives um sujeito medíocre que ama a mediocridade e um excêntrico inveterado é sempre uma boa receita para inesperadas reações químicas. A dupla se apresentou com um potencial incrível, meio lugar comum, mas que vale a pena conferir.

O roteiro é de uma velocidade mediana e uma complexidade temporal que mistura passado e presente, propositalmente não fornece todas as informações necessárias para o desenvolvimento linear do raciocínio, por tratar-se de uma estratégia para manutenção do suspense. Acaba por delinear bem os personagens e apenas dar pitadas do tempero quanto ao que vem pela frente. Ver passado e presente se cruzando, é sempre uma forma desafiadora.

A fotografia é um desbotado vespertino angustiante, que sugere morte e harmoniza tanto com as personalidades dos protagonistas, quanto com o caso que investigam, quanto com o clima “e daí?” da cidade esquecida e sem movimento. Inclusive esta fotografia me lembrou em muito as músicas “Ends” do Everlast, e “Pepper” do Butthole Surfers (na minha opinião deveriam ter feito parte da primeira temporada em algum momento).

A trilha sonora, “Far From Any Road” do The Handsome Family, entra na cabeça e fica tocando sozinha, é aquele tipo de deliciosa condenação que você não quer mais parar de ouvir: um compromisso sério com o repeat.

A edição não apresenta novidades em relação as demais de sua época, mas é um trabalho digno dado o clima emocional que trabalha.

A direção é notável ao reunir toda essa equipe com um horizonte claro e entregar esse baluarte do desespero pintado no barroco contemporâneo. Fascina, é como estar prestes a morrer, pintando um quadro e tocando uma música, que descrevam perfeitamente seu momento. Em outras palavras, um neo-noir, gótico sulista, stricto sensu.

A série de Nic Pizzolatto promete. Para este piloto vou dar uma nota 10,0, mas sem esperar muito dos próximos episódios.

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